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Entrevista a Ricardo Rio, presidente da Câmara de Braga.

José Carlos Ferreira
23 Abr 2020

O presidente da Câmara de Braga não tem dúvidas.
O travão económico causado pela pandemia trouxe dificuldades muito grandes a setores que viviam momentos de prosperidade.

Diário do Minho (DM):
Que perceção tem do tecido económico e empresarial do concelho neste momento?
Ricardo Rio (RR): A palavra que melhor caracteriza esta realidade é incerteza, na medida em que, de forma transversal a todos os setores de atividade, existe uma grande incógnita sobre quais serão os reais impactos desta pandemia. Hoje, nem sequer conseguimos antecipar qual vai ser a verdadeira extensão destas circunstâncias tão difícieis que estamos a viver. Há setores em que o impacto é mais imediato, é o caso dos estabelecimentos comerciais, que tiveram de interromper ou limitar significativamente, a sua atividade. É o caso do turismo, que ficou reduzido praticamente a zero. E, do ponto de vista industrial, embora muitas unidades tenham continuado a sua atividade, elas estão com limitações por quebra da procura.

DM: As medidas económicas que o Governo criou são suficientes para as empresas se aguentarem?
RR: Nós temos que olhar numa lógica de prioridades. A primeira dimensão com que o Governo deveria trabalhar, tendo já tomado medidas, algumas positivas, é no sentido de garantir a sustentabilidade imediata das empresas, ou seja, no sentido de desonerar, do ponto de vista fiscal, de outros encargos que as empresas possam ter, como as moratórias de crédito e outras, além dos procedimentos relativos ao enquadramento laboral através do regime do lay off, e as linhas de crédito que foram criadas, embora, do ponto de vista da implementação, com várias dúvidas, para poder aligeirar a pressão sobre os orçamentos e tesouraria dessas mesmas empresas. A segunda prioridade, que não é tão imediata mas não pode ser descurada, é saber como é que, a médio prazo, se vai promover a revitalização da economia e a dinamização de todo este tecido económico que está a sofrer as consequências deste fenómeno

DM: As medidas vão ser suficientes para evitar um crescimento da taxa de desemprego?
RR: Neste momento, muitas das medidas que têm sido desenvolvidas pelo Governo são particularmente dirigidas ao tecido económico, no sentido de criar condições de sustentabilidade para o tecido económico. Há uma outra face desta mesma moeda que são as consequências sociais. Um trabalhador que está em lay off, está em perda de rendimento e pode ver em risco a sua capacidade para fazer face aos seus encargos mensais. Tem de haver um reforço das políticas sociais a todos os níveis, de âmbito local e nacional, para acorrer às franjas da população que venham a enfrentar maiores dificuldades no futuro próximo.
DM: No setor do turismo, que danos podem surgir com a quebra de receitas?
MCC: No imediato, muitas empresas poderão não sobreviver a esta crise. Aquilo que desejamos é que as empresas sejam capazes de acomodar este impacton e de ultrapassar este período de dificuldade, na expetativa que o futuro voltará a ser risonho. Há hoje muitas discussões à escala global no sentido de saber quais é que vão ser os impactos da pandemia sobre a conduta e a atitude das pessoas no seu dia a dia. Se vão continuar a querer viajar, a querer fazer turismo de forma aberta e tão mobilizadora com acontecia até aqui. Acreditando que isso poderá vir a ser ultrapassado, nós estamos continuamente a trabalhar para o futuro. Antes do arranque desta pandemia, Braga contratou um documentário que vai ser produzido pela TV5, um dos maiores canais mundiais de língua francesa, para promover a nossa cidade. Portanto, nós cá estaremos, seguramente, para voltar a dar à cidade a projeção que ela tinha e a atratividade que os seus recursos justificam. A reação que teremos, do ponto de vista da evolução do turismo, veremos como vai acontecer em função das tendências globais.

DM: Sente que anos de trabalho podem estar em causa?
RR: Se há cidade que esta travagem a fundo acaba por representar uma perda significativa, Braga é seguramente uma delas. Braga vivia um momento pujante da sua história, do ponto de vista da dinamização económica, da capacidade de atração de investimento, da visibilidade turística, da dinâmica comercial, a todos os títulos de regeneração urbana da própria cidade. Esta situação, obviamente, que veio criar dificuldade muito grande a vários setores que estavam, de facto, a viver períodos de exuberantes da sua evolução.

DM: Em termos sociais, acha que vai haver uma maior procura dos instrumentos de proteção social por parte das pessoas?
RR: Parece-me incontornável. Como já disse, há duas dimensões fundamentais. Uma é a perda de rendimento direta, outra, mais indireta, que também gera a perda de rendimento por força dos volumes do desemprego que poderão vir, seguramente a aumentar nos próximos meses. Isso vai obrigar a que as instituições, e desde logo aquelas de maior proximidade, como são as Câmaras Municipais, tenham um reforço das respostas para essas franjas em concreto da população. Eu acho que essa é uma questão que é importante também infatizar porque, muitas vezes, nestas circunstâncias há muito oportunismo e uma ideia que se deve generalizar para o conjunto da população determinados tipos de regalias e benefícios que não minimamente justificáveis. Aquilo que nós devemos fazer é acorrer e apoiar a quem precisa, quem tem necessidade dessa mesma ajuda em determinado contexto difícil da sua vida. Portanto, num contexto em que os recursos não são inesgotáveis, e no que diz respeito às Câmaras Municipais vai haver uma perda siginificativa em termos orçamentais, uma vez que boa parte das autarquia vão perder muito mais receita do que a despesa que vão poupar nas suas atividades normais, isso vai obrigar a uma ginástica financeira muito grande para podermos acorrer a esses cidadãos que, obviamente, carecem de apoios reforçados.

DM: A momentos sociais complicados costumam estar associados momento de maior criminalidade e de violência. Teme um crescimento destes fenómenos?
RR: Isso dependerá da resposta que a comunidade, no seu todo, conseguir dar a essas bolsas de maior pobreza que poderão existir. Mas, recordo que Braga, num país que é o terceiro do mundo mais seguro, Braga é um dos concelhos mais seguros.

DM: Com travão económico, há projetos que vão ter de esperar?
RR: Essa é uma dimensão que teremos de analisar a seu tempo. Recordo que boa parte dos investimentos que a Câmara tem vindo a concretizar é, sobretudo, investimentos financiados por fundos comunitários. Não é expectável que exista uma diminuição dessas fontes de financiamento. Bem pelo contrário, até poderá existir um reforço. Portanto, eu diria que, do ponto de vista estrito do investimento, não é perceptível que nós possamos vir a ter que abdicar de alguns dos principais projetos que temos neste momento em curso. Não deixa também de ser verdade que, neste cenário de maior dificuldade orçamental, obter receitas extraordinárias passa a ser uma prioridade maior do que era no passado recente.

DM: Há verbas que vão ser canalizadas para apoios sociais?
RR: Isso, com certeza. Neste momento, já durante esta fase de acomodação da pandemia, já temos vindo a reforçar algumas das nossas respostas, que dizem respeito a questões ligadas a apoios na área da saúde ou apoios sociais propriamente ditos de vária índole. Nós, só neste primeiro mês de combate à pandemia já investimos no município de Braga mais de meio milhão de euros em atividades várias dessa natureza. É óbvio que nos próximos meses, atividades como aquelas que são desenvolvidas, desde pela BragaHabit nos apoios à habitação, poderão vir a ter um reforço considerável das verbas afetas.



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