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Entrevista a Vítor Paulo Pereira, presidente da Câmara
de Paredes de Coura

José Carlos Ferreira
2 Mai 2020

O presidente da Câmara de Paredes de Coura acredita que a atração de investimentos criadores de emprego vai ser essencial na pós-pandemia.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Vítor Paulo Pereira (VPP): O que aconteceu aqui em Paredes de Coura, por iniciativa própria e por isso é que é de louvar, porque implica um sacrifício pessoal e económico, foi que a grande parte dos comerciantes decidiu fechar. Alguns até fecharam antes da declaração de Estado de Emergência. As multinacionais, algumas delas, fecharam duas ou três semanas e agora estão a planear o regresso que, eventualmente, poderá acontecer nos tempos próximos, dependendo do prolongamento do Estado de Emergência e até da evolução da própria pandemia. Ou seja, há retração económica e isso preocupa-nos. Por isso, nós, na Câmara Municipal, nunca deixámos de trabalhar na captação de investimento, e todos os projetos que tínhamos nessa área, pelo menos, não ficaram no papel e continuamos ativos na captação de investimento, porque sabemos que temos que criar mais emprego porque esta crise vai levar à destruição de muitos postos de trabalho.

DM: Então a autarquia não baixou os braços na captação de investimentos?
VPP: Não. Eu acho que aquilo que melhor caracteriza a Câmara de Paredes de Coura é a sua estratégia inteligente de captação de investimento. E nós, neste momento, até estamos a tratar da implantação de duas novas indústrias que vão ser essenciais no período pós-pandemia. Nós estamos a ter uma pandemia viriológica e podem ter a certeza que a próxima pandemia será económica e tão grave como esta, que levará ao desemprego e à baixa de rendimentos, para algumas famílias, brutal, que poderá pôr até em causa a estabilidade do próprio agregado.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
VPP: Esse é o eterno problema. É evidente que as medidas são as adequadas. Agora, obviamente, que fazia falta mais dinheiro. No entanto, o dinheiro que podemos injetar na economia também está dependente das possibilidades financeiras do próprio país. Qualquer governante ou decisor político teria vontade de ajudar mais do que está a ajudar, mas temos que ter em conta as limitações económicas e financeiras do país. Apesar de eu acreditar, não é nenhuma teoria macroeconómica, que esta não é uma crise estrutural, que tivesse origem na economia, que estava a crescer. Isto acaba por ser um terramoto, eu diria, quase épico e de um filme. Portanto, o que vai acontecer é termos agora uma crise localizada, brutal com efeitos nefastos, muito negativos, mas depois a recuperação, penso eu, também acontecerá rapidamente, porque a crise que estamos a viver não é estrutural, não é endémica da própria economia. É um fator externo.

DM: Mesmo com estas medidas, é previsível um aumento da taxa de desemprego?
VPP: Isso é previsível, porque a destruturação económica e dos circuitos de produção e de venda estão completamente destruturados. Por isso, o que vai acontecer é que nos próximos tempos, exceptuando o sector da produção, os outros circuitos vão estar quebrados, partidos, o que leva à diminuição da procura. E, com a diminuição da procura, as fábricas perdem encomendas e, a partir daí, é toda uma cascata de consequências que vai afetar a própria vida das empresas e o próprio emprego. Isso é óbvio.
DM: Em Paredes de Coura, o desemprego vai ser um flagelo nos próximos tempos?
VPP: Em Paredes de Coura, como em todo o país, vamos ter desemprego. Os concelhos que têm uma estratégia contínua de captação de emprego, que não baixaram os braços e continuaram no esforço para criar novos postos de trabalho, esses terão melhores condições para sair da crise. Agora, aqueles concelhos que estabilizaram o seu tecido empresarial, que não tiveram uma atitude mais dinâmica, esses vão perder emprego, não vão criar novos postos de trabalho e vão ter maiores dificuldades para sair da crise. Ninguém pode adormecer à sombra do sucesso.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor?
VPP: Os danos, em algumas circunstâncias, vão ser irreparáveis, sobretudo para aquelas empresas que, pela sua própria natureza, não conseguiam acumular riqueza e viviam do dia a dia, essas vão sentir um rude golpe. As outras empresas que têm mais estrutura, um folgo maior, obviamente que já têm o seu pé de meia para resistir à própria crise. No setor do turismo tem sido uma desgraça completa porque está completamente parado. E o que é mais preocupante é quando nos dizem que isto vai ser uma maratona e que a recuperação económica vai demorar tempo, imaginar como vai ser neste setor do lazer. Sabemos que o lazer vem depois da atividade económica e, aqui em Paredes de Coura, como nos outros concelhos, também se sente isso. O turismo não é só alojamento, é alimentação, é consumo. O turismo alimenta uma série de atividades que são satélites à própria ideia de alojamento. E, em Paredes de Coura, como nos outros concelhos, estamos a sofrer muito.

DM: A restauração está fechada? Isso preocupa-o?
VPP: Está completamente fechada. Como é evidente, preocupa qualquer pessoa. Há negócios mais fortes do que outros, mas também há negócios novos que surgiram e apanharam de imediato com estas circunstâncias. Estes só têm duas formas de sobreviver, ou conseguem uma renegociação do prazo de pagamento mais longo, ou acabam na falência.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
VPP: Vai haver uma maior procura. Vai haver uma maior procura pelas ajudas sociais. Nós, nos serviços de Ação Social de Paredes de Coura já estamos a planear essa situação, que vai, obviamente, levar-nos a repensar a própria estratégia orçamental da Câmara. Isto vai-nos obrigar a um maior esforço orçamental no âmbito social. O dinheiro não estica e temos que cortar noutros itens. Agora, o que eu acho é que faz todo o sentido reforçar neste momento as ajudas no setor social, porque eu acho que é justo, é digno e é socialmente indispensável ajudar nesta altura as pessoas que mais sofrem com a crise e, sobretudo, as famílias que têm filhos e têm muitas dificuldades. Por isso é que eu acho que é preciso reforçar o setor social, mas, simultâneamente, apostar na captação de investimento e na criação de emprego. Só assim podemos sair rapidamente desta crise.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
VPP: Numa reflexão, rápida, não. Nós tentámos que esta crise não nos perturbasse muito. Ou seja, perturba sempre, mas nós continuamos com a mesma estratégia. Exemplo disso é o movimento de esforço na captação de investimento que nós já tínhamos desenvolvido e preparado antes da crise, que já estava num grau de maturação avançado. Nem nós nem os próprios empresários, como já tínhamos ambos dado passos muito avançados, já não havia muitas hipóteses de regresso. Agora, eu acredito que, se estes investimentos e a nossa estratégia ainda fossem muito em fase inicial e incipiente alguns iam por água abaixo.

DM: Associado aos tempos de crise está, muitas vezes o aumento da criminalidade. Receia o aumento da violência?
VPP: Até agora eu não tenho notado isso. Até agora, na vez desses sentimentos negativos, de criminalidade, de instabilidade social, o que temos assistido é a um grande esforço de união, em que as pessoas estão unidas, em que as pessoas estão motivada, em que as pessoas tem um espírito de partilha, que deixa qualquer um comovido. Ou seja, eu até acho que a sociedade estava, de certo modo, adormecida e agora penso que esta mesma sociedade recuperou aquilo que eu considero ser um dos bons suportes da própria humanidade, que é o espírito de comoção. Eu tinha a ideia que as pessoas perderam o espírito de comoção e esta crise trouxe-nos, de certo modo este espírito de comoção, desejo de partilha e esta vontade de unir esforços.



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