Fotografia: DM
Se a Europa falhar na resposta pós-Covid19 vai ser responsável por uma crise prolongada

Manuel Caldeira Cabral, ex-ministro da Economia em entrevista ao DM

José Carlos Ferreira
5 Abr 2020

Manuel Caldeira Cabral deixa um alerta. Se a União Europeia falhar na resposta na fase pós-crise provocada pelo Convid-19, vai ser repsonsável por transformar aquilo que pode ser uma crise aguda numa crise mais prolongada, pondo mesmo em risco o projeto europeu. O ex-ministo da Economia elogia as medidas lançada até agora pelo Governo.

 

Diário do Minho (DM):
O Covid-19 vai afetar mais pessoas ou mais empresas?
Manuel Caldeira Cabral (MCC): Eu penso que vai atingir muitas pessoas. O que estamos todos a fazer é um esforço muito grande para reduzir o número de pessoas atingidas e, principalmente, para controlar o número de pessoas que necessitam de ser hospitalizadas, para garantir que vai continuar a haver, como em Portugal está a haver, uma capacidade de resposta hospitalar. Nas empresas, eu penso que vai haver um conjunto muito amplo a ser afetado. Eu diria que, 90 por cento das empresas vão ser afetadas negativamente. Só empresas de setores muito pontuais, que fabricam, por exemplo, materiais para contenção ou medicamentos específicos, é que poderão não ser afetadas ou até ter, de facto procura. E há empresas, neste momento a trabalhar a cem por cento, mas são uma minoria. A maior parte viu a sua atividade muito reduzida ou algumas encerraram e ficaram com a atividade a zero.

DM: Mas, 15 dias ou mesmo um mês pode ser assim tão fatal na vida de uma empresa?
MCC: Pode ser muito difícil na vida de uma empresa. E a questão é que antes da delcaração do Estado de Emergência já tínhamos tido duas semanas com alguma redução da procura em setores como o turismo, a restauração. Muitas empresas já estavam a fazer trabalho a partir de casa com uma parte importante dos seus trabalhadores. Portanto, já estamos quase com um mês de economia quase parada e a redução que estas empresas sentiram não é apenas de 15 dias, mas um pouco mais longo. Mas, o problema destas empresas não é estes 15 dias, é a perspetiva que há mais outros 15 dias, ou mais um mês e meio pela frente até se voltar ao normal e que, o voltar ao normal não vai ser, pelo menos nos primeiros meses, verdadeiramente voltar ao que era a atividade em maio ou junho do ano passado.

DM: A economia é movida à base de expetativas em relação a dados racionais. Como é que as empresas deverão gerir agora as suas expetativas.
MCC: Há aqui várias crises. Há uma crise de saúde, que penso que Portugal reagiu um pouco mais cedo do que os outros países e está a fazer diferença no sentido em que está a haver um abrandamento do crescimento. Penso que isso é positivo. Quando houver uma estabilização do número de novos infetados vai, provavelmente, haver uma reabertura e um voltar ao normal. O que não vai, eventualmente, poder ser é um voltar ao normal como era há um ano ou há quatro meses. É um voltar ao normal em que as pessoas voltam a ir aos empregos, mas alguns tipos de estabelecimentos ou espetáculos ainda estarão proibidos ou limitados, em que as pessoas, mesmo podendo ir a todo o lado, vão estar com uma atitude defensiva. Depois de controlado o primeiro surto, é preciso tentar controlar que não surja um segundo surto ou que não surtjam novos casos. Isso significa para as empresas, que estão hoje com 15 dias de atividade parada e depois mais 15 dias ou um mês também de atividade parada, que a seguir vão ter um regresso a meio gás, ou até menos. Essa é a preocupação que eu penso que está nos empresários. Como conseguir, sem ter receitas, honrar os seus compromissos com fornecedores, trabalhadores, com várias outras entidades, como pagar os custos, muitos dos quais são fixos, mesmo não havendo atividade. Este é o grande desafio e um constrangimento muito grande que ataca muito forte a capacidade de liquidez.

