Vídeo: DR/Ana Marques Pinheiro

Os cargos que ocupam fazem destas mulheres profissionais da primeira linha. Daniela Ribeiro, Ana Cristina Pereira, Odete Oliveira, Maria Peixoto, Maria Pinheiro e Orlanda Marques são os rostos de quem sai de casa para zelar pela saúde e segurança de todos. Não se apelidam de heroínas mas não negam a vontade de cumprir a sua missão, mesmo que custe a distância da família.

Ana Marques Pinheiro
3 Mai 2020

Ana Cristina Pereira é enfermeira, neste momento, nos cuidados intermédios do Hospital de Famalicão na área dedicada a doentes infetados com a Covid-19. Assim que a situação se começou a agravar em Portugal, Ana Cristina conta que imaginava como seria a realidade dentro de pouco tempo no “seu” hospital. 

«Via na televisão os profissionais nos outros países a tirarem os equipamentos de proteção individual e a mostrarem a cara cheia de feridas, a dormirem nos hospitais, a trabalharem turnos e turnos seguidos e só pensava se isto podia acontecer no meu hospital», disse. A enfermeira explica que é «impossível» separar a vida pessoal da profissional. 

«Quando estou em casa estou sempre em contacto com colegas, por mensagem, a questionar como estão os doentes, se os enfermeiros, médicos e assistentes operacionais estão todos bem, se ninguém está com sintomas sugestivos da Covid-19, se entrou mais algum doente que tivesse sido transferido para os cuidados intensivos», afirma. Ana Cristina relata ainda que trabalhar por turnos «não é fácil» e que ao fim de um turno cansativo chegar a casa e ter o filho a pedir, por exemplo, para montar um puzzle é um esforço grande.Neste momento, tudo isso mudou. 

 

 

O filho de Ana Cristina está com os avós, não por causa de um turno de oito horas, mas de um mês. «Chego a casa, muito cansada é certo, e dava tudo para montar um puzzle de 500 peças que fosse», confessa. A profissional de saúde refere que é complicado explicar a uma criança que tem de ficar longe da mãe, longe da sua casa, do seu quarto, dos seus brinquedos por tempo indeterminado, por um motivo invisível aos olhos.

«É difícil ouvir: “Mãe já não me lembro de ver a tua cara ao vivo. Podes tirar a máscara só para eu ver a tua pele?”. Quando ouvi isto só pensei: Porque é que esta máscara não me cobre os olhos para ele não ver as lágrimas que me estão a correr?», revelou.

Ana Cristina Pereira conta que o acompanhamento escolar é feito pelos seus pais. «Vou tentando, sempre que consigo e que não estou a trabalhar, fazer videochamadas para lhe tirar dúvidas e o ajudar nos trabalhos de casa. Hoje em dia o que vale são as novas tecnologias para diminuir a distância», refere.

Todos os dias que chega a casa, Ana Cristina vê um quarto vazio e uma televisão que não está ligada num canal infantil. Atualmente explica que o sentimento inicial do desconhecido já foi superado, mas que está longe de tratar «o coronavírus por tu».

 

 

Noutra unidade hospitalar está Maria Pinheiro. É assistente operacional no Hospital de Braga e explica que o coronavírus foi uma novidade mas que nunca pensou em desistir do seu trabalho. «Eu tinha medo de ficar infetada mas não podia desistir, eu tinha de trabalhar naquilo que eu adoro fazer», evidenciou.

Quando o número de infetados começou a subir e viu colegas de trabalho com a Covid-19, Maria optou por passar a dormir sozinha e ter uma casa de banho própria em casa.

A assistente relata que queria estar com a família e dar um beijo ao filho e não podia.  «Nunca me passou pela cabeça ficar em casa, nunca quis fugir desta realidade. Muitas vezes pensava, isto é um pesadelo? Será mesmo verdade?», disse.

Maria Pinheiro conta, entre risos, que o filho ainda hoje se afasta quando chega a casa. «Desde que tudo começou nunca mais lhe dei um beijo. Eu acho que agora já podia, mesmo assim…», desabafa.

O filho é acompanhado na escola pelo pai que está em casa.

Sair à rua continua a ser para Maria Pinheiro uma nostalgia, embora repare que «há mais carros e pessoas». O mundo fora do hospital é uma sensação que não encontra explicação. «Ainda me comovo muitas vezes, mas estou forte para continuar a trabalhar», disse.

 

 

Orlanda Marques é auxiliar de saúde e também bombeira voluntária há quase 14 anos. Pertence à equipa dos Bombeiros Voluntários de Braga. Conta que a filha tem 22 anos e já foi bombeira. 

«Tenho a sorte de ela entender o porquê de eu ajudar a salvar vidas e tenho o apoio incondicional dela», nota. O receio de ficar infetada pelo novo coronavírus fez com que mudasse alguns hábitos, principalmente ao chegar a casa. «Deixo sempre os sapatos à porta, não cumprimento a minha família e os meus animais como antigamente, tomo banho, ponho logo a roupa do trabalho a lavar e faço um reforço para uma maior da limpeza da casa», explica.

Orlanda destaca que «é muito complicado» separar a vida profissional da pessoal, porque nestas situações «há sempre grandes medos e receios» que a acompanham o dia todo no trabalho e é «inevitável levar para casa». «Eu tento gerir as relações familiares com mais paciência e tolerância devido à sensibilidade que este momento provoca na minha família. Também é importante que eu e a minha família nos mantenhamos unidos, com força e acima de tudo tenhamos sempre em mente a esperança que tudo ficará bem», acrescenta.

