Espaço do Diário do Minho

Eutanásia – o reverso da medalha ( 2)
27 Fev 2020
Carlos Aguiar Gomes

Os deputados votaram maioritariamente pela legalização da Eutanásia no passado dia 20. A Democracia foi derrotada. Um regime democrático, perante um tema tão importante como a legalização de dar a morte a uma Pessoa, é demasiado sério para ser tomado de ânimo leve, como foi, por ideólogos que não aceitam a dignidade da Pessoa Humana em qualquer circunstância e se recusam a ouvir o povo (o tal que, dizem, é quem mais ordena!). Têm um medo terrível do referendo, que é um mecanismo perfeito de escuta democrática. Veja-se o que se faz na democrática Suíça!…. Uma Democracia que se esgota nos Partidos Políticos (corruptos, ainda por cima), é uma Democracia doente e com tiques, camuflados, de autoritarismo. E a nossa Democracia está muito doente. Mesmo muito.

Os caros leitores viram que os grandes Partidos, nos seus programas eleitorais com que se apresentaram nas últimas eleições, não se referiam à legalização da Eutanásia? E, a primeira medida legislativa foi precisamente a legalização do homicídio promovido nos hospitais? Chamo a esta atitude de “ fraude eleitoral”.

Depois, como mostra a experiência de países onde se legalizou a Eutanásia, como a Bélgica e a Holanda, o texto proposto era extremamente semelhante aos que foram levados a votação no dia 20 em Portugal. Sabemos todos que, hoje, as leis daqueles países foram-se alterando progressivamente e agora tudo é permitido e até a coacção psicológica é banal.

Em artigo anterior fiz referência a um livro extraordinário, uma colectânea de artigos de agentes de saúde belgas que trabalham com pessoas em limite de vida. O sub-título daquela obra é: “Reflexões e experiências de cuidadores”. Aqui está uma obra, infelizmente ainda não traduzida para português, e seria fundamental a sua edição entre nós com difusão máxima. Volto a recordar o seu nome: “EUTHANASIE, l`envers du décor”, das èditions MOLS , colecção AUTRES REGARDS, com Prefácios de JACQUES RICOT e de HERMAN DE DIJN, ambos filósofos, com a coordenação de um hematólogo – TIMOTHY DEVOS. Nesta obra, de cuidadores de saúde altamente qualificados e com experiência, com múltiplos exemplos vividos por estes, são feitas reflexões, que nos levam (a mim levaram-me) a temer com o que vem aí, em Portugal, pois o começo é igual e temos, já, a experiência do Aborto.

Deixem-me que volte a referir que esta obra é feita por especialistas como oncologistas, psiquiatras, enfermeiros especializados em cuidados paliativos, filósofos especializados em Ética, paliativistas, entre outros, e todos eles, não são ideólogos anti-humanistas como os votantes no nosso Parlamento, nem cretinos sem qualquer tipo de compaixão pelos sofredores. Não, todos são homens e mulheres, que sabem que “QUEM SOFRE DESEJA SER ACOMPANHADO, MESMO SE DESEJA MORRER…”. Todos tudo têm feito para que os grandes sofredores, físicos ou psíquicos, tenham uma morte dignamente assistida e acompanhada.

Não seria , agora, o KAIROS, para a edição em português, disponível a preço acessível desta obra? 

Não seria , agora, o tempo oportuno, para não se fazerem tantas obras, cuja necessidade é questionável, e investir seriamente na formação dos cidadãos e no seu esclarecimento sério e com seriedade? Mando este “ recado” à Igreja Católica, a minha.

Não seria, agora, o tempo oportuno, para que a formação dos jovens fosse menos “guitarrada” e tantas vezes cheia de nada, e levada a sério com temas relacionados com a VIDA HUMANA? Com assertividade, clareza e sem meias verdades. De insistir que a VIDA HUMANA É INVIOLÁVEL e que ninguém tem o direito a morrer, mas o direito a viver com dignidade, desde a concepção à morte natural. Não será o tempo de acabarmos com a indiferença face ao eugenismo legal e apoiado com os nossos impostos e de se denunciar a política nazi da raça pura que perante a nossa indiferença se pratica quando, por exemplo, são eliminados os bebés com algumas diferenças?

E termino com um repto veemente aos nossos decisores políticos: invistam mais e mais seriamente nos CUIDADOS PALIATIVOS. Ocupem-se destes pois estes, é bom que saibam, “NÃO SÃO UM MODO DE FAZER MORRER AS PESSOAS, MAS UM MODO DE AS AJUDAR A VIVER ATÉ AO FIM….” Com dignidade. Assim, e só assim, poderemos falar, com verdade, de morte dignamente assistida.



Mais de Carlos Aguiar Gomes

Carlos Aguiar Gomes - 26 Jun 2020

Tenho um grande desgosto de nunca ter estudado música. No Liceu, tive dois anos de Canto Coral, com um grande Mestre mas pouco pedagógico. Nada aprendi. Gosto imenso de Música (intencionalmente escrevo com inicial maiúscula) e todos os dias oiço muita. E em viagem, nunca me esqueço de escutar boa Música. Não gosto de toda […]

Carlos Aguiar Gomes - 18 Jun 2020

Todos conhecemos este diálogo entre o Duque de La Rochefoucauld-Liancourt e o Rei de França, o mártir, Luís XVI. Este, quando a 15 de Julho de 1789 foi informado que na véspera tinha sido invadida a Bastilha e de lá tirados os poucos malfeitores presos, entre eles um célebre marquês de Sade, perguntou ao duque […]

Carlos Aguiar Gomes - 15 Jun 2020

Quero começar por afirmar que sempre combati a ideia de raça, um conceito que é, acima de tudo, ideológico (dos extremos). Não admito, nem nunca admiti que haja Homens superiores e Homens inferiores. Há Homens diferentes e é essa diferença que enriquece a espécie humana, Homo sapiens, a única espécie humana. Diferentes na inteligência, nas […]


Scroll Up