Espaço do Diário do Minho

Acordo UE-UK. O fator Churchill
26 Fev 2020
Carlos Vilas Boas

Com a saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE), segue-se a partir de março a negociação do acordo que vinculará as relações comerciais entre o Reino e a União.

O acordo de saída negociado entre Londres e Bruxelas entrou em vigor no dia 1 de fevereiro de 2020 e prevê um período de transição durante o qual prevalecerão as regras do Mercado Único Europeu e da União Aduaneira, permitindo às empresas e investidores adaptar planos de contingência para o futuro relacionamento económico, que terminará a 31 de dezembro de 2020, a menos que o Comité Misto criado ao abrigo do acordo de saída opte pela sua prorrogação por um período máximo de um ou dois anos, decisão essa a tomar até ao dia 1 de julho de 2020.

As posições do RU são encabeçadas pelo seu primeiro-ministro, Boris Johnson, um inglês nascido nos Estados Unidos (EUA), em Nova Iorque, defensor do Brexit, daí o interesse em conhecer a sua visão quanto ao posicionamento do Reino Unido na Europa e no Mundo.

No seu livro “O fator Churchill”, uma biografia do grande Estadista britânico, Boris aborda o pensamento Churchilliano sobre qual deve ser o estatuto do RU no contexto europeu, designadamente no capítulo “Churchill, o europeu” e o relacionamento político-económico com os EUA. Abordarei aqui apenas o primeiro daqueles aspetos.

Previamente, dir-se-á que perpassa por todo o livro a imensa admiração de Boris por Winston Churchill, que assertivamente qualifica como o maior estadista inglês do século XX. Mais do que isso, percebe-se que Boris gostava de ser o outro Dupont (figuras das aventuras de Tintim) de Churchill, a sua alma gémea, um igual. Falta-lhe, evidentemente, a grandeza, a capacidade política e intelectual do original.

Boris reconhece que Churchill é pró-europeu e até um dos primeiros a falar sobre os Estados Unidos da Europa, um visionário da União Europeia já na década de 1930 e quem primeiro valorizou a ideia de uma região sem fronteiras e taxas aduaneiras, com um mercado único que favoreceria o crescimento económico, crítico feroz da decisão do partido trabalhista no poder, em 1950, de recusa de conversações sobre o plano Schuman, embrião do que é hoje a União Europeia. Nesse ano discursava na Escócia: – “Durante séculos, a França e a Grã-Bretanha e mais recentemente a Alemanha, flagelaram o mundo com as suas contendas. Mas bastar-lhes-á estarem unidas para constituírem a força dominante no Velho Mundo e formarem um núcleo de uma Europa unida”.

Como poderia Boris, defensor acérrimo do Brexit, sobreviver à posição europeísta do seu mentor? Simples para ele, tratou de subverter a opinião de Winston, de modo a caber no seu próprio programa político. Para ele, Winston queria uma Europa unida, sim, em que o RU teria um papel importante, mas de patrocinador, de testemunha, não de contratante, madrinha mas não nubente.

Acobertado numa recriação do pensamento de Churchill difícil de detetar nos seus discursos e escritos, Boris sente-se legitimado na saída da UE. Na verdade, o que Boris revive, irrealisticamente, é o RU como grande potência mundial, ombreando com o seu país de nascimento, ambos ditando as cartas no pano geopolítico e económico mundial.

Não admira, pois, que no seu discurso do passado dia 3 de fevereiro, respondendo ao negociador europeu para o Brexit, Michel Barnier, e à afirmação de Bruxelas que para ter uma relação económica que inclua capitais, bens e serviços sem quotas nem taxas aduaneiras, o Reino Unido precisa de estar alinhado com as leis europeias ambientais, laborais, fiscais e sobre ajudas estatais, Boris veio dizer que o Reino Unido desenvolverá políticas separadas e independentes em áreas como a imigração, política de concorrência e subsídios, meio ambiente e política social. O negociador principal do Reino Unido, David Frost, apelou a um acordo minimalista, a uma “relação-tipo Acordo de Comércio Livre com o Canadá”.

Há nuvens no horizonte sendo que, na ausência de acordo, as relações económicas da UE com o RU serão regidas pelas regras aplicáveis a qualquer outro país terceiro.

O risco de um Brexit sem acordo permanece.

Destaque

Percebe-se que Boris gostava de ser o outro Dupont (figuras das aventuras de Tintim) de Churchill, a sua alma gémea, um igual. Falta-lhe, evidentemente, a grandeza, a capacidade política e intelectual do original.



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