Espaço do Diário do Minho

O «telemóvel» e a «faca»!
7 Jan 2020
João António Pinheiro Teixeira

Além dos seus «ídolos», cada época parece erigir os seus «ícones».

Tenho dado comigo a pensar que dois dos maiores «ícones» destes tempos sem tempo são o «telemóvel» e a «faca».

Materialmente, trata-se de dois artefactos preciosos – e de dois instrumentos indispensáveis – do quotidiano.

Estão a converter-se, porém, em dois veículos perigosos – quiçá, macabros – que chegam a infirmar a finalidade inicial para que foram criados.

O «telemóvel» nasceu para facilitar a comunicação. E é verdade que ele facilita a comunicação com quem está longe. Só que, no limite, está a dissolver a comunicação com quem está perto.

E que dizer da «faca»? A sua principal utilização é na culinária. Habituámo-nos a usá-la para descascar, fatiar e aprumar frutos e outros ingredientes que entram na nossa alimentação.

Mas eis que ultimamente – e de uma forma cada vez mais arrepiante – a «faca» está a ter uma utilização tenebrosa, sinistra, cruel.

Há quem recorra à «faca» para agredir, para ferir e para matar.

Este recurso mórbido à «faca» tem lugar reservado – a uma cadência diária – nas páginas dos jornais, nos «prime-times» televisivos e nas incontáveis redes sociais.

Maridos degolam esposas à «facada», filhos transtornados matam pais à «facada», pessoas que resistem a assaltos são assassinadas à «facada».

Há contornos de malvadez que nos deixam lívidos de espanto e a estremecer de dor.

Que podemos sentir quando vemos uma mãe trucidada com golpes de «faca» à frente dos próprios filhos?

O mais grave é que esta sequência ocorre, frequentemente, em casa. Como chegamos a esta insuportável «guerra doméstica»?

O problema é que a família deixou – há muito – de viver como família.

O Santo Padre tocou na ferida em finais do no ano passado.

 Adverte Francisco que os membros da família «não comunicam entre si». Até à mesa, cada um está munido com o seu telemóvel, falando com quem está longe, mas «desconectado» de quem está ao seu lado.

O Papa interpela-nos muito agudamente: «Tu, na tua família, sabes comunicar ou és como aqueles que estão à mesa com o telemóvel»?

Para a mesa, levemos não apenas apetite nem tão-pouco o pensamento nos que estão no outro lado. Levemos o olhar, levemos a ternura, levemos a atenção, levemos o cuidado.

Afinal, não é só nas «redes» que há gente. As pessoas que estão ao nosso lado – e à nossa frente – também merecem o melhor de nós.

Definitivamente, o lugar do telemóvel não é à mesa. E usemos bem as facas: na mesa e fora da mesa. Para agredir e matar, nunca mais!



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