Vídeo: DR

Entrevista a António Vilela, presidente da Câmara de Vila Verde

José Carlos Ferreira
4 Mai 2020

O presidente da Câmara de Vila teme que a crise seja paga pelas família, com a perda de rendimentos.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
António Vilela (AV): Eu olho para a evolução da economia com muita preocupação. Uma preocupação que resulta do facto de muitas empresas estarem paradas. Mas, sobretudo uma preocupação pelo facto de muitas das pequenas e médias empresas, das empresas familiares, estarem praticamente todas encerradas. São os estabelecimentos da restauração, cafés e similares, os cabeleireiros, os salões de estética. São os pequenos negócios familiares que, fechados, estão a criar nas famílias limitações financeiras graves. Eu diria que uma coisa arrasta a outra, e o facto de estarmos com um problema em braços, que é controlar a pandemia, sem saber em que momento isto vai terminar, sabemos que vão ser necessárias medidas muito acertivas no que diz respeito àquilo que vai ter de ser a nossa ação global de contrariar este processo recessivo da economia. Por isso, eu diria que, acima de tudo, é com preocupação que olho para o quadro económico do concelho.

DM: Os empresário já lhe fixeram chegar ass suas preocupações?
AV: Eu tenho vindo a falar com os empresários e também conheço as preocupações deles. As preocupações deles passam por criar a sustentabilidade das empresas, encontrar formas para que possam continuar a encontrar uma saída no sentido se recolocar o seu volume de negócios ao nível daquilo que estava antes da crise. No entanto, têm consciência que nos próximos tempos isto não vai ser igual. Mesmo assim, os empresários do concelho estão com alguma expectativa que o Governo possa também encontrar mecanismos de apoio para que as empresas possam retomar a sua atividade. O município, obviamente, fará o seu papel dentro daquilo que for as suas limitações. Aliás, nós já tomámos algumas medidas nesse sentido. Mas, claramente, este é um problema que ultrapassa a capacidade e as competências dos municípios. Terá que ser um processo muito articulado entre autarquias, empresas, o Estado e, obviamente, a União Europeia, que tem uma palavra a dizer. Os empresários têm uma preocupação fundamental que é o facto dos mercados para onde exportavam também estarem em crise, e isso é um problema acrescido. Mesmo os empresários da construção civil estão com esta dificuldade, uma vez que alguns deles também têm empresas paradas fora de portas.

DM: O que é que a autarquia tem feito, e pretende fazer, para ajudar estes empresários?
AV: A autarquia tem feito várias coisas para ajudar os empresários, para ajudar as pessoas em particular, e para ajudar as instituições. Dentro daquilo que são as taxas, os licenciamentos e dentro daquilo que é o contexto em que a autarquia fornece serviços a essas empresas, como a fatura da água. Determinámos apresentar uma fatura da água sem qaulquer custo para as empresas durante este período e durante um período mais prolongado que já está definido, com o objetivo de dar-lhes apoio. Para a população já definimos um pacote de serviços que serão reduzidos ou gratuitos e, para as IPSS também já definimis que, por exemplo, a fatura da água será com custo zero.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
AV: Em cada momento, as medidas são avaliadas em função das circunstâncias, em função do tempo. O Governo, tal como as autarquias, tem que tomar decisões e toma-as em função daquilo que é a expectativa para aquele determinado momento, sendo que uma avaliação mais rigorosa e mais atenta do problema vai exigir também outras medidas. Eu julgo que, nesse aspeto, vai ser necessário repensar outras medidas, vai ser necessário reforçar muitas outras para determinados setores de atividade para que não passem por crises maiores. Enfim, eu julgo que o tempo vai obrigar quer os municípios ,quer o Governo, quer a própria União Europeia a alterar a sua posição face às medidas. Neste momento, eu acho que ainda não se conhece muito bem a situação. Sabemos que vai ser dramático e toda a gente já o percebeu. Para a economia, este momento vai ser dramático. Mas, também é preciso conhecer bem o problema para agir de acordo com aquilo que será a evidência da altura. Esperemos é que haja condições para tomar essas medidas de apoio aos agentes económicos, para que a economia continue a funcionar.

DM: Mesmo com estas medidas implementadas pelo Governo, acha que é inevitável o aumento da taxa de desemprego?
AV: Não tenho dúvidas nenhumas que a taxa de desemprego vai crescer. Vai crescer e será significativamente. E vai crescer por várias razões. Desde logo, do ponto de vista dos consumidores, o comportamento vai-se alterar, e isso vai fazer com que as empresas não consigam atingir o volume de negócios, pelo menos a curto prazo, que tinham agora durante estes últimos anos. O setor do turismo, por sua vez, vai ser muito atingido, mas isso vai ser transversal a muitos outros setores da atividade económica. Reparem, as empresas de transportes, quer sejam rodoviários, ferroviários ou aéreos estão com problemas enormes. A hotelaria, a restauração e todos os comércios que andam à volta disto também estão com problemas. E depois, no setor produtivo, a própria agricultura vai ter alguns problemas de produção e de escoamento nos próximos tempos, porque os comportamentos das pessoas mudaram. Vamos ver quando é que vamos conseguir retomar os nossos comportamentos. E há uma coisa que não deverá ser feita neste momento que é reduzir às pessoas a sua capacidade económica através dos seus salários, porque se isto acontecer os mercados vão cair ainda muito mais. Portanto, manter o mesmo nível de rendimentos das famílias será extremamente importante para a retoma ser feita com maior rapidez

DM: Ou seja, não retirar o poder de compra às famílias?
AV: Exatamente, Manter o poder de compra das famílias é essencial para que a retoma económica possa ser mais rápida.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor no seu concelho?
AV: O turismo vai ser a atividade no país, e não apenas no concelho de Vila Verde, que mais vai sofrer. O turismo em Vila Verde cresceu ao mesmo ritmo que cresceu no país e, agora, tal como cresceu, também vai sofrer um dano exatamente igual que está a sofrer o país e mesmo o resto do mundo. Esperemos é que esre problema seja rapidamente ultrapassado. Mas, segundo o que dizem os especialistas e que não é difícil perceber, este é um problema que só será ultrapassado quando houver uma vacina para esta pandemia. Enquanto não se conseguir controlar a doença com um medicamento e esta pandemia condicionar a mobilidade das pessoas, o turismo não vai acontecer. Estamos a falar de mobilidade entre regiões e entre países. Eu diria que, para o turismo, este é um ano perdido.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
AV: O setor social tem que se preparar para fazer face à diminuição dos rendimentos das famílias. Nós, neste momento, já temos um plano no terreno de apoio às famílias e vamos continuar com esse plano, mas iremos nos próximos tempos reforçá-lo à medida que for sendo necessário. Isto vai exigir um esforço enorme dos municípios e do Estado. Vai ser necessário alocar recursos para fazer face a essas dificuldades sociais que já estão a surgir. Se calhar os planos que temos agora não serão suficientes para as necessidades que vamos ter nos próximos tempos.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
AV: Nós já lançámos este ano, até fim de março, um volume de investimentos muito considerável. São investimentos associados a fundos comunitários e outros fundos a que a autarquia recorreu. Se esta crise ficar um pouco controlada daqui a algum tempo, as obras arrancarão todas. É um grande incentivo para o crescimento económico e sobtetudo para a criação de emprego e o relançamento do mercado de trabalho. A autarquia também tem neste momento 41 vagas de emprego.



Outras Reportagens


Scroll Up