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Arquidiocese de Braga vai criar Quarteirão Cultural

O início das obras de construção de uma nova livraria, na antiga Quinta do Paço, marca o arranque da criação do Quarteirão Cultural da Arquidiocese de Braga. O Espaço Vita será o “coração” da nova dinâmica cultural, que vai ser centrada na diversificação da oferta. O projeto estende-se à construção do novo Arquivo Diocesano, que será instalado no Edifício Diário do Minho e enriquecido com uma Biblioteca Arquidiocesana. 

Joaquim Martins Fernandes
5 Jan 2020

«Este projeto do Quarteirão Cultural da Arquidiocese de Braga nasce de um conjunto de necessidades, nomeadamente a deslocação do Arquivo e Biblioteca Diocesanos, que precisam de sair do edifício onde se encontram», disse o padre Tiago Freitas. O sacerdote que chefia o Gabinete Episcopal e dirige o Espaço Vita revela que a mudança impõe-se por «uma questão estrutural», que se prende com o facto de, a médio prazo, o imóvel «não ser capaz de suportar o peso do Arquivo».

A falta de capacidade para crescimento é um outro motivo para a mudança. «O Arquivo e a Biblioteca vão passar para o Edifício do Diário do Minho. E a partir do momento em que essa decisão foi tomada, tornou-se necessário encontrar uma alternativa para a Livraria Diário do Minho. E como, nos últimos anos, o Espaço Vita, juntamente com o Centro Cultural da Arquidiocese, têm sido a valência de cultura, por excelência, da Arquidiocese, optou-se por deslocar a livraria para junto do Espaço Vita, transformado a área num Quarteirão Cultural».

A decisão final não está tomada, mas «tudo aponta» para que a Livraria Diário do Minho seja absorvida pela marca Vita, que passará a integrar um conjunto alargado de equipamentos culturais: o Auditório do Espaço Vita; a Livraria; e o Espaço Vita, com os claustros, as salas de formação e os espaços de alojamento. A Livraria ficará localizada no espaço da antiga “residência do caseiro” da Quinta do Paço Episcopal, em frente à Casa Sacerdotal. «Será gerida pela mesma equipa que gere o Auditório», precisa Tiago Freitas, fazendo saber que o equipamento focado no livro e na leitura «terá uma programação cultural integrada» na agenda das realizações que dão vida ao Auditório.

«Pretende-se que não seja, simplesmente, um espaço para vender livros. Terá, por isso, um auditório versátil, com capacidade para cerca de 150 pessoas, que poderá ser afeto a sessões de apresentação de livros e, aos fins-de-semana, a trabalhos com famílias e crianças», acrescenta o também diretor da Livraria Diário do Minho, salientando que a agenda das realizações vai privilegiar o conto de histórias e trabalhos diversos de índole educativo. Pelo espaço vão também passar sessões de cinema e conferências, entre outras iniciativas.

O diretor do Espaço Vita destaca a mais-valia que a deslocação da Livraria vai aportar à dinâmica cultural que está centrada no Auditório Vita. «Haverá uma ligação funcional com um equipamento que, ainda há três anos atrás, estava, sobretudo, destinado às atividades internas da Arquidiocese e que, há três anos foi aberto à comunidade». A mudança implicou «um investimento inicial grande» na modernização dos equipamentos de som e iluminação. Foi também criada «uma equipa de profissionais com competências para a gestão do espaço», salienta Tiago Freitas, dando conta que o Auditório Vita «tem vindo a ser auto-sustentável e a crescer, ano após ano». Com o crescimento, cresceu também a «necessidade de espaços mais flexíveis», para responder a eventos de menor dimensão.

Biblioteca de cariz inovador ficará envolvida pela natureza

O projeto de arquitetura da futura Livraria Vita está já aprovado, estimando a Arquidiocese de Braga que as obras arranquem durante o primeiro trimestre deste ano. A obra vai exigir um investimento direto na ordem dos 700 mil euros. O prazo de construção é de um ano, pelo que, «se nada correr mal», deverá ser inaugurado no primeiro trimestre de 2021. 

A solução arquitetónica evidencia uma opção por um modelo de construção simples. A intervenção vai integrar a “casa do caseiro” da Quinta do Paço, que “empresta” o traço original à futura construção. Também o espigueiro existente no local será preservado e integrado no conjunto. O futuro equipamento, que duplica o tamanho da casa existente, será dominado por paredes de vidro. O propósito é que «a envolvência da natureza seja transportada para dentro da Livraria, de forma a que as pessoas sintam que,, apesar de estarem no centro da cidade, estão num espaço diferente, agradável e no meio da natureza», explica Tiago Freitas.  

