Espaço do Diário do Minho

Apanhados 11

15 Jan 2020
Dinis Salgado

Seja individual ou coletivamente o portuguesinho muito gosta de pisar o risco ou

seja de infringir ou fintar as regras estabelecidas; e isto à boa maneira do chico-esperto ou do puto reguila que ainda se gaba de tais habilidades.

E esta forma de ser e de estar que herdamos de Afonsos, Gamas e Cabrais cola-se-nos à pele como acne ou impingem; e vê-se claramente visto, seja nas filas das paragens do autocarro, seja nas caixas do supermercado, nas fugas ao fisco e, até, nas infidelidades conjugais o que eufemisticamente se designa por dar uma facadinha no matrimónio ou, mais prosaicamente, saltar o valado.

Vai daí, se aplicarmos esta doutrina à ação política-partidária que por aí-abunda como cogumelos em monturo, o chico-espertismo é uma regra de oiro na luta pela sobrevivência, passando à frente e abrindo os braços para chegar primeiro à cadeira ou cadeirão vazios ou seja a um lugar ao sol, e que sol; e isto, em termos práticos, traduz-se na corrida desesperada, sem rei nem roque, ao tacho que, nos tempos apertados que atravessamos para se arranjar um bom emprego, é oiro sobre azul.

Agora, quando este pisar do risco ou infração e desprezo das regras estabelecidas se aplica ao desrespeito pela autoridade e pela lei, a coisa toma-se mesmo grave e a reclamar o aqui-d’el-rei que era interjeição usada e abusada no tempo de Afonsos, Gamas e Cabrais por quem pedia ao soberano reinante ajuda, socorro e, obviamente, justiça.

E se o rei, entretido andasse em montarias ou joguinhos de alcova com uma qualquer dama de companhia da consorte rainha, sempre havia um meirinho ou juiz de fora pronto a meter na ordem o chico-esperto prevaricador e desordeiro; e, se mais não fora, dando-lhe umas valentes bordoadas ou metendo-o atrás das grades pelo tempo que preciso fosse para que ele amansasse e endireitasse os costumes.

Pois bem, como bons portugueses descendentes, claro, dos mesmos Afonsos, Gamas e Cabrais e, como tal, chiquinhos-espertos à maneira, bracarenses há que muito gostam de armar ao pingarelho que é como quem diz em putos reguilas e passarem por cima ou ao lado das regras e leis estabelecidas para todos os cidadãos; e naquela pose do marialva que se ufana de que isso de regrinhas e leizinhas é para parolos e tansos que nada pescam de fintas e desenrasques.

Por exemplo, no que às artes de bem cavalgar besouros de lata (automóveis e trotinetes) eles são uns verdadeiros artistas da prevaricação e adeptos de que a legislação é só para inglês ver e, quando muito, para uso de marroquinos e broeiros; e como quem diz claramente que o Código da Estrada não passa de um manual de estranhas artimanhas e boas intenções de que está o inferno cheio e a tasca do Zé Colmeia a transbordar;

e, então, é vê-los, ao volante, seja de potentes latas, seja de besouros a cair de podres, a pisar linhas contínuas, a inverter a marcha sobre duplas contínuas, a estacionar em cima dos passeios, a passar sobre o vermelho dos semáforos, a fazer das rotundas mãe de todas as prioridades, transgressões e complicações e sem assinalar mudanças de direção; e, quando toca a carregar no pedal aproveitando a onda verde em avenidas e rodovias consentida pelos semáforos, é um ver se te avias para mostrar cagança e pôr os bofes de fora ao carrão e a adrenalina em ascensão.

Pois é, estes chicos-espertos andam a pedir molho que, em bom português hoje já não ensinado nas escolas, é como quem diz exigir que as autoridades lhes caiam em cima e lhes malhem como em centeio verde; ao menos para que não ponham em perigo a vida de quem circula por aí, quer a pé, quer automobilizado e não se borrifem para as leis da República.

Depois, olhando ao aperto em que o ministro Centeno tem mantido as Finanças do país, esta até é uma forma limpa, simpática e fácil de encher os cofres do Estado sem castigar tanto os cidadãos cumpridores dos seus deveres públicos; e porque a contenção de despesas a que as Forças de Segurança, por força dos sucessivos garrotes orçamentais, têm sido sujeitas, assim impedindo os respetivos agentes de partirem para o terreno, recorra-se aos radares que ainda é o método mais limpinho, transparente e, sobretudo, inflexível de ir ao bolso do cidadão refratário e transgressor e metê-lo na ordem que é o que a lei manda e a República reclama.

E que esta seja uma medida a bem da sanidade e moralidade públicas ou seja a Bem da República.

Então, até de hoje a oito.



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