Espaço do Diário do Minho

A Gestão dos Clubes em Portugal é… bola para a frente!
26 Mar 2020
João Gomes

Parece que o coronavírus veio para ficar, e, com ele, uma autêntica revolução ao nível do dia-a-dia de pessoas e empresas. Diria, mesmo, ao nível de Governos e Instituições supranacionais. É possível que muito venha a mudar, depois deste tumulto. Nuns casos para melhor, porque a necessidade aguça o engenho, noutros, infelizmente, para pior, porque falamos de um acontecimento que está a ter um impacto transversal muito pesado.

Nesta coluna que tenho dedicado ao tema do desporto, e do futebol em particular, trago a preocupação que me assola no que diz respeito à nossa realidade. Fiz dele parte durante mais de 10 anos, conheço o modo de funcionamento de entidades que hoje em dia estão pouco preparadas para a exceção. E este é um período de absoluta exceção, em que veremos quem fazia a «navegação à vista» que é tão caraterística dos maus gestores. Por um lado, temos ouvido diversos clubes (na Alemanha, na França, na Espanha) a alertarem para a necessidade de substanciais reduções salariais aos jogadores, ou mesmo do despedimento de staff. Tudo para conseguirem sobreviver a uma situação que pode arrastar-se durante vários meses, até hipotecar por completo o cumprimento das jornadas que ainda havia por disputar. Por outro, julgo que, como eu, ninguém ouviu os clubes em Portugal a pronunciarem-se sobre este assunto. Logo no nosso país, onde praticamente todos os clubes vivem do imediato. Sem a perspetiva de receitas, e muito menos de um mercado de transferências que venha salvar, como é habitual, alguns clubes de situações de bancarrota, que sinal é que tem sido dado? Numa época em que as participações europeias foram tão genericamente fracas, que futebol português vamos ter daqui para a frente? Que alterações irão propor os clubes, em particular os mais fortes (os que mais dificuldades poderão sentir, mercê de estruturas sobredimensionadas, pesadas, e com custos operacionais dependentes de uma liquidez que tão cedo não se vislumbrará), para se manterem vivos e competitivos? Teremos chegamos ao momento-chave que exporá todas as fragilidades que há décadas o adepto comum perceciona? Fragilidades que mais um crédito ou uma venda extemporânea de um jogador sempre resolveram, à revelia de soluções de médio e longo prazos que significassem equilíbrio de contas e estruturas pensadas para sobreviver à adversidade.

Sei por experiência que o lema dos clubes em Portugal, da grande maioria, pelo menos, é gastar-se o que há, no momento, e logo se verá que soluções é preciso adotar para fazer face às necessidades do amanhã. Há relatos, vindos a público num periódico desportivo, que dão conta de um clube da Primeira Liga que já não paga salários há vários meses, situação real antes da chegada deste furacão do COVID-19. E agora?

Que será dos nossos clubes quando os mais poderosos da Europa começarem a recuar nas intenções de aquisição de jogadores, ou as suas ofertas previrem valores muitíssimo abaixo daquilo que o louco mercado dos anos mais recentes vinha garantindo?

O futebol tem de ser gerido por profissionais. Os clubes são empresas complexas e de enorme responsabilidade. Veremos nos próximos meses quem é que esteve à altura do imprevisto.



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