Será um edifício composto por 4 pisos: no subsolo (Piso -1) será instalado um armazém e um auditório flexível para 150 pessoas, que poderá, inclusive, mudar a configuração e assumir a forma de teatro romano; o rés-do-chão (Piso 0) será destinado à Livraria propriamente dita, a uma paramentaria, a um espaço para os serviços administrativos do Jornal Diário do Minho que ainda estão instalados na Rua de Santa Margarida e a uma cafetaria. O exterior será dominado por um extenso espaço ajardinado, com várias esplanadas. 

O Piso 1 é destinado aos escritórios da equipa do Espaço Vita e a um balcão de trabalho e de leitura, que vai ser colocado à disposição dos visitantes e utilizadores da Livraria. Haverá também uma área especialmente dedicada aos sacerdotes da Arquidiocese, não estando de parte a possibilidade de ser criado um clube de leitura.   O Piso 2, que será integralmente destinado aos serviços que vão gerir o Quarteirão Cultural, será dominado por uma sala de reuniões.  

«Queremos que seja um edifício harmonioso e integrado com a natureza», sublinha o padre Tiago Freitas, acrescentando que a ideia «é disponibilizar um espaço aprazível para todos os bracarenses», que vão poder usufruir de todas as potencialidades que são oferecidas pelo extenso Jardim da Livraria e pela Quinta do Paço.

Diversificar oferta cultural

A criação de espaços mais flexíveis, que passarão a existir com a nova Livraria, vai complementar a atividade do Vita. O padre Tiago Freitas afirma que «são já muitas» as solicitações que chegam ao Vita para disponibilização de espaços para «pequenas sessões de cinema», às quais não tem sido possível dar resposta, porque «não faz sentido abrir um auditório de 500 lugares a uma realização de 50». 

Além disso, a complementaridade dos equipamentos é facilitada pelo modelo de gestão já definido. «Quem faz a programação cultural do Auditório Vita também será responsável pela programação da Livraria. Ao mesmo tempo, a própria Livraria vai obrigar-nos a diversificar um pouco a nossa oferta, embora sem perdermos a identidade, já que se trata de uma livraria de cariz religioso», antecipa o também diretor da Livraria Diário do Minho. 

Espaço Vita vai ganhar nova fachada

O avanço para a construção do Quarteirão Cultural da Arquidiocese de Braga vai abrir as portas a obras de renovação da fachada do Espaço Vita e à reformulação de boa parte da Rua de S. Domingos. As obras têm sido sugeridas pelos utilizadores do Espaço Vita, que não têm escondido que a primeira imagem do imóvel não se adequa aos equipamentos que integra. 

«Quando vêem o Espaço de Vita a partir de fora, as pessoas acham que o imóvel está muito descaracterizado. Mas quando entram e vêem a Capela [da Vida], o Auditório, a Cooperativa João Paulo II, os Claustros e as salas de formação comentam que a imagem da fachada desvirtua o potencial que está lá dentro. E agora que está assumido que a parte esquerda do prédio é Auditório, torna-se necessário que a fachada transpareça o que está dentro do Espaço Vita», afirma o diretor do equipamento, sublinhando que a intervenção visa «reforçar a ideia de que se trata de uma casa de cultura e de espetáculos».

O facto de o Auditório ser muito utilizado para atividades que envolvem crianças, confronta a gestão com a questão da segurança dos utilizadores mais frágeis. «Torna-se, por isso, necessário criar uma zona de contenção que permita que 500 pessoas possam sair para a rua em segurança». A solução encontrada passa pela construção de uma praça na zona de acesso ao Auditório, pelo alargamento dos passeios e pela criação de uma passadeira que faz a ligação à futura Livraria. A intervenção, que deverá ser assumida pela Câmara Municipal de Braga, implica a reformulação do traçado da Rua de S. Domingos, tendo a Arquidiocese já assumido o compromisso de ceder uma área de terreno da antiga Quinta do Paço para que a via possa ser redefinida.

As alterações à circulação rodoviária na área, que é muito pressionada pelos colégios e escolas públicas existentes na envolvente, podem também passar pela criação de uma nova via, que ligue diretamente a Rua de S. Domingos à Rua do Taxa, pelas traseiras do Seminário de Nossa Senhora da Conceição. A solução é vista com bons olhos pela Junta de Freguesia de São Victor, mas é ao Município de Braga que cabe a decisão final. 

Garantido é que a Arquidiocese vai aproveitar a criação do Quarteirão Cultural para a criação de uma ligação direta da Piscina que disponibiliza ao público à Rua D. Manuel Vieira de Matos.

