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Entrevista a António Barbosa, presidente da Câmara de Monção

José Carlos Ferreira
30 Abr 2020

O presidente da Câmara de Monção sublinha as incertezas que esta crise ligada à pandemia está a trazer e acredita que será longa.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
António Barbosa (AB): Eu tenho a ideia que isto, infelizmente, vai ser uma maratona e não uma prova de cem metros. E, os danos efetivos causados por esta pandemia só no final é que teremos essa noção. Eu diria que o resultado da pandemia vai se refletir, se calhar, ao longo dos próximos anos. Agora, aquela indústria de maior proximidade que conhecemos, percebemos, naturalmente, o impacto brutal que vai ter. Mais ainda sobre aquele tipo de empresários que têm funcionários e, ao chegar ao final do mês é preciso pagar as contas, as portas estão fechadas, a maior parte das indústrias não está a produzir, Hoje, derivado ao fecho das fronteiras, há uma dificuldade muito grande em conseguir as matérias primas. Eu diria que, neste momento, estarmos a fazer projeções sobre o impacto que isto está a ter sobre as indústrias é um bocadinho redutor. Tudo aquilo que neste momento poderá se dizer sobre isso, acho que vai ficar aquém daquilo que vão ser os resultados e o impacto efetivo que esta crise vai ter sobre o tecido económico. Vamos ter que nos preocupar em resolver rapidamente esta pandemia para podermos ter novamente a economia a trabalhar, as empresas a poder produzir e não esquecer que, enquanto não tivermos a vacina vamos ter que reaprender a viver. Portanto, vai ter que haver uma reaprendizagem da forma como convivemos. Isto sem nunca esquecer que esta é uma maratona e não uma prova de cem metros e, por isso, esta não é a altura para fazer um balanço sobre o que está a acontecer nas empresas.

DM: E em relação às pequenas empresas, como o comércio e a restauração? Sente que há um grande dano a afetá-las
AB: Grande é favor. Há um dano enorme. Em primeiro lugar, as pessoas têm as portas fechadas, mas têm contas a pagar, têm rendas a pagar, têm os salários dos trabalhadores, têm os encargos sobre os salários, as conta da luz. São uma série de situações que, infelizmente, não estão minimamente preocupadas com esta crise que vivemos. Isto preocupa-me porque num território como o de Monção, com um conjunto enorme de restaurantes que temos e muitas pessoas a trabalhar neste setor, de negócios a viver das pessoas que vêm de fora, tudo isto está ferido. Tão grave como a situação que vivemos neste momento, é pensar que não há previsão de quando é que isto vai mudar. De como e quando, e de que forma as pessoas vão olhar para isto e saber se vão voltar a viver numa normalidade, ou se vão continuar sem fazer circular a economia, o que traz prejuízos enormes para este comércio de proximidade, que é dos primeiros a ser muito afetado. Vejo com muita preocupação gente que não vive com os bolsos cheios, gente que vivia o dia a dia de trabalho, não para enriquecer, mas para viver. Portanto, estamos a falar de pessoas para quem ter as portas fechadas mês e meio começam a ter as dificuldades inerentes aos custos fixos que têm e que precisam de ser pagos.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
AB: Eu acho que é muito cedo para poder dizer isso. A questão que aqui se levanta é se temos professores sobre diversas matérias. Sobre esta ainda não é conhecido nenhum. Isto é uma coisa que nunca foi vivida. Sobre as medidas do Governo, eu acho que isto é uma maratona e não é uma prova de cem metros. Este é o problema essencial. Nós, neste momento, estamos a querer tratar um problema que é estruturante com uma simples aspirina, e eu acho que não vai ser suficiente. Eu acho que o Governo tem estado até relativamente bem em relação à forma como tem lidado com esta circunstância, que é perfeitamente anormal. Tem também tentado acalmar os mercados e a economia no sentido de mostrar que está cá e começa a lançar algumas medidas para ir de enconto àquilo que são as dificuldades que vão surgindo, sejam com o lay off, seja com as linhas de crédito para garantir alguma tesouraria às empresas para fazer face àquilo que são os compromissos mais imediatos. Mas, aquilo que tem que ver mais com a questão estruturante vai depender muito do tamanho da maratona. Neste momento, nenhum Governo ou Câmara consegue prever exatamente qual será a dimensão do buraco para perceber de que forma vamos poder verdadeiramente atacar com o remédio válido ou remédio que tente minimizar os impactos desta crise, que é nova. Eu diria que o Governo tem reagido, tem tentado acompanhar uma crise, mas que lança medidas conjunturais. Eu acho que o grande segredo é ter a capacidade de conseguir implementar medidas que permitam a menor redução possível daquilo que é a capacidade da economia gerar emprego. Aí, estaremos em condições de medir se as medidas foram suficientes.

DM: Mesmo com estas medidas, é previsível um aumento da taxa de desemprego?
AB: Essa é das respostas mais óbvias que há. Penso que sim. O segredo é percebermos de que forma é que podemos atacar isto para minimizar o desemprego, para termos menos desemprego do que aquele que inicialmente seria previsto. Este é o segredo.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor em Monção?
AB: Se há área em que os especialistas todos dizem que vai haver um grande impacto é no turismo. Aliás, o turismo foi um dos setores que fez Portugal ter uma recuperação de empregabilidade magnífica. Nos nossos territórios de pequena dimensão, se olharmos para Monção, para o nosso interior, para os grandes centros como Lisboa e Porto, e olhando para a proliferação do alojamento local e de tudo o que é ligado ao turismo, rapidamente se percebe que, efetivamente, o impacto será brutal. Mesmo que nós consigamos reduzir os números das infeções daqui a dois meses, e consigamos voltar mais ou menos à normalidade, eu pergunto: quando é que o turismo vai voltar à normalidade? Quando é que as pessoas vão voltar a sentir segurança para poder voltar a andar na rua?

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
AB: Já houve um aumento nestes últimos dias da procura de apoios daquilo que tem que ver com o município, seja através do Banco Alimentar, ou de pequenos apoios de proximidade. Isso já se começa a sentir e ainda só estamos nisto há cerca de três semanas.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
AB: É uma pergunta com resposta difícil. Se é verdade que durante o ano e desde o início da crise já tivemos de cancelar um conjunto de eventos e muitos mais irão ser cancelados que custavam dinheiro aos cofres do município, também é verdade que ninguém consegue agora dizer qual é a capacidade financeira que o município vai perder com a crise, ou qual é efetivamente o impacto que isto vai ter da realização do orçamento deste ano, daquilo que é a normalidade da questão dos impostos que eram pagos e são receitas das Câmaras, daquilo que são as taxas que diariamente aplicamos e que têm que ver com a capacidade da socidedade civil.



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