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Entrevista a José Lopes, Provedor do Idoso em Guimarães

Rui de lemos
1 Mai 2020

José Lopes foi o primeiro Provedor do Idoso no país. Trabalha no concelho de Guimarães, como voluntário, desde 2017, e mantém comunicação regular com a população sénior. É a voz e o apoio que ajudam a combater o isolamento. Mas estes dias de forçado retiro e solidão trocaram-lhe as voltas, tal como à legião de idosos que seguia.

 

DIÁRIO DO MINHO (DM):
Combater o isolamento dos idosos tem sido a sua principal missão como Provedor do Idoso de Guimarães, o primeiro município a criar esta figura, há três anos. Nestes dias de pandemia, como tem travado esse combate?
JOSÉ LOPES (JL): De forma diferente, porque também eu estou forçado a cumprir quarentena e a ficar mais isolado em casa. Mas as minhas saídas e ações continuam, naturalmente, próximas dos nossos idosos. A Câmara de Guimarães criou um Gabinete de Crise e, naturalmente, aceitei fazer parte e sou uma das cinco pessoas que integra essa equipa para gerir a situação dos nossos seniores nesta fase difícil e complicada, sobretudo para eles.
Por isso, no âmbito desse Gabinete estamos em contacto permanente, pelas redes sociais e videoconferencia, além de termos uma máquina municipal montada, com 11 profissionais, que estão permanentemente a ligar e a contactar com as Juntas de Freguesias, um vasto conjunto de instituições sociais e idosos. Ou seja, temos uma equipa vasta que está a auxiliar e é capaz de atuar perante todas as fragilidades que sejam detetadas na população idosa.

DM: Quais são as necessidades e fragilidades mais sentidas ou reportadas?
JL: São muito as refeições e a medicação, mas que estão a ser plenamente asseguradas.

DM: Significa que a atividade formal do Provedor do Idoso está suspensa, mas vem sendo exercida de outras formas.
JL: Exato. Com esta proibição de convivência, não há contactos a não ser à distância, mas a estrutura de apoio municipal criada vai dando e criando as respostas necessárias a todas as solicitações.

DM: Essa resposta dirige-se às situações de abandono e dificuldades mais agudas, mas um dos cenários dramáticos desta pandemia atinge lares. Também está contemplada essa resposta ou apoio por parte do serviço municipal?
ACL: Sim, este acompanhamento também inclui os utentes dos lares de idosos que são, atualmente, a preocupação maior. Posso até revelar que a equipa que faz os testes de despistagem do covid-19 estará apta para apoiar os nossos lares já a partir desta segunda-feira [dia 30], com 100 testes de diagnóstico exclusivos para estes idosos. Aliás, ironicamente, a grande preocupação passou dos idosos que estavam sozinhos em casa – com quem continuamos, naturalmente, preocupados – para os utentes concentrados nos lares. Neste âmbito, também sei que a maior parte das nossas instituições têm já equipas fixas e residentes nos lares, dormindo lá, para assegurar uma vigilância e apoio permanentes.

DM: Guimarães regista apenas um caso positivo nos lares do concelho, mas este é o “barril de pólvora” do impacto da pandemia na população mais idosa?
JL: É, tem sido, sendo a população mais idosa a de maior risco. Em Guimarães, estamos a fazer tudo para que não seja.

DM: Além das medidas tomadas, a população mais velha também tem que ter cuidados. Porque é que tem sido tão difícil que cumpram algumas recomendações?
JL: Julgo que por duas razões fundamentais. A primeira de ordem cultural, de responsabilidade perante os filhos, a família, os afazeres que têm sempre como muito importantes, mesmo que possam não ser. A segunda, talvez a mais importante, é que se é verdade que o isolamento dos idosos se impõe verdadeiramente neste cenário, não é menos verdade que isso dói-lhes mesmo muito. As pessoas mais velhas precisam de se sentir úteis, ativas, valorizadas e, nesta condição de isolamento forçado, isso não acontece. Depois, faltam-lhes os afetos no sentido mais físico ou os mimos, porque sem isso é só solidão.

DM: Nessa solidão que também mata, a falta do contacto com os netos ganha particular expressão?
JL: Sem dúvida nenhuma. Essa é uma das partes que mais dói e é muito visível. Para um avô ou uma avó que está habituado ao contacto diário ou regular com os seus netos, esta situação de isolamento é terrível. Basta falar por mim, que tinha nos meus netos uma das minhas tarefas diárias e hoje foi completamente banida dos meus dias. Só o simples facto de pensar nisso já me faz mal.