Arquivo Diocesano passa para o Edifício do Diário do Minho

A instalação do Arquivo e da Biblioteca da Arquidiocese de Braga no Edifício Diário do Minho, sito na Rua de Santa Margarida, é um outro investimento que vai ser concretizado a curto prazo. O projeto de arquitetura está em fase de conclusão e o arranque das obras  está pendente da libertação de uma parte do imóvel onde o Jornal Diário do Minho funcionou até meados de abril de 2017. O chefe do Gabinete Episcopal, Tiago Freitas, não esconde que a obra que o Arcebispo Primaz considera ser estratégica para a Arquidiocese está no topo das prioridades de D. Jorge Ortiga.

«Estas são duas obras que o senhor Arcebispo pretende que tenham o andamento mais rápido possível», disse o jovem sacerdote, fazendo saber que «a nova Livraria e o Arquivo são as duas obras que, neste momento, têm já autorização [do Paço Arquiepiscopal] para avançar». As estimativas é que os trabalhos de reinstalação do Arquivo possam arrancar ainda durante o segundo trimestre deste ano.

O projeto de arquitetura revela que o Arquivo Diocesano vai ocupar praticamente toda a área onde esteve instalado o Diário do Minho, deixando apenas livre o espaço onde, atualmente, funciona a Livraria Diário do Minho. A vasta área de ocupação é justificada «na necessidade de crescimento do Arquivo», que deverá incorporar «uma cópia dos livros oficiais existentes em cada Paróquia», nomeadamente Assentos de Batismos e de Casamentos. «É também por aí que se faz a história da Igreja de Braga e do próprio distrito», nota o chefe do Gabinete Episcopal, sinalizando que «nem sempre as Paróquias têm a possibilidade de acomodar e conservar convenientemente os seus livros à sua guarda».          

A junção de uma Biblioteca ao Arquivo Diocesano resulta da intenção de acolher as bibliotecas particulares de muitos sacerdotes que já manifestaram a vontade de doar o respetivo espólio à Diocese. «Há muitos que têm obras absolutamente incríveis e que não se podem perder, sobretudo os livros históricos. Mas, primeiro, é necessário ter espaço que dêem aos sacerdotes a segurança e a tranquilidade de que os livros estarão bem tratados e com todas as condições para serem colocados à fruição do público», resume Tiago Freitas.

AUDITÓRIO VITA

Programa de eventos financia atividades de matriz solidária 

A programação cultural e a abertura do Auditório Vita a realizações de caráter empresarial têm gerado receitas que permitem ao Espaço Vita abrir graciosamente as portas do equipamento diocesano a iniciativas solidárias. «Ao longo dos últimos três anos, o Espaço Vita tem feito um enorme trabalho, também de cariz solidário, de apoio a colégios e escolas públicas e a Instituições Privadas de Solidariedade Social. E esta vertente solidária tem registado um crescimento progressivo», disse o diretor do Espaço Vita. 

O padre Tiago Freitas deixa claro que «não é fácil» a uma entidade privada com «custos de manutenção e de conservação muito grandes» prestar esse tipo de apoios, através de um equipamento que está, essencialmente, direcionado para as realizações culturais, embora conservando «a sua matriz eclesial». A disponibilidade para as causas solidárias têm sido possibilitada pela «procura crescente» do Vita pelo setor empresarial local, regional e nacional, que tem encontrado no equipamento da Arquidiocese de Braga serviços “chave na mão” que não são fáceis de encontrar. 

«O Espaço Vita dispõe de salas para formação, espaços de alojamento para 65 pessoas em camaratas e em quartos duplos e single – uma valência que tem vindo a crescer -, um auditório para espetáculos, eventos ou congressos e áreas de leitura e de lazer. Tudo isto é complementado com um generoso parque de estacionamento automóvel e com vários espaços para refeições», sublinha Tiago Freitas.

O sacerdote que está à frente da gestão do Espaço Vita destaca que essa oferta global é também a razão que explica a particularidade de o Espaço Vita ter já conquistado várias parcerias com entidades empresariais e com o próprio Município de Braga, que «sabe olhar para outros espaços culturais que não apenas os municipais».

«Além disso, o Espaço Vita tem desenvolvido um importante trabalho de promoção da cultura, abrindo as suas portas a muitas associações e grupos culturais que, de outro modo, não encontrariam na cidade espaços que os pudessem acolher», vincou Tiago Freitas, salientando  que essa abertura à comunidade «será ainda mais potenciada» pela nova Livraria. 

 

 





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