Espaço do Diário do Minho

O trabalho em Portugal
15 Jan 2020
Luís Sousa

No passado dia 6 de janeiro, fomos todos surpreendidos pela notícia de que a recém eleita Primeira Ministra da Finlândia Sanna Marin tinha intenções de reduzir a semana de trabalho para 5 dias com jornadas diárias de 6h ou, então, para 4 dias por semana, mantendo as 8h de trabalho diárias, com o argumento de que isso poderia trazer ganhos de qualidade de vida para os finlandeses ao proporcionar-lhes uma maior capacidade para conciliar trabalho com a vida pessoal e, ao mesmo tempo, não comprometer a produtividade do país, gerando, até, possíveis ganhos de eficiência na produção nacional.

Independentemente de estar ou não estar no programa do governo finlandês e de se tornar, ou não, numa realidade num futuro próximo, a notícia trouxe, pelo menos, para a discussão pública um tema importante que merece a nossa reflexão e que tem a ver com o quão longa deve ser a jornada de trabalho nos dias de hoje. Mais horas de trabalho significam mesmo ganhos em produtividade? Ou, pelo contrário, somos mais eficientes e produtivos se tivermos jornadas de trabalho mais curtas? É uma questão para a qual, julgo, não temos uma resposta taxativa muito por força daquilo que é, ainda, o paradigma do mundo laboral nos países ocidentais.

Segundo dados da OCDE (https://data.oecd.org/emp/hours-worked.htm), na Europa, no que respeita a número de horas de trabalho por ano, Portugal é, apenas, ultrapassado pela Itália, Irlanda e por países do centro e leste europeu como a Hungria, República Checa, Grécia, Polónia, Estónia e Rússia. No topo desta lista, considerando exclusivamente os países europeus, está a Alemanha, a Dinamarca e a Noruega, nações onde o número de horas trabalhadas são menores.

De facto, em Portugal, trabalhamos muitas horas. Vivemos, além disso, num país onde o normal é sair para além da hora de trabalho. Olha-se de lado para o trabalhador que sai à hora certa. O bom funcionário é aquele que prolonga a sua jornada de trabalho por mais uma ou duas horas de livre e espontânea vontade, porque esse, sim, se preocupa com a saúde da empresa. O bom funcionário é aquele que vai para casa e leva o telefone de serviço para atender as chamadas a todas as horas ou para responder aos e-mails nos dias de férias.

Há uns tempos, alguém, em conversa comigo, dizia que o filho, emigrante na Alemanha, foi advertido pelo diretor da empresa, onde trabalhava, por estar na empresa horas a mais para além das exigidas pelo seu horário de trabalho. Foi chamado a atenção por trabalhar a mais, coisa impensável em Portugal.

Vivemos numa cultura laboral assente no desenrasque. Nos serviços do Estado é frequente. Por cada funcionário que termine a sua carreira ou que se ausente de forma prolongada por doença ou licença, fica outro a acumular o trabalho que já lhe competia com o trabalho que até então era da responsabilidade do colega. E vamos, passivamente, aceitando isto. Por isso, vemos os centros de saúde, hospitais e escolas sempre com o mesmo problema crónico: mais trabalho para menos recursos humanos.

E os serviços degradam-se. Mas o problema não é só nos serviços do Estado. As empresas estão também cada vez mais apertadas e condicionadas por uma carga fiscal asfixiante que lhes condiciona a gestão. E quando a gestão está condicionada, há uma pressão e exigência que flui pelos diversos setores da empresa: diretores, chefias e restantes trabalhadores que, assim, são, também, induzidos a fazer mais com menos.



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