Espaço do Diário do Minho

Intrépidos, mas serenos
6 Abr 2020
Narciso Mendes

A nossa história está repleta de relatos sobre situações embaraçosas vividas pelos portugueses de antanho. Com alguns casos de arrepiar cabelos, em que soluções para os ultrapassar poucas haviam ou, quando muito, recorrendo ao tal “desenrasque”, tão enraizado na nossa forma de estar no mundo. Em que, por vezes, as palavras certas ditas em momento próprio com firmeza, fé, esperança e sem rodeios operaram autênticos milagres no meio do caos social. É que, afinal, somos ou não patriotas? Torcemos ou não pela seleção nacional, que a todos representa? Prontos, ou não, a darmos algum sangue por esta pátria que muito custou a tantos defendê-la?

Se sim é, pois, legítimo que se exija a quem dirige os destinos do país, em pandemia como aquela em que vivemos atualmente, atue com realismo e sem ilusões. Tal como proclamava, prudentemente, D. João IV, o príncipe mais apto para reger os destinos públicos do reino em tão aventurada crise, que varrera o país, quando o pretenderam honrar com alguns festejos na sua aclamação: – guardemos as alegrias para depois. Agora tratemos de guardar fronteiras e de nos defendermos do inimigo. O que precisamos é de peitos valorosos e de braços resolutos.

Assim terá de ser, quando com tenacidade e sem lisonjas, mas com sentido de responsabilidade, conseguirmos dar a volta a isto. E como em outras pestes, tenho fé que tal irá acontecer se não largarmos mão da nossa confiança e amor à Imaculada Conceição, padroeira de Portugal. Pois, ainda há bem pouco tempo, dizíamos cobras e lagartos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), devido às evidentes carências de que padecia, assim como pelas greves constantes por melhores condições de vida de médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar e cá estamos nós – com alguma humildade – a constatar que teremos de passar a ver com outros olhos o seu imprescindível valor.

De igual modo, sentíamos não existir pessoal, equipamentos, medicação e material cirúrgico para tantos doentes. E ao que assistimos? A profissionais de saúde, de peito feito ao CORONAVÍRUS, a darem o seu melhor. Enquanto vemos surgirem aviões carregados de ventiladores, reagentes, testes, máscaras e material de proteção. É verdade, estamos a desenrascar-nos lindamente. Direi mesmo que – para quem não tolerava sequer pestanejar, em termos de trabalho; em que até, o tempo gasto nas idas á casa de banho, lavar as mãos, amamentar o filho, ou estender a mão a alguém era, quase, proibitivo – a obrigação de ficarmos todos em casa é um avanço civilizacional nunca visto.

Também chegamos a pôr em dúvida os nossos empresários acusando-os de iliteracia e pouco evoluídos para entenderem a modernidade. E o que vemos? Quase todo o tecido empresarial encerrado, à exceção daquele que é imprescindível à sobrevivência dos portugueses e, num autêntico golpe de rins, a fabricarem tudo aquilo que o SNS mais precisa, bem como às forças de segurança e proteção civil. Mas não só. Temos o setor exportador a manter a economia viva – com os seus trabalhadores na primeira linha – a não deixar cair o país numa recessão ainda mais profunda de que aquela que se adivinha.

Muita coisa mudou e irá mudar. Desde a mentalidade, ao modus vivendi de cada pessoa. Não só quanto ao relacionamento social com os outros como, também, no respeito pelas entidades que nos curam e pelas que protegem as nossas vidas – das mais variadas formas – o qual nos ia faltando. Sem esquecermos os prestimosos serviços da Igreja Católica, de alimento aos espíritos e conforto às almas que sofrem. Porque sem elas, teríamos uma autêntica “Babilónia”. Estejamos, pois, à altura daquilo que a gravidade exige: sermos cidadãos intrépidos, mas serenos. Cuja forma de estar e atuar a todos honre e dignifique.

Entretanto, oremos como V. Nemésio, rezava: “Ave, Maria Celeste,/ Cheia de Graça e de Amor,/ Alta no manto estrelado,/ Serena e branda nas águas,/ Pequena e doce na terra,/ Toda cravada de mágoas,/ Grande na paz e na Guerra”.



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