Espaço do Diário do Minho

A quem interessa empolar um tal ‘racismo’?
24 Fev 2020
António Sílvio Couto

Uns tantos – políticos, jornaleiros (os que escrevinham ideologicamente nalguma comunicação social), comentadores, dirigentes associativos e/ou desportivos e quejandos) – andavam ansiosos porque fosse incendiado o rastilho do ‘racismo’.

As manifestações de alguns adeptos – sócios ou não – num jogo de futebol, no domingo, dia 16 de fevereiro, em Guimarães, foi a pedra de toque para que se gastem horas a discutir uma coisa que, em Portugal, não tem expressão como eles desejavam. Podem dizer o que quiserem, os portugueses não são nem nunca foram racistas e tão pouco xenófobos. Somos, pelo contrário, um povo aberto – talvez em excesso e desmesuradamente condescendentes – a todas as raças e cores, mesmo em nosso prejuízo. Somos um povo que sempre criou laços de fraternidade e de harmonia entre os povos e as culturas, muitas delas bem menos respeitosas para com a nossa liberalidade. Somos, por natureza, bem mais solidários do que nos julgamos, pois ainda somos capazes de tirar do nosso essencial para partilhar o que falta a tantos, embora estes nem sempre se mostrem convenientemente agradecidos senão nos atos ao menos nas atitudes.

= Muitos e variados setores tentam cavalgar sobre pequenos indícios desse tal ‘racismo’, mas bem depressa se esboroam as suas pretensões e, nem mesmo, a intoxicação ideológica de uns tantos consegue criar algo que tenha consistência ou significado. Vivendo numa área onde moram tantos cidadãos procedentes de outros continentes e culturas será muito fácil desmentir que o racismo tenha algo a ver com isso que pretendem dizer que existe. Com que facilidade se dilui a cor da tez ou a forma de se exprimir, percebendo somente que estamos perante pessoas e não em confronto com alguém que nos incomoda.

Foi nitidamente ignóbil, na intenção e nos resultados, essa publicidade – ‘todos diferentes, todos iguais’, pois pretendeu nivelar o racismo pela diferença acintosa e não combatê-lo pela dignificação das pessoas. Estas não se distinguem, mas convivem. Cada cidadão não pode ser reduzido à mera expressão numérica, mas acolhido na diferença daquilo que é e merece ser.

De entre todas as formas de convivência pela dignidade e não pela distinção, o cristianismo foi, na maior parte dos casos, aquele que melhor o idealizou, o pensou e o executou. Falamos do cristianismo na sua génese e nos atos de fraternidade que sempre cuidou. Deixamos de fora quantos usaram a expressão de fé cristã para escravizar, manipular, torturar ou até matar. Outras designações religiosas têm feito também uma razoável evolução e abertura à diferença que não só para com os da sua cultura…

Só uma acentuada ignorância histórica continuará a relevar mais aquilo que foi mau do que tanto do que a civilização foi conduzindo na aproximação dos povos, das nações e mesmo na formação dos países. Talvez seja preciso lavar os preconceitos de certas ideologias para vermos tanto que foi desenvolvido nos dois últimos séculos…

Certa virulência antirracista – sobretudo protagonizada por setores aderentes ao marxismo-leninismo-trotskismo – como que denota alguma tentativa de desviar a atenção dos crimes étnicos, rácicos e xenófobos praticados pelos seus mentores ideológicos, sobretudo, no último século… em várias latitudes e com milhões de vítimas.

= O pior racismo que se pode difundir ou cultivar é o da indiferença, na medida em que as pessoas deixam de ser consideradas como tal para se tornarem meras coisas ou objetos.

Diante de certos episódios como que se torna lamentável o empolamento de ‘casos’ de racismo, pois só mentes diminuídas podem considerar algum ascendente de supremacia sobre pessoas que tenham a cor da pele distinta da dominante no meio. Na dimensão humana somos todos cidadãos de direitos e com deveres iguais, embora diferentes no modo de os vivermos e de nos fazermos ser comportamento social, político e cultural. Através de uma educação para a diferença poderemos saber estar com quem não pensa como nós, não escolhe como nós e não sente como nós.

O racismo ainda é uma fase muito primária da evolução da história da humanidade. O racismo é a negação da cultura, seja qual for a instância, o nível de instrução ou o estádio de liberdade. Racismo, nunca!

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O racismo é a negação da cultura, seja qual for a instância, o nível de instrução ou o estádio de liberdade.



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