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Entrevista a Domingos Bragança, presidente da Câmara de Guimarães

José Carlos Ferreira
27 Abr 2020

O presidente da Câmara de Guimarães garante que tudo fará para que não faltem no concelho os apoios de dimensão social.

 

Diario do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Domingos Bragança (DB): É um momento muito difícil para os empresários e trabalhadores das nossas empresas de todos os setores de atividade económica. Este é um tempo de desafio enorme, mas não é um tempo de desistência para coisa nenhuma. As empresas sabem que têm de combinar os recursos que possuem e os instrumentos que o Govermo e a autarquia coloca ao dispôr dos empresários e dos seus trabalhadores para que possam conseguir resistir a este tempo compreendido entre os meses de março e junho. Este é um tempo de apreensão, de preocupação, mas um tempo também onde vem ao de cima o melhor que nós temos, que é darmos tudo em termos de competências, sejam técnicas como humanas, para superar esta situação. Em todos os setores económicos há um segmento que, na crise, tem trabalhado mais, que é o dos bens essenciais, nas áreas da saúde, alimentar e da logística. Portanto, uma crise onde a maioria perde, o país perde, a economia perde, a sociedade perde, mas há sempre um segmento que assegura o funcionamento da sociedade, que está na primeira linha de apoio à população.
DM: Tem no seu concelho empresas paradas?
DB: Sim. Uma parte substancial de empresas entrou nesta situação de lay off total ou parcial. Outras vão resistindo porque têm algumas condições de funcionamento ou estão na linha dos bens essenciais ou têm compromissos assumidos e querem cumprir tendo em conta planos de contingência.

DM: As medidas implementadas pelo Governo são suficientes para as empresas se aguentarem?
DB: Nós queremos sempre mais. Mas, o Governo, para estes apoios, está a contrair dívida que tem de ser paga por todos nós. Isto não significa que, para momentos excepcionais, como o que estamos a viver, o Governo não tenha de tomar medidas excepcionais para que possa segurar a economia e no futuro não tenhamos uma situação pior, que é a social. O Governo tentou, e penso que, em parte, está a conseguir, ter este plano de intervenção na economia, segurando as empresas por um tempo de três meses. É um esforço dado pelo Estado, pelas empresas e por todos nós, enquanto cidadãos e trabalhadores. É isso que está a ser feito. Nós podíamos pedir mais, mas entendemos que o esforço que o Governo está a fazer é para três meses. E, se as coisas correrem bem, a retoma faz-se e as medidas podem ser consolidadas e outras corrigidas. Se não for assim, terá que haver mais recursos para o esforço do Estado, para continuar a segurar o setor económico. Eu diria que as medidas do Governo foram prudentes e, do meu ponto de vista técnico, as apropriadas, e prudentes.

DM: Mesmo com estas medidas, é previsível um aumento da taxa de desemprego?
DB: As medidas que o Governo tomou foram no sentido de segurar o emprego, para que as empresas tivessem todas as condições para manter a estrutura, ou seja, todos os seus trabalhadores. Espero que seja conseguido, mas isso dependerá da evolução desta pandemia e dos efeitos que continuará a ter, ou não, na estrutura económica. Se as coisas começarem a retomar, as empresas superarem este período e as medidas tiverem tido efeito, eu penso que o emprego estará seguro.

DM: O turismo é uma fonte de receita para a região. Quais os danos que a pandemia pode trazer para o setor em Guimarães?
DB: O concelho de Guimarães é caracterizado essencialmente pelo seu setor industrial, em que 65 por cento da afetação das pessoas em idade ativa é na indústria. Portanto, este é essencialmente, um território industrial. Mas, o turismo tem tido uma importância crescente dado ao facto de Guimarães ser Património Mundial e dado ao simbolismo da cidade fundadora de Portugal. Isto atrai muita gente. Todos sabemos que a cidade tem um dos monumentos mais visitados a Norte, que é o Paço dos Duques de Bragança, ao lado do Castelo e da capela onde foi batisado o primeiro rei, Afonso I. Portanto, Guimarães tem esta componente turística importante e, daí, nós termos em atenção um conjunto de setores que vivem do turismo. Nós sabemos que, mesmo que tudo corra bem, vai demorar tempo a retoma do turismo. Vamos ter uma situação difícil para as micro-empresas e empresas que trabalham no alojamento local e até na hotelaria, embora a hotelaria viva muito do mundo dos negócios. A questão essencial é esta: o turismo vai decrescer, vai ser um dos setores a demorar na retoma. Isto siginifica que todo o segmento relacionado com o turismo vai precisar de apoios reforçados.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos sociais por parte das pessoas?
DB: Há pessoas que perderam rendimentos e que estavam no limiar das suas possibilidades por causa dos compromissos que têm, daí serem necessários mecanismos para compensar esses rendimentos por mecanismos sociais. Isso já temos todos, seja o Governo ou as autarquias, e temos que estar preparados para acudir a essas situações. Eu tenho dito que nós temos que estar disponíveis, e na autarquia de Guimarães é assim, para apoiar as pessoas que entram em carência económica e que precisam. Não podemos apoiar todos na generalidade porque, felizmente, há na sociedade quem não precise. Portanto, quem não precisa de apoio não tem que retirar recursos públicos que são de todos nós. Portanto, nós temos que distinguir pessoas que perdem rendimentos, que entram numa situação de carência. Essas terão o nosso apoio. E a chegada de famílias e de cidadãos a precisar de apoio já aumentou e vai aumentar. Espero que tudo se resolva bem, mas temos que estar preparados para esta chegada de muitas famílias.

DM: Já lhe bateram à porta nestes últimos dias a pedir apoio?
DB: Já. Há situações objetivas, mas há expectativas de muitas famílias muito negativas e que ficam em ansiedade e pedem já de imediato apoios. E nós temos que atender a essa situação de expectativa negativa de pessoas que veem que não vão poder cumprir contratos que têm.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
DB: Eu tenho refletido muito nessa questão do eventual adiamento do investimento público da parte da Câmara. Acho que não. Não vamos fazer isso. Nós vamos ter quebras de receita e vamos ter que ter em consideração isso. Não podemos investir de acordo com o que era expectável antes da pandemia. Mas, dentro das possibilidades do orçamento municipal vamos continuar a fazer os investimentos necessários.

DM: Há verbas que vão ser canalizadas para apoios sociais?
DB: Sim. Há uma prioridade para nós que é o apoio social. Nós nunca poderemos chegar ao limite de dizer: não apoio. A parte orçamental que nós temos que proteger é, exatemente, o apoio social. E, quando falo no apoio social não é o apoio estrito, da subvenção. Mas, passa por setores como a Educação e as áreas que têm que ver com as famílias. A escola para nós é fundamental. O apoio aos alunos, às refeições e para o material escolar e informático é fundamental. Obviamente, o apoio às rendas também é fundamental. E, quando falo em rendas não são só aquelas que são públicas, mas nas rendas todas. E é também o apoio às famílias nas diversas componentes. Nesta área, nós temos que ser prudentes no orçamento e sabermos que o fundamental é termos sempre possibilidades, tendo em contas as expectativas mais negativas, para podermos apoiar. Temos que ter reserva para ajudar as pessoas nos apoios sociais diretos, ou indiretos. Depois teremos que ter reservas para o investimento que temos de fazer. É óbvio que aqui há a considerar que há investimento em obras que os recursos não podem ser reafetados a outras áreas. Eu estou a falar nos Fundos Comunitários, sob pena de os perdermos.



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