DM: Como é que isto se resolve?
MCC: Eu penso que há uma situação aguda e de curto prazo na qual as medidas já anunciadas podem ajudar, em particular, as empresas que estão em situações mais difíceis. O lay off simplificado vai retirar uma grande parte dos custos laborais das empresas que estão em maiores dificuldades. As moratórias sobre o crédito bancário para as empresas que tinham investido e que estavam a pagar investimentos significativos não terão que ser pagas até setembro ao banco. E, depois, em setembro, outubro e novembro vão pagar uma prestação que será parecida com aquela que iriam pagar. Portanto, retira stress financeiro do curto prazo. A questão que nós temos no curto prazo mais aguda é a da liquidez. As empresas têm atividade, têm receitas e têm despesas. E geram rendimento, com o qual os donos vão criando algum património. Esse património não é liquidez, pode der o edifício ou os investimentos que se fizeram na cozinha de um restaurante. Nestes momentos de crise não é sequer fácil vender parte desse património para ter a tal liquidez. É nesse sentido que as medidas de apoio retiram alguns custos, pelo menos no imediato, e ajudam à situação de liquidez. O que vamos ter é, nesta primeira fase, e o mais importante, é conseguir que não fiquem sufocadas por falta de liquidez. Mas, numa segunda fase, vamos ter, num ano de forte quebra da procura, a questão de como é que as empresas se vão conseguir aguentar. Isso vai depender muito do regresso à atividade. Se se conseguir até ao fim do ano retomar a atividade a níveis mais próximos do normal, as empresas terão mais facilidade a equilibrar-se, mas não é nada certo que isso aconteça. E, as empresas que estavam mais capitalizadas e menos endividadas terão mais capacidade para estender o seu ajustamento pelos anos seguintes. As que já estavam com constrangimentos financeiros vão ter maiores dificuldades. Neste momento, ajudar as empresas com estas medidas, que, de facto estão a ser muito mais fortes e rápidas do que em qualquer crise anterior, é essencial para salvar o emprego.

DM: Em economia há medidas dirigidas às pessoas, que potenciam as dinãmicas pelo consumo. Há outras para as empresas, que potenciam a produção. O Governo por quais deve optar? Ou, no meio é que está a virtude?.

MCC: Os olhares para as empresas e para as pessoas têm de ser complementares, e não alternativo ou substituo. Se não fosse feito nada para as empresas, quem ia sofrer eram as pessoas, eram os trabalhadores, porque iríamos ter um surto de falências enorme e falência de empresas que têm futuro mas ficavam constrangidas com a liquidez. Eu diria que esta crise tem quatro fases. A primeira é a de lidar com uma guerra, é um problema de saúde. O termos entrado um pouco mais cedo do que outros países e termos tomado logo medidas, como fecho de escolas e de Estado de Emergência, que puseram as pessoas em casa, ajudou a conter a evolução da doença. Temos a segunda fase que é mais económica, em que os dois principais objetivos têm que ser, manter o rendimento e o emprego e dar liquidez às empesas. É nesse sentido que estas medidas de adiar o pagamento das responsabilidades à banca, o adiar o pagamento de impostos ou o lay off ajudam muito a evitar a que as empresas recorressem massivamente ao desemprego. Assim podem suspender e aliviar os custos com os trabalhadores, que mantêm o seu vínculo e, quando a atividade ao normal, voltam às empresas. Depois vamos ter uma terceira fase que é de relançamento da atividade económica. Só nessa altura é que medidas de estímulo à procura podem, verdadeiramente, ajudar. Neste momento, se dermos mais rendimentos às pessoas, elas não vão gastar mais. Elas não vão mais a restaurantes porque as pessoas estão fechadas em casa a cumprir cívicamente a sua quarentena. Portanto, não adiantaria de nada. A quarta fase, que eu penso que deverá ser feita na segunda metade deste ano, a partir de julho, agosto e setembro, e com força a partir de 2021, será de relançamento da economia, com apoios e incentivos ao investimento, com apoios e incentivos à criação de emprego, porque, mesmo com todas estas medidade de contenção de emprego, temos que ser realistas, o desemprego vai aumentar. E, se for feito em 2021, e eu penso que pode ser feito por Portugal, pode ser ao nível de cada Estado, mas uma parte importante do sucesso disso tem que ser feito ao nível, pelo menos europeu. Se houver um bom programa europeu de relançamento a partir do final deste ano e em 2021, poderemos ter, de facto, uma crise muito forte, porque esta crise tudo indica que vai ser mais forte do que foi a de 2009, mas mais curta também.

