Espaço do Diário do Minho

Viva a academia, vivam os alunos, vivam os professores

28 Mar 2020
Paulo Abreu

Os alunos notam-me a voz embargada quando, no final das aulas dadas através do “colibri V3”, espécie de nave espacial que me leva até onde cada um deles está (coisa das novas tecnologias) me despeço deles, suplicando se cuidem, para que nenhum mal lhes aconteça. E remato com o expectável: até à próxima.

Tento esconder a minha emoção, a minha dor por tudo ser diferente, ainda que o ecrã me traga o prazer de os ver. Mas não é a mesma coisa…

Confesso: sinto saudades dos meus alunos. 

Sei que às vezes (por sorte, raramente!) ralhava com eles, quando algum laivo de indisciplina vinha visitar a sala. E espero continuar a ralhar, num futuro próximo, sempre que a desordem queira espreitar… Mas gosto deles. Aliás, advertia e continuarei a admoestar, porque gosto deles!

Sei que preparar aulas todos os dias é uma grande “tosta”. Mas o “bom dia”, ou “boa tarde” dos corredores, logo na chegada, os sorrisos, as “bocas” de circunstância que eles já conhecem, do tipo: “estás a crescer”, ou “estás grande, só não estás é grande coisa…”, bastam essas “lengalengas” para que todo o esforço e fadiga se esfumem e a estima perfume a sala.

Não penseis, caros alunos, que depois disto vos vou facilitar a vida. Pelo ecrã ou “face to face”, mais “net” ou mais cabedal à vista, o estudo é para levar a sério, o conhecimento é para procurar com todo o afã, a seriedade terá que continuar a ser tom da nossa música. E mais uma vez pela mesma razão: porque gosto de vós.

Nem vos safam os mail’s simpáticos que tendes enviado a dar-me ânimo ou conforto. Há que lutar, crescer, empenhar-se. De uma boa cultura e de boas cabeças, mescladas com valores sublimes, nasce um mundo mais sábio, melhor construído, mais solidário e mais feliz.

Um dia ofereceram-me uma escultura, que ainda conservo e admiro, feita por um moçambicano, em pau preto, que me diziam ser a escultura do professor. Aparece entalhado um adulto, um jovem a apoiar um dos pés no seu joelho direito, o corpo a subir e a cabeça a projetar-se bem acima da do professor.  A explicação para o feito era (é) esta: o bom professor é aquele que faz com que o aluno chegue mais acima, mais alto, mais longe… 

Bem, agora acho que já tenho todos os condimentos para o cozinhado que pretendo fazer. Na verdade, em tempos de covid 19, com a tristeza, também com o tempo e a lucidez que essa infernal maleita nos dá, quero:

– Abraçar todos os alunos, não apenas os meus, todos os alunos, de todas as idades e condições e cursos. Para todos este tempo estará a ser difícil, de adaptação, incertezas, medos, descobertas fatigosas… Mas a aventura também faz parte da vida. Ânimo. Coragem. Na luta. Sempre!…

– Abraçar todo os professores. À fadiga normal, juntam-se agora outras canseiras, outras buscas, outras inquietações. Mas tenho-vos visto empenhados, preocupados, alguns com a vida facilitada porque dominam as tecnologias, outros a terem que as “atropelar”, mas todos com a mente nos alunos e o coração cheio de bem querer. Parabéns, professores. Sempre vos achei uma “raça” com “raça”; e muito bonita. Sois um contributo inestimável à nossa sociedade. Há que não desistir, nem que seja com os olhos a arder por causa do computador e com um “rato” na mão;

– Para todos, o desejo da multiplicação da escultura: do excelente trabalho dos educadores, dos professores, saiam excelentes criaturas, no coração e na mente, projetados bem lá para o alto, para bem longe. Não me importarei de apanhar um torcicolo, se a isso me obrigar a contemplação dos meus (nossos) alunos, por mim (por nós) ajudados a crescer.

Viva a academia. Vivam os alunos. Vivam os professores.

E, para todos, um enorme abraço. Com saudades. Porque gosto muito de vós!



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