Espaço do Diário do Minho

Dignidade e vida da pessoa… doente
10 Fev 2020
António Sílvio Couto

«A vida há de ser acolhida, tutelada, respeitada e servida desde o seu início até à morte: exigem-no simultaneamente tanto a razão como a fé em Deus, autor da vida».

Ocorre, no próximo dia 11, o 28.º mundial do doente, sob o tema. ‘vinde a Mim, todos vós que andais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei’ (Mt 11,28).

Na mensagem para este dia, o Papa Francisco apresenta-nos (sobretudo a nós cristãos/católicos) alguns aspetos, quando nos colocamos diante desta faceta da nossa vida – o ser/estar doente – e no trato para com os outros também eles a viverem idêntica situação de fragilidade.

Isto é (ou pode ser) tanto mais importante quanto está previsto para o dia 20 deste mês a discussão, no parlamento, de vários projetos de lei em ordem à almejada legalização da eutanásia. Não deixa ainda de ser significativa a coincidência, pois, nesse mesmo dia, celebra-se o centenário da morte da pastorinha de Fátima, Jacinta Marto, uma criança que morreu com quase dez anos, vítima da pneumónica espanhola que dizimou parte significativa do país… 

a) Passar pela experiência pessoal do sofrimento 

«Só quem passa pessoalmente por esta experiência [do sofrimento] poderá ser de conforto para o outro. Várias são as formas graves de sofrimento: doenças incuráveis e crónicas, patologias psíquicas, aquelas que necessitam de reabilitação ou cuidados paliativos, as diferentes formas de deficiência, as doenças próprias da infância e da velhice, etc …»

Com que importância temos de saber estar unidos aos que sofrem, cuidando e sendo cuidados. Se há vivência que nos humaniza é a do sofrimento, pois nos irmanamos como tanta gente que sofre e que procura sair desse fosso mais alentada e não derrotada. Será que vivemos o sofrimento de olhos postos em Jesus ou antes centrados em nós mesmos? Como educar para a cristianização correta do sofrimento? 

b) Comunhão de uns com os outros… em família 

«Na doença, a pessoa sente comprometidas não só a sua integridade física, mas também as várias dimensões da sua vida relacional, intelectiva, afetiva, espiritual; e por isso, além das terapias, espera amparo, solicitude, atenção, em suma, amor. Além disso, junto do doente, há uma família que sofre e pede, também ela, conforto e proximidade».

A doença é sempre uma limitação e não pode ser o centro das questões. Por esta razão se fala, hoje, mais de pastoral da saúde e menos da doença. Embora seja algo de menos bom, podemos e devemos cristianizar a nossa forma de viver o sofrimento e em sofrimento. Certas expressões da nossa linguagem, porém, atraiçoam-nos, dado que dizemos: ‘estava a sofrer tanto, ainda bem que Deus o levou…’; ‘foi uma esmola ter morrido’…como se não pudéssemos crescer na maturidade pela vivência adulta do sofrimento!  

c) Sem cedências à eutanásia

«Queridos profissionais da saúde, qualquer intervenção diagnóstica, preventiva, terapêutica, de pesquisa, tratamento e reabilitação há de ter por objetivo a pessoa doente, onde o substantivo «pessoa» venha sempre antes do adjetivo «doente». Por isso, a vossa ação tenha em vista constantemente a dignidade e a vida da pessoa, sem qualquer cedência a atos de natureza eutanásica, de suicídio assistido ou supressão da vida, nem mesmo se for irreversível o estado da doença».

O Papa refere aos profissionais da saúde, onde inclui também os voluntários e tantos outros intervenientes, algumas linhas da sacralidade da vida, manifestando concordância na objeção de consciência quando tiverem todos de serem, efetiva e afetivamente, coerentes com o sim à vida e à pessoa.

Pelo que se pode enquadrar a reflexão do Papa Francisco para o 28.º dia mundial do doente pode ser uma boa oportunidade, dada aos crentes, para refletirem sobre a barbárie que os parlamentares portugueses irão cometer se aprovarem, como parece, a despenalização da eutanásia… será um grande retrocesso cultural e civilizacional cometido na linha de endeusamento dos critérios inumanos que percorrem o mundo… atual!



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