DM: Apesar de todas essas dores, torna-se fundamental contrariar e inverter esse cenário por um bem maior.
JL: Sem dúvida, é fundamental e decisivo que isso aconteça. Mas também convém não esquecer que muitos dos nossos idosos são analfabetos, sabem pouco mais que o básico de telemóveis, não sabem nada de novas tecnologias e não têm acesso à Internet, antes pelo contrário, têm enormes dificuldades com tudo isto, pelo que se torna fundamental que nós e as famílias lhes transmitam muitas informações, que os sensibilizem e atualizem.

DM: Da realidade que conhece, os familiares têm sabido ser próximos e presentes nestes dias particularmente difíceis dos mais idosos?
JL: Sinto que há uma maior preocupação por parte dos familiares e sei que muitos passaram a telefonar mais vezes. Mas, neste contexto, ligarem e falarem muitas mais vezes com os mais velhos e mais vulneráveis nunca é demais.

DM: As palavras de alento ganham outro sentido neste contexto?
JL: Uma palavra amiga de ânimo, conforto e esperança faz uma enorme diferença. Todo o trabalho que muitas pessoas pessoas estão a fazer, nos lares e junto dos nossos idosos mais isolados, é absolutamente fundamental para todos. Este trabalho, neste contexto, ganha uma dimensão e uma importância que são únicos, tal qual todo o preciosíssimo trabalho que estão a fazer os profissionais de saúde e outros. Todos estamos a viver um acontecimento único e julgo que todos temos sabido, à medida que os dias vão passando, e mesmo considerando que este processo é muito dinâmico, dar uma resposta muito positiva. Sinto que as pessoas estão muito mais conscientes e, realmente, a acatar e a colocar em prática a máxima de que quem ama e respeita tem que ficar em casa.

DM: Enquanto Provedor do Idoso havia identificado cerca de 3 mil idosos no concelho que vivem sozinhos ou acompanhados por alguém da mesma idade. Esse necessário alento tem chegado a todos?
JL: Sim, nesse aspeto Guimarães tem um trabalho e uma rede no terreno que é excelente. Além dos 11 profissionais permanentes que efetuam contactos diários com os nossos idosos, nós temos, felizmente, no âmbito do programa “65+”, mais 42 gestores sociais que têm as suas próprias sinalizações. Cada um deles tem um conhecimento profundo do terreno e uma grande proximidade a essas pessoas, garantindo a satisfação das suas necessidades e essa voz de alento e esperança.
Felizmente também, todas essas mais de duas mil pessoas idosas que vivivam sozinhas nós já as tinhamos referenciadas, com os respetivos contactos e atrubuímos a todas gratuitamente um telemóvel, o que neste cenário, é um bem precioso para garantirmos este contacto e acompanhamento permanente. Além disso, com este telemóvel, as pessoas não pagam nenhuma das chamadas que fizerem e é importante que se eles sentirem que necessitam de ulguma coisa o possam transmitir e sinalizar.

DM: Todas estas medidas são absolutamente necessárias, mas imagino que a imposição do isolamento também tem um impacto psicológico grande nos idosos.
JL: Sem dúvida e o problema é que tudo isto já tem um impacto grande, mas ainda está a começar. Esse é que é o grande problema, o perceber que temos que retirar os idosos das suas rotinas e hábitos, mesmo dos seus contactos diários, com todos os impactos que isto representa, sem sabermos quanto tempo isto tem que durar.
Temos já uma estimativa longa, de muitas semanas, e a cada dia que passa as pessoas idosas ficam mais deprimidas, desorientadas, a angústia e a apatia crescem e isso é bastante preocupante.
Claro que também temos um apoio psicológico ativo para tudo isto, mas o isolamento forçado das pessoas agrava, naturalmente, algumas sintomatologias e provoca também outro tipo de doenças. Enfim, faremos tudo o que esteja ao nosso alcance para que tenham um ambiente o mais simpático e agradável possível, mas sabemos todos que não é fácil.

DM: Como é que se ganha essa batalha e se curam essas maleitas?
JL: A melhor receita é continuarmos todos muito empenhados e comprometidos em vencer o coronavírus o mais rapidamente possível. Havendo sinais e notícias positivas tudo muda. Temos todos que saber resistir, aguentar, sempre mais um pouco e perceber que até o pior pesadelo ou tempestade têm o seu fim. Esta pandemia também terá, certamente.



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