Espaço do Diário do Minho

As inundações em Braga

15 Jan 2020
Joaquim Barbosa

As nuvens lampejantes engoliram o sol, o dia escureceu e, repentinamente, o céu de Braga como que foi coberto pelas águas do mar da Apúlia que se despejou em cascatas recheado de pedras num ruído ensurdecedor.

O rio Este transbordou, ganhou um forte caudal, apanhou as pessoas de surpresa, tendo muitas delas sido levadas na valente enxurrada, com lama, pedras, árvores e todo o género de objetos que se encontravam nas suas margens.

O leito do rio ficou cheio de cadáveres, num cenário dantesco, com corpos de mais de vinte pessoas que morreram afogadas e pelos danos físicos causados pelo arrasto que levaram pela força das águas.

Não, não se trata das últimas inundações que ocorreram no concelho em dezembro último.

Trata-se antes de uma referência ao fatídico dia de 30 junho de 1779 em Braga tão bem investigado e dado a conhecer, desta vez em 2001, pelo grande historiador do nosso burgo Eduardo Pires Oliveira sobre a freguesia de São Vitor (“A freguesia de São Victor (Braga). Braga, Junta de Freguesia de São Vítor, 2001.

De facto, cheias em Braga sempre aconteceram e, em meados de dezembro último, face às fortes e excecionais chuvadas que trouxeram o caos em muitos locais do país, o cenário repetiu-se, embora, felizmente, sem a intensidade de há cerca de dois séculos e meio. Muito eficaz foi o trabalho coordenado dos serviços municipais de proteção civil, com os bombeiros e os nosso incansáveis autarcas.

Braga foi construída sobre muitos terrenos com aptidão agrícola, sendo Lamaçães – local ideal para o Parque da Cidade – um dos exemplos. Este facto, somado à deficiente construção da cidade, tem como consequência o drama vivido neste dezembro último. O exemplo mais gritante é junto à BOSCH, com a rua, carros e garagens inundadas, devido a uma obra que nunca deveria ter existido. Este problema terá solução breve após a presente negociação com a Câmara e os proprietários dos terrenos junto ao rio Este para alteração das suas margens e a colocação do respetivo coletor.

Só desde 2016 até 2019 foram realizados mais de 2000 obras pelos serviços municipais derivadas de problemas pluviais, com um dispêndio de 470 mil euros. Muitas dos problemas das inundações na cidade, como no túnel das piscinas, deve-se também à rápida deslocação das folhas molhadas que entupiram o sistema de escoamento, mesmo que previamente limpo. O que se está a fazer em alguns “pontos negros” da cidade, é a alteração do sistema de drenagem, com a colocação de sorvedouros e tarjetas mais atuais.

No túnel junto do Hotel oteHMelia a circulação tem de ser interrompida todos os anos. Isto acontece porque um coletor de drenagem foi demolido há mais de 6 anos e a drenagem está condicionado à subida do rio Este. Há fuga de água para o túnel sempre que o rio passa a sua quota. A situação só poderia ser totalmente reposta com o levantamento de todas as margens do rio e colocar o coletor a uma distância que permitisse drenar por gravidade. Face ao custo enorme que uma obra desse tipo acarretaria, a solução é a de colocação de um sistema de bombagem que evite essa situação, como está a ser feito, com a realização do respetivo concurso de aquisição.

Na zona das piscinas junto ao viaduto da rodovia, apesar da limpeza constante, a rápida acumulação de folhas molhadas, caídas aquando da tempestade, entupiram de súbito o sistema de escoamento, além do caudal formado que obstruiu por completo o sistema de drenagem pública. Nenhum sistema de drenagem foi feito para aquela quantidade de água – excecional pelo menos até agora – e rapidamente colapsou.

Os proprietários dos terrenos confinantes ao rio Este têm especial responsabilidade legal pela limpeza e desobstrução das suas margens e, nas freguesias rurais, sua limpeza e alteração das margens é da competência exclusiva da Agência Portuguesa do Ambiente que podem atuar mediante solicitação das juntas de freguesias e particulares.

Os pontos nevrálgicos das inundações parece que estão devidamente identificados e o decisivo é que se trabalhe e que haja dinheiro para os resolver em tempo oportuno com a participação de todos os envolvidos, entidades públicas e particulares.



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