Espaço do Diário do Minho

Dar qualidade à vida
20 Fev 2020
Silva Araújo

1. Sem pretender ofender ninguém, como é evidente, espero que hoje, na Assembleia da República, ao debater a questão da eutanásia, prevaleça o que é mais sensato. E o mais sensato, em minha opinião, consiste em dar às pessoas cada vez melhor qualidade de vida em lugar de lhes acelerar a morte. É investir a sério na saúde. É tratar o doente como um ser humano que é, em todas as fases da vida. Antes de morrer com dignidade, que se viva com dignidade.

2. Ajudar um doente é prestar-lhe a assistência devida. Não é arrumá-lo, mesmo quando se encontra em fase terminal. É procurar aliviar-lhe o sofrimento.

Quando clinicamente se considera não haver nada a fazer, há humanamente um carinho a dar, uma palavra amiga a dizer, uma companhia a fazer, uma mão a estender.

3. Ajudar um idoso é criar condições para que viva com dignidade. Proporcionar-lhe um ambiente de carinho. Apoiá-lo nas suas debilidades. Não é provocar-lhe a morte ou levá-lo a concluir que é um estorvo ou anda por aqui a mais.

4. Faz falta estender a rede de cuidados continuados. Faz falta investir nos cuidados paliativos. Faz falta comparticipar os medicamentos de que os doentes de baixa capacidade económica precisam.

Faz falta procurar que todos os doentes tenham médico de família e que os médicos de família tenham possibilidades reais de prestar atenção aos doentes e de os acompanhar no evoluir da doença.

5. O ideal é que os idosos permaneçam na família e não sejam desenraizados do ambiente em que sempre viveram. Mas a verdade exige se reconheça haver famílias que não têm possibilidades para dar aos seus idosos a assistência e a companhia de que precisam. Fazem falta, por isso, lares que sejam verdadeiros lares e não arrecadações de pessoas. Lares acessíveis às pessoas de recursos mais modestos. Lares onde não é necessário que haja luxo mas se não tolera a existência de lixo ou de condições de menos dignidade. Lares onde o idoso não beneficie apenas dos serviços mínimos exigidos pelos cuidados com a alimentação e a higiene.

6.Vivemos uma sociedade onde predominam os critérios economicistas. Onde o dinheiro ocupa a primeira das preocupações e o ser humano é colocado em segundo lugar. Onde a pessoa só tem valor quando é fonte de lucro.

À luz destes critérios e do egoísmo que está por trás, insisto no que escrevi a semana passada: é mais barato e muito mais cómodo acelerar a morte a um idoso ou a um doente do que cuidar dele. Mas é desumano. É criminoso.

7. Em vez de debater o acelerar da morte não será mais sensato e mais necessário refletir, com verdade, sem preocupações eleitoralistas ou demagógicas, sobre o estado da saúde em Portugal? Sobre se temos hospitais em número suficiente, com as condições aconselháveis, servidos por pessoas que possam, com calma, prestar ao doente as atenções devidas? Que tenham tempo para o ouvir, escutando desabafos e queixumes e ouvindo conversas muitas vezes repetidas? Onde os profissionais de saúde também disponham do tempo suficiente para descansarem? Ver como funciona a Rede Nacional de Cuidados Continuados: quantas camas tem e quantas deveria ter? Ver se aos doentes em fase terminal é prestada a assistência que um ser humano merece e tomar consciência do que se faz no domínio dos cuidados paliativos?

Não será mais necessário e mais útil refletir sobre este conjunto de interrogações?

8.Senhores da política:

Desçam ao terreno. Apercebam-se da situação real de doentes e de idosos.

Proporcionem às pessoas cada vez melhores condições de vida. Se as tiverem, certamente que não desejam morrer.

Não se preocupem com o acelerar da morte. Ela vem. Mas que seja quando Deus quiser e não encontre ninguém em condições desumanas.



Mais de Silva Araújo

Silva Araújo - 2 Abr 2020

1. Enquanto me não provarem o contrário mantenho a convicção de que os tradicionais Meios de Comunicação Social (e agora, em certo modo, também as redes sociais) têm uma tríplice missão a desempenhar: informar, formar, distrair. 2. Informar. Com o máximo de verdade, de objetividade, de isenção. Porque entendo a Comunicação Social serviço à comunidade […]

Silva Araújo - 26 Mar 2020

1. Não alinho no discurso oficial, baseado em critérios economicistas. Na tal economia que mata, para usar uma expressão do Papa Francisco. Defendo a existência de quartos individuais nos lares de terceira idade. Também para cidadãos de escassa capacidade económica, pois não é o volume da conta bancária que dá maior ou menor dignidade à […]

Silva Araújo - 19 Mar 2020

1. Quero hoje, mais uma vez, prestar homenagem ao meu Pai. Vítima da mentalidade do tempo, que diversas vezes recordava – «manter um filho na escola é como ter o burro preso à argola» –, cedo entrou no mundo do trabalho. Desenvolveu a sua atividade na área da construção civil como trabalhador por conta de […]


Scroll Up