Espaço do Diário do Minho

A infâmia do 25 Abril

22 Abr 2020
Tânia Cristina Coutinho

Recordam-se da preocupação sobre as elevadas taxas de abstenção? A cada ato eleitoral realizado nos últimos anos sucedem-se os inúmeros estudos sobre o aumento ou manutenção de altas taxas de abstenção em Portugal. Os motivos, a emergência de vários partidos (que de forma indireta demonstram uma sociedade que não se sente representada), o afastamento dos eleitores deste nobre direito conquistado nos anos de 74/75, tudo isto fenómenos preocupantes que refletem um afastamento entre o cidadão e a sua participação política.

Aquilo que temos vindo a assistir nos últimos dias é um bom exemplo desta relação de divórcio entre o eleitor e a sua classe de representantes. Numa época frágil e sem possibilidade para certezas as lideranças ainda procuram a melhor forma de atuar. Dependem da cooperação internacional, pedem-nos, em território nacional, um esforço conjunto e uma disciplina rigorosa e prioritária no que toca às nossas necessidades pessoais, religiosas e familiares, e surpreendentemente surge esta inevitabilidade de marcar presença para a cerimónia do 25 Abril sob pena de não honrar a herança deixada pelos capitães de Abril.

Os alunos têm aulas por videoconferência. As empresas fazem reuniões por videoconferência. Os casamentos foram adiados. Os funerais são realizados com limite de presenças. As visitas a lares e hospitais foram proibidas. A grande maioria dos voos foram cancelados. O Papa realiza as suas homilias sem público.

Preocupantemente aqueles que elegemos para nos governar parecem não valorizar as alternativas que eles próprios sugeriram para os outros, nem os exemplos que internacionalmente conhecemos de quem já sofreu bastante com atos errados. Num inexorável ato de egoísmo e de superioridade vão prosseguir com as celebrações desta data, mesmo que o significado seja contradizer os valores que a mesma nos trouxe.

O afastamento político vai além da inércia dos eleitores portugueses, e o seu motivo vem de onde nunca poderia vir: dos nossos atores políticos.



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