Espaço do Diário do Minho

O papel do PSD no dia seguinte

19 Abr 2020
António Lima Martins

Há quem confunda sentido de responsabilidade com alinhamento acéfalo, solidariedade com acriticismo. Isto para dizer o quê? Instala-se uma ideia que, por estarmos num quadro de excepcionalidade e de crise sanitária a que se seguirá, rapidamente, a económica provavelmente sem precedentes neste século, temos que aceitar bondosamente tudo, nada questionar, nada criticar. Os que o fazem são julgados como lesa-pátria. Ora a democracia não está enclausurada; se estamos confinados a casa, o nosso espírito de interrogação não está, nem pode estar enjaulado. A ideia que perpassa em alguns quadrantes sociais, políticos e até jornalísticos, é que não pode haver divergência no apoio ao governo, que temos de ter complacência e compreensão com as medidas por um bem maior e que este não é o momento. Num Estado livre isso não existe, mesmo em momentos mais complexos de qualquer história. Estranhamos até que em outras situações de colapso na nossa vida recente esse não tenha sido o discurso, a bitola seguida! Fazem-se elogios à oposição, dão-se loas ao líder do PSD pela sua postura. E bem dizemos nós! Mas se recuamos uns anos estes mesmos que o fazem, ou parte deles, eram aqueles que destilavam contra as medidas de emergência económica e social de génese socialismo-socrática. Dir-se-á que é diferente; é sempre diferente quando mais se interessam com a forma de com o conteúdo, mais com a ideologia do que o interesse de um povo, mais com os rótulos do que com a real composição. Hoje parece que se tem medo de criticar, de se opor… porque o vírus deve merecer consenso. Amanhã será porque a crise económica é causa do vírus e por aí em diante… As duras medidas terão de vir a ser compreendidas, aprovadas por todos porque é diferente. É aqui que o PSD vai ser chamado a grandes decisões. E já se semeiam as sementes para que ceda, apoie, comungue. Ai se mostra ser oposição! Ai se questiona a acção governativa! Aí virão os comentadores experts de serviço e de costumes marcar, com o seu ferro em brasa, o PSD de todos os epítetos… Ai se o PSD acena com inconstitucionalidades de medidas, ai se pretender outra via. Os outros podem, o PSD não. Aqui, mais que nunca, deve ser a alternativa. Não quer dizer que o PSD (e em particular Rui Rio) – por isso o apoiamos uma e outra vez – não coloque os problemas de Portugal no centro do seu caminho, à frente do partidarismo fácil. Que não seja responsável naquilo que entender ser o melhor para os portugueses. Certíssimo! Mas julgamos que seria um erro para Portugal uma qualquer solução – que muitos antecipam – de partilha de governo ou, em menor grau, de dizer sim apenas porque sim, apenas solidariamente. Não! O governo é do PS, foi este o partido que foi escolhido para governar (e não para governar só em certas condições). Dou comigo a pensar que esta seria uma solução ideal para António Costa que, neste momento percebendo o futuro, tal qual o seu Ministro das Finanças que – ao que parece – teve de ser convencido a ficar, sabe que irá – a confirmar-se as previsões – governar sem dinheiro, com despesa exponencial numa dimensão talvez nunca vista. Aquele olhará para Rui Rio para que este estenda a mão. Esquecerá a sua esquerda e apelará para o interesse nacional como se este só existisse quando o PS o entenda. Até porque a extrema-esquerda já está a lavar as mãos e a alardear – porque lhe cheira a tormenta – que não vai em austeridades; o PS, se puder, foge a sete pés. E por isso Costa, na sua veia de malabarista político, com a conivência de arautos e poderes tendenciosos, colocaria o peso do difícil sobre os ombros do PSD e os louvores do bom sobre a sua cabeça. O PSD não seria visto como alternativa, mas como o malfazejo do costume abrindo alas para outros se consolidarem. Para esse peditório não dou!



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