Espaço do Diário do Minho

A insustentável leveza das decisões
14 Jan 2020
Luís Martins

Como se aprova qualquer coisa para valer para todos se a maioria não segue a proposta, votando uma parte contra e outra abstendo-se? É verdade, o Orçamento de Estado para 2020 foi aprovado assim, na generalidade, sem o apoio da maioria dos deputados, na semana passada.

Claro que se trata da primeira fase do processo e que quase tudo pode ser alterado daqui para a frente, até à decisão final. Mas, a decisão tomada pelos melhores amigos dos deputados socialistas não deixa de suscitar interrogações: afinal, onde estão as afinidades? Não defenderam bloquistas e comunistas os últimos orçamentos dos socialistas? O orçamento que está em discussão não é de continuidade?

Então, que há de tão diferente que está a alterar tanto a apreciação do quinto orçamento pela esquerda? O certo é que a votação pode vir a repetir-se e o mais importante documento que autoriza o Governo a cobrar impostos e a executar despesa nas funções do Estado pode ser aprovado com os votos favoráveis de uma minoria.

Há quem tenha admitido que está tudo combinado entre o Governo, o Partido Socialista (PS) e a esquerda, e eu acredito. Nas circunstâncias actuais, interessava aos vários intervenientes um pouco de teatro, tanto aos últimos como os primeiros, nem que fosse para manter fiéis os que votaram nuns e noutros. As cúpulas que aproveitam os lugares para concretizarem sonhos que não conseguem sem o voto dos eleitores, não o admitem em público, por isso, ensaiam um texto sintonizado com os desejos dos eleitores para parecer real.

Mas, todos representam, tenham ou não experiência cénica a sério, como se estivessem num qualquer palco de teatro. Uns para significar que deixaram de estar amarrados a acordos escritos, outros para dar a entender que respeitam o eleitorado. No entanto, nenhum fala verdade. E todos pecam por falta de lealdade.

A abstenção encenada acaba por ser um desrespeito pelo eleitorado. Com abstenção ninguém decide nada. Em que sentido se posiciona quem se abstém? Em nenhum! Ou se é a favor ou contra. E é assim que os eleitores esperam dos seus representantes: que persigam a aprovação de uma medida ou a rejeitem, de acordo com o que foi sufragado. Ser-se neutro não permite estar de lado nenhum. É como se os que defendem esta posição se ausentassem e, por isso, não comparecessem para a decisão. E quem não está presente não pode representar. E a prova disso é que os seus votos não contam. É leviano e insustentável querer representar o povo por omissão. As decisões, mormente as mais significativas, não podem ser tomadas com a leveza com que às vezes acontece.

Se a votação da especialidade se mantiver idêntica à que já aconteceu, os portugueses acabarão desrespeitados porque, tendo-se decidido por um Parlamento de esquerda, na realidade as forças partidárias com assento parlamentar não se entendem nas políticas. O que responsabiliza uns e outros e todos esses em conjunto. Se são assim tanto de esquerda, terá de haver evidências de que o são de verdade.

Eleições no PSD

No último fim de semana decorreram as directas para a eleição do presidente do Partido Social Democrata (PSD). Sem surpresas, Rui Rio venceu, ainda que não tenha conseguido com os sufrágios obtidos renovar à primeira volta, de imediato, o mandato. Venceu a coerência, a responsabilidade e o sentido de Estado. Rui Rio era e é o melhor candidato a presidir ao maior partido da oposição e o que reúne condições para, eventualmente, vir a ser primeiro-ministro, caso venha a “gripar o motor do crescimento e da justiça social”, como já admitiu uma responsável socialista, ou persista a insustentável leveza das decisões dos camaradas. No próximo sábado, a vitória de Rio voltará a verificar-se.

O ex-autarca da Invicta foi uma referência no poder local e, estou certo, pode vir a ser uma referência a nível do governo do país; já mostrou, aliás, que não se verga ao populismo, nem faz da leviandade uma estratégia para surfar a onda da política, características invulgares de que outros fogem por insustentável leveza dos interesses. Como Rui Rio disse, e bem, “nada é fácil” e “a unidade faz-se muito mais facilmente em torno do mais forte” e ele é, sem dúvida, o mais forte. Quem for inteligente que compre. Se for ele a vender de novo, eu compro.



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