Fotografia: DM

Arcebispo vê alegria e esperança na cruz de Cristo e nas cruzes feitas em família

Cerimónia realizada na Capela do Paço Arquiepiscopal, com transmissão em direto nos canais da Arquidiocese de Braga.

Francisco de Assis
11 Abr 2020

O Arcebispo de Braga celebrou ontem a Paixão do Senhor, uma vez mais a partir da Capela do Paço Arquiepiscopal, com transmissões nos canais das redes sociais. Na homilia da celebração da palavra, D. Jorge Ortiga falou da cruz redentora de Cristo; e deu conta da alegria e esperança ao ver as cruzes feitas em família, onde se está a aprender ou a reaprender a viver a fé cristã.

Na homilia, o Arcebispo de Braga começou por recordar que ontem foi o dia mais intenso do ciclo da Paixão e Morte do Senhor. «É doloroso termos de escutar passivamente este iníquo e cruel interrogatório a Jesus, que, como sabemos, O conduziu à morte. Nas sociedades ocidentais há, na justiça, um princípio basilar que salvaguarda a dignidade da pessoa e a confiança na justiça: a presunção da inocência. Ninguém pode ser condenado sem provas irrefutáveis».

Porém, acrescentou D. Jorge Ortiga, que aqui assistimos em relação a Cristo foi algo que está nas antípodas da nossa mentalidade. «Pilatos bem sabia que Jesus era inocente. “Não encontro n’Ele culpa nenhuma”. E todavia o julgamento continuou, mesmo sabendo-se da Sua inocência. A razão era simples. Caifás deu o seguinte conselho aos judeus: “Convém que morra um só homem pelo povo”. Era necessário que Jesus morresse para que os interesses dos judeus e sacerdotes fossem alcançados. E aqui percebemos realmente o que é a maldade humana. Mesmo sabendo da inocência e do terror que seria infligido, maquinou-se um plano diabólico, pensou-se nos detalhes, anteciparam-se conversas e, por fim, deu-se uma capa de espiritualidade para justificar os seus atos».

Para o chefe da Igreja de Braga, este é o tempo de olharmos de frente para a cruz e repensarmos a nossa relação com a verdade, a justiça e a religião.

E questiona: «que sentido poderá ter esta narração, duas vezes milenar, para cada um de nós e para a sociedade do nosso tempo? Que lugar tem a cruz nas minhas decisões?

Neste dia em que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado, olhamos para a cruz do Senhor em atitude de adoração e pedimos pela salvação do mundo inteiro, neste tempo de dúvida e de dor. Apesar das incertezas dos tempos atuais, se nos deixarmos olhar e amar por Jesus Crucificado poderemos vislumbrar um futuro de esperança! No nosso sim de cada instante a Jesus crucificado, recebemos o dom do Espírito Santo que nos dá a capacidade de, também nós, tal como Ele, amarmos até ao fim. É, de facto, importante que cada um de nós se pergunte: como me relaciono com Jesus Crucificado? Quesentido tem a Sua e a nossa cruz na minha vida?», insistiu.

O sentido da Cruz para as pessoas abandonadas e angustiadas

E o Arcebispo de Braga prossegue nas questões, para levar à reflexão «Que sentido tem a cruz de muitas pessoas que vivem angustiadas, abandonadas, maltratadas? O que podemos fazer, enquanto comunidade, para partilhar as cruzes uns dos outros, amenizando as dores que cada um sente?neste dia, na cruz da doença, do sofrimento psicológico, da angústia da incerteza, do abandono. Penso em tantas pessoas que planeavam passar esta quadra com os seus familiares, nos nossos imigrantes, mas também nos idosos, nos pobres. Nossos irmãos que já, ao longo do ano, são descartados e agora vêem a suafragilidade ainda mais acentuada», referiu, em tom de tristeza e lamento.

Mistério da Cruz visto sob dois pontos de vista e partilha da dor

Numa homilia marcada por muitas perguntas, D. Jorge Ortiga, questiona: «Que dor é esta que somos chamados a partilhar e como pode ela fazer-nos crescer enquanto pessoas, sociedade e Igreja?»

A resposta é dada pelo próprio, numa explicação sobre a cruz.

«O mistério da Cruz pode ser olhado sob dois pontos de vista: a partir do homem e a partir de Deus. Do ponto de vista humano, a cruz é um concentrado de dor, horror, mentira, injustiça, violência e sangue. É uma vertigem de crueldade e maldade, que exprime e concentra todo o mal da história. Ela é a contradição de todos os sonhos e ideais da Humanidade, da prosperidade da sociedade e da bondade desejada por cada ser humano. Neste sentido, podemos dizer que a cruz é obra do diabo, o divisor, aquele que fragmenta a unidade ética, social e espiritual que caracteriza o ser humano», analisou.

Mistério de amor e a vitória da vida

No entanto, para o Pastor da Igreja bracarense, do ponto de vista de Deus, a cruz é um mistério de amor, de compaixão, de misericórdia e de redenção.

«Por ela, Deus quis amar a Humanidade para a libertar de tudo o que a vai destruindo. Daí que, aos pés da cruz, compreendamos todo o mistério de Jesus e do seu Amor. Na cruz, Jesus diz tudo o que é!», citou o Evangelho.





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