Espaço do Diário do Minho

Uma vez mais, acordámos tarde
14 Jan 2020
João António Pinheiro Teixeira

Na vida, sucede-nos – muitas vezes – o que nos acontece em não poucas manhãs: acordamos tarde.

E, quando acordamos tarde, dificilmente chegamos a tempo.

Uma vez mais, acordámos tarde para a possibilidade de um conflito de proporções planetárias.

Sobressaltámo-nos com os ataques no Médio Oriente. E nem sequer nos apercebemos de que a linguagem e os comportamentos já estavam há muito a levar o mundo para (mais) uma descontrolada via belicista.

Dizem-nos que se mata para poupar vidas. Esquece-se que haverá outros vivos que continuarão a fazer outros mortos.

E não se tem em conta que serão inocentes a pagar o preço de mais uma escalada de violência sem fim à vista.

Parece que ainda não notamos que a violência está instalada no mundo porque continuada alojada em cada pessoa que há no mundo.

Basta olhar para as palavras e para as atitudes.

Vítor Hugo deu conta de que «as palavras têm a leveza do vento e a violência das tempestades».

Os nossos ouvidos estão encharcados de palavras com sabor a raiva e a ressentimento.

Das palavras repentinas aos actos impensados (e mal pensados) vai um passo muito pequeno. Mas com consequências imprevisíveis e, quase sempre, assustadoras.

Um pouco de ponderação bastaria para fazermos esta (elementar) pergunta: que ganhamos com a violência?

Devíamos ter presente que – como reparou Jean-Paul Sartre – «a violência, seja qual for a maneira como se manifesta, é sempre uma derrota».

Mas quando vemos a violência que se espuma de certos lábios e se evola a partir de muitos corações, como pretender que a paz se estabeleça no mundo?

Tememos uma «guerra mundial», mas mostramos uma clamorosa indiferença perante tantas «guerras domésticas» que se multiplicam à nossa frente.

Se até os próximos são odiados, como é que os distantes hão-de ser amados?

Temos de acordar mais cedo para a tragédia da guerra e para a urgência da paz. Não digamos que a culpa é do tempo. O tempo deixa marcas no homem. Mas o homem também deixa marcas no tempo.

Temos – todos! – o (indeclinável) dever de deixar marcas que nos honrem e não rastos que nos envergonhem. Foi por isso que Santo Agostinho sentenciou que «se formos bons, os tempos serão bons».

Depois da «revolução industrial», da «revolução tecnológica» e de tantas «revoluções políticas», para quando uma efectiva «revolução espiritual»?

Com São J.H. Newman, deixemos que, «no meio da noite», uma «luz terna e suave» nos leve para «mais longe»: para mais longe da guerra e do ódio. Se não podemos fazer tudo no mundo, podemos fazer muito mais em cada um de nós!



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