DM: E se não houver essa quarta fase?
MCC: Se isso não acontecer, se não houver essa quarta fase de relançamento, de apoio ao investimento, de um empenho europeu de relançamento, vamos ter, se calhar em 2021 alguma retoma da atividade, vamos ter uma crise que se arrasta com níveis de desemprego altos durante vários anos. Isso, penso, é o que temos de evitar. Recapitulando, a primeira prioridade, e penso que isso foi assumido, foi as pessoas e a saúde. A segunda prioridade foi, e as medidas que já estão em vigor apontam claramente para isso, o emprego e salvar as empresas dando liquidez. A terceira tem que ser relanaçar a procura, mas isso tem que ser feito à medida que se vai caminhar para a normalidade. E as quarta tem que ser um programa forte, a meu ver, a nível europeu, mas também com uma componente nacional, de relançamento do investimento, para garantir que esta crise que foi causada por um agente externo que ninguém previa, não se torne numa crise que se arrasta com níveis de desemprego altos por vários anos, mas que tem logo em 2021 e 2022 anos de forte recuperação. Nada disto é certo porque o que percebemos no contexto europeu ainda não é certo. É certo que haja uma consciência diferente do que havia em 2009 a nível do sistema monetário, das políticas monetárias que vão ser seguidas. Há ainda uma discussão que, se calhar, devia ser rapidamente vencida sobre se se deve, ou não fazer, medidas de relançamento. É óbvio que esta crise está a afetar todos os países europeus. É óbvio que os países europeus têm que conseguir encontrar uma solução conjunta.

DM: E se não conseguirem?
JL: Se não conseguirem, isso vai ser muito mau para os seus cidadãos, vai ser muito mau também para o projeto europeu.

DM: Há empresas que neste momento não registam quebras. Ainda há pouco referiu cerca de dez por cento. Mas daqui a dois ou três meses, perspetivam começar a ter prejuízos. Que medidas complementares podem ser implementadas para estas empresas?
MCC: Quando falei em dez por cento, não é uma estimativa muito rigorosa. O que temos neste momento é três tipos de empresas. Temos empresas que estão verdadeiramente fechadas. Portanto, passaram da atividade normal para zero. Temos empresas que estão a meio gas, com um nível de atividade ainda razoàvel, mas tiveram uma quebra forte de atividade. E temos outras empresas que estão a fornecer bens essenciais, como por exemplo, para o combate desta crise, que estão a trabalhar a cem por cento porque, de repente, tiveram uma enorme procura. Por exemplo, as vendas online não caíram, até alguns tipos de bens essenciais subiram. Mas, em geral, a maior parte das empresas teve uma queda importante da sua procura e da sua atividade. Mas, o que elas vão ter é alguma retoma da atividade mais tarde. As outras empresas, termos que ver. O problema, numa primeira fase, ou seja agora, é a economia estar parada, numa segunda fase, em julho, agosto e setembro, a economia esteja a fincionar, mas a um nível mais baixo do que esteve a funcionar no ano passado porque o aumento do desemprego vai criar menos procura.





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