A bombeira relata que por um lado não consegue estar tão presente como gostaria na vida da filha, mas por outro sente que o pouco tempo que tem com ela, dedica-se a 100%.

A pandemia fez com que Orlanda Marques aprendesse a valorizar a vida de uma forma «totalmente diferente». «Aprendi que a família é a coisa mais importante que possuímos, que o dinheiro não compra tudo e que o ser humano é mais vulnerável do que aquilo que todos nós pensávamos», confessa.

Para o futuro a apreensão resume-se à possibilidade de haver uma segunda vaga em Portugal, que a filha não consiga regressar ao estrangeiro para continuar os estudos e que lá as condições de segurança ainda não sejam as melhores.

 

 

Maria Peixoto é comandante do Destacamento Territorial da GNR de Braga e conta que, quando a situação da pandemia começou a agravar-se, o maior receio foi poder contrair o vírus, transmitir ao filho que depois podia propagar para os pais, que são pessoas consideradas de risco. «Era com eles que ele ficava todos os dias até esta situação despoletar», explica.

A capitão Maria Peixoto relata que, ainda hoje, quando chega a casa abstém-se de contactar com o marido e filho até tomar banho e consequentemente trocar de roupa. «Deixo à entrada os artigos que utilizo durante o dia e desinfeto aqueles que obrigatoriamente têm de me acompanhar, como o caso do telemóvel», especifica.

Em virtude da posição que ocupa, Maria Peixoto explica que quando está no trabalho facilmente separa a vida profissional da pessoal, mas o contrário já não se verifica. «Quando estou em ambiente familiar e pessoal tenho de estar permanentemente disponível para o serviço, designadamente através do telemóvel, correio eletrónico e outras plataformas em uso na Guarda», considerou.

Relativamente ao tempo de qualidade que despende com o filho, Maria Peixoto confessa que toda esta situação absorve mais tempo do que o normal. A comandante explica que tem uma atenção redobrada aos meios de comunicação e a qualquer contacto.

A capitão Maria Peixoto atualmente não mantém contacto com os familiares, excetuando com o seu agregado.

 

 

Daniela Ribeiro é médica de família em Braga  e desde do início da crise pandémica que, em conjunto com a família, decidiu que se ia manter na mesma casa. «Assumimos esse risco. Com o conhecimento que tínhamos, percebemos que não era um vírus que, por norma, atingiria de forma fatal crianças e pessoas saudáveis», disse.

Por ser profissional de saúde e por lidar com doentes, fez com que a família mais próxima a visse como «um risco acrescido». Descreve ainda que o início da situação da pandemia foi mais atribulado porque passava muito tempo a perceber os novos procedimentos e normas para que nada falhasse. 

A profissional de saúde tem uma filha e conta que, na verdade, acaba por passar mais tempo com ela agora do que quando ia para a creche. «Eu digo sempre que a minha filha está muito feliz. Não está nada incomodada com isto», relata.

Os medos que antes sentia, já não estão tão presentes.  «Era um choque sair de casa e não ver ninguém na rua. Isto nem parecia real. Mesmo assim nunca me senti contrariada ou infeliz com a minha profissão. Sentia sim orgulho no que estava a fazer», confessa. 

Agora o maior desejo de Daniela Ribeiro é saber quando é que poderemos todos «voltar à normalidade».

 

 

Odete Oliveira é agente principal na PSP de Braga e exerce funções na área da investigação criminal. 

Conta que toda esta situação fez com que houvesse ajustes na equipa e nos turnos. Odete Oliveira realça que a preocupação de contrair o vírus nunca pôs em causa a missão de repor a ordem, de zelar pelos bens e pela saúde dos outros. Pensava que podia levar a doença para a família que estava em confinamento em casa, «mas mais do que nunca a sociedade precisava de nós a 100%».

«Esta é uma altura em que a nossa família é muito importante para nós. Ter a minha filha em casa é uma vantagem. O infantário e as profissionais que lá trabalham enviam várias atividades e dinamizo esses trabalhos com ela em casa. Como trabalho por turnos consigo estar mais tempo com a minha filha agora do que conseguia antes e isso para mim é muito gratificante. Faço um esforço grande no trabalho, depois chego a casa e consigo estar mais tempo com o meu marido e com a minha menina», menciona.

A agente principal destaca ainda que o número de ocorrências tem aumentado. Como as pessoas estão em casa, observam mais e as solicitações aumentam.  «Antes acontecia verem uma situação e não diziam nada por medo. Neste momento tudo o que vêm reportam-nos e nós andamos no terreno a verificar as situações que nos são postas», revela. 

Odete Oliveira não se recorda de uma situação semelhante na vida e salienta que está habituada a lidar com muita gente em ambientes como jogos de futebol, manifestações, e ainda no centro da cidade, que costuma estar sempre com muito movimento.  «O nosso maior desejo é que possamos passar esta fase e que estejamos todos bem. Porque a parte económica vamos tratar mais para a frente. Vamos conseguir ultrapassar desde que estejamos todos vivos e com saúde», explica.

O sentimento agora é de esperança e inquietação, «uma vez que vão ser abertas as restrições». «Eu penso que a população em geral está a reagir muito bem a esta situação e tem sido respeitadora. Vamos ver agora como vamos reagir para que não haja um descontrolo e uma segunda vaga», finalizou.




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