Espaço do Diário do Minho

O equívoco

9 Fev 2020
Paulo Sousa

O Iberolux desenhado pelo autarca do Porto, Rui Moreira, é uma ladainha tipo “dê já vu”, que só se percebe por distração e interpretação errónea da génese dos dois países. É verdade que os dois povos há décadas que desanuviaram as tensões, combinam esforços, multiplicam investimentos conjuntos e interpretam o dossier das relações regionais como estratégico para os dois países. E se hoje é comummente aceite, para quem habita nas fronteiras, a necessidade de conjugar esforços, rompendo barreiras históricas, para a gestão do interesse comum, também é claro, para estas comunidades, a naturalidade das suas relações, sem ambições de fusão como lhe chamou o El País- numa interpretação das palavras do autarca tripeiro- e sem necessidade de eliminar o que nunca existiu na cabeça e mentalidade dos povos que souberam ao longo dos tempos criar afinidades, assumir uma postura de respeito pela individualidade, não territorial, mas objetiva e criar laços que interpretam a vontade de partilhar e melhorar o alcance das suas afinidades. Um dos casos mais gritantes, à nossa porta, é dado pelas cidades de Valença, Chaves, Tui e Verin. Souberam interpretar o que de comum sempre nos uniu e que o território dividiu. É pena que Rui Moreira não valorize o que tem sido feito pelo Eixo Atlântico; veria que as partes não estão preocupadas com essa visão desconectada da realidade. Os restantes autarcas e os respetivos povos há muito que trabalham juntos, partilham responsabilidades, desenvolvem parcerias, otimizam os respetivos recursos, partilhando ideias e estratégias. Tudo isto acontece sem entropias, sem bacoquismos hilariantes nem previsões históricas como aquela que nos deixou José Saramago, autor da “Jangada de Pedra”, numa entrevista em 2007 ao Diário de Notícias: “Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha”. O equívoco do escritor é o mesmo que levou em 2010, José António Saraiva, então diretor do Expresso, a propor um debate sobre essa hipótese, ficando a falar sozinho. A diferença entre a possibilidade e a realidade pode ser vista a partir da diferença substancial entre os dois países: Portugal é um país, uno e indivisível, a Espanha é formada por vários países e só assim se percebe que nunca tenha havido a aproximação a essa ideia megalómana e pouco dizente aos povos e às regiões. Rui Moreira está no centro de um território que olha para o outro lado da fronteira e tem uma região (Galiza), disponível para o caminho comum, mas não terá seguramente a mesma disponibilidade para embarcar numa versão moderna da jangada, imaginada de fugaz por um autarca que deveria estar empenhado em fortalecer organizações como o Eixo Atlântico e menos concentrado em criar artificialmente o que foi rejeitado com naturalidade pelos povos que coabitam a fronteira comum. Exemplo concreto do que acabo de afirmar, está bem patenteado em Braga, que se tornou desde ontem a Capital da Cultura do Eixo Atlântico. Um programa intenso de atividades deixará o seu rasto, prenunciando um entendimento plurifacetado no verbo e no adjetivo cultural, tão bem sublinhado ao longo de décadas por poetas e fazedores da boa vontade de aquém e de além. Querer ou achar que se podem confundir as duas dimensões é não perceber nem o fundamento, nem a pertinência do trabalho comum que tem sido desenhado por nortenhos e galegos. A ambição de Rui Moreira é um desassombro da sua necessidade política, mas não obedece, como seria de esperar, ao pragmatismo que por estes dias une, sem pretensiosismos, a disponibilidade dos que desde a sua fundação, tentam preservar a vontade de valorarem a sua história comum, construindo um futuro, na base do respeito pela diferença. O que é de esperar no presente, é que os governos dos respetivos países, não só respeitem a dinâmica de trabalho e a vontade própria da euroregião, como sejam capazes, de deixar nas mãos de quem trabalha dia a dia esta necessidade de dar corpo e alma ao projeto de integração, inclusão e disponibilidade. Ou seja, caro Presidente da Câmara do Porto: é imperativo e de bom senso apostar na capacidade de concretizar o que há muito é assumido como inevitável na Europa das regiões e dos povos.



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