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Jeff Kinney fala de “O Diário de um Banana”

Pedro Viegas
3 Dez 2019

A família Heffley acaba de receber uma herança e decide fazer obras em casa. Este é o ponto de partida para as tropelias de Greg e companhia, no 14.º livro da coleção infantojuvenil “O Diário de um Banana”, intitulado “De-mo-li-ção”. Jeff Kinney, o autor mundialmente famoso, esteve em Portugal a promover a sua mais recente publicação. Em entrevista a um fã de 12 anos, o escritor e ilustrador norteamericano diz que não está cansado destas histórias, afirma que é um privilegiado por escrever o que quer e levanta o véu sobre novos livros.

Diário do Minho (DM) – Neste último livro mostra como pode ser mau viver numa casa em obras. Foi buscar essa inspiração a uma remodelação que tenha feito em sua casa ou de alguém próximo?

Jeff Kinney (JK) – Sim, eu tive essa inspiração, e ainda continuo a tê-la, com as obras na minha casa. Estamos a fazer obras e a escala cresceu cada vez mais, tanto que estamos há um ano e meio fora de casa. É muito disruptivo.

DM – Porque é que se deve ler este livro?

JK – Eu penso que é, provavelmente, o mais bem escrito, tem a melhor história, a melhor estrutura. Eu gosto deste tema da destruição. É divertido ver tudo a cair e a correr mal. Coisas destas acontecem na vida real, e acontecem-me a mim. É daí que vem a minha inspiração.

Em minha casa, estávamos a fazer grandes mudanças para a tornar acessível a deficientes, para que pudessem subir e descer as escadas. Pensávamos que podíamos continuar a fazer mudanças, até que a casa caiu. Há situações que são mais dramáticas e exageradas na realidade do que nos meus livros.

DM – Qual é a fonte de inspiração dos episódios que Greg vive? [Gregory Heffley é a personagem principal dos livros “O Diário de um Banana”.]

JK – Eu diria que a maior parte das histórias de “O Diário de um Banana” baseia-se em partes de situações reais que acontecerem quando era criança e que depois coloquei numa misturadora da ficção, daí que as situações acabam por ser diferentes do que realmente aconteceram. No entanto, existe uma base de sinceridade na maioria das histórias que conto.

Jeff Kinney a desenhar

DM – Já referiu que os seus livros não servem para dar lições de moral. O que o move: ganhar dinheiro ou pôr toda a gente a rir com o seu trabalho?

JK – Pôr toda a gente rir. Sinto que nasci para ser cartoonista, mas não consegui atingir esse objetivo. Ninguém gostou das minhas histórias aos quadradinhos, por isso tive de encontrar uma forma alternativa de as publicar, que foi colocá-las em livros. Sinto que estou a fazer o que era suposto fazer: escrever cartoons cómicos.

DM – “O Diário de um Banana” já é uma coleção muito extensa. Quantos mais livros é que planeia fazer?

JK – É uma excelente pergunta. Quantos anos tens?

DM – Doze.

JK – O meu primeiro livro saiu em abril de 2007. Já tinhas nascido?

DM – Não.

JK – É muito interessante que haja hoje crianças a lerem os meus livros que ainda não tinham nascido na altura em que eu comecei a escrever. É possível que quando tiveres 24 anos, haja um jovem com 12 anos a ler os meus livros pela primeira vez. Não sei quantos mais anos vou continuar a ter boas ideias, mas gosto da ideia de escrever para múltiplas gerações de crianças.

DM – Não está cansado de escrever as histórias de “O Diário de um Banana”?

JK – Estás cansado de as ler?

DM – Não.

JK – Ótimo. Eu sinto o mesmo. Penso que há sempre novas histórias para contar. Eu gosto destas personagens e gosto que o Rowley possa contar a sua própria história. Fica dentro de um universo que se vai expandindo. [Rowley Jefferson é o melhor amigo de Greg, sendo a personagem protagonista de “O Diário do Rowley”.]

DM – Nunca teve uma branca e pensasse que, por não ter ideias, era o fim de “O Diário de um Banana”?

JK – É sempre assim que eu me sinto. Nunca sinto que tenho boas novas ideias. Tenho que trabalhar muito para as obter. Não é fácil conseguir as piadas.

DM – Nos livros, faz tudo sozinho ou tem quem o ajude?

JK – Faço tudo sozinho, a escrita e os desenhos.

DM – Qual foi o livro que demorou mais a fazer?

JK – O primeiro livro, que demorou oito anos a escrever. Atualmente, faço um livro em cinco meses. O Rowley, escrevo-o em dois.

DM – Cada livro é dedicado a alguém. Tem algum motivo para o fazer?

JK – Geralmente, dedico-o a alguém que está doente. Recentemente, o meu irmão adoeceu e eu dediquei-lhe este novo livro. Também pode ser uma criança com cancro, pode ser em sua memória ou um incentivo para que fique melhor.

DM – Houve alguém que tivesse dado um empurrão decisivo para seguir em frente com “O Diário de um Banana”?

JK – Sinceramente, nestes livros, não sei se alguém me deu um empurrão. Foi algo interno. Lembro-me de ter visto num quadro uma citação que dizia “well done is better than well said”, ou seja, “não fales, faz”. Talvez aquele quadro tenha tido o efeito de me fazer escrever.

DM – Na edição portuguesa, os livros têm sempre 223 páginas? Existe alguma razão específica para isso?

JK – Sim, existe e é muito simples. Nos EUA, são 217. A razão é que, o primeiro, por acidente, tinha 217 e eu queria que todos os livros fossem iguais. Quando o Harry Potter saiu, os livros tinham todos dimensões diferentes. Eu queria que os meus tivessem sempre o mesmo número de páginas.

DM – Em Portugal, os livros até ao dez só têm uma cor na capa, mas a partir do décimo primeiro têm duas cores. Foi porque já não tinha cores que não fossem repetidas?

JK – Ficámos sem cores. Pensei numa forma de continuar com as cores e tive a ideia de, no número 11, começar a usar duas cores na lombada. Dá mais dimensão e é mais interessante. A partir daí, usamos este método e o próximo será melancia.

DM – O Greg é muito esperto a fazer planos, que correm mal. Não o quis pôr esperto para ter mais piada ou acha que o Greg “betinho” tinha menor impacto?

JK – Penso que para a comédia é preciso ter personagens imperfeitas. Se o Greg fosse um herói, se fosse esperto, não seria tão interessante. Tive de o fazer aparecer em formas que nem sempre são heroicas para o tornar mais interessante.

DM – O Rowley é burro ou há um mal-entendido em relação à personagem?

JK – O Rowley é uma criança mais inocente, não tão sofisticada como o Greg, por isso é que eu gosto dele. Ele frusta o Greg. É incorruptível, não é mudado pelo Greg. Eu gosto do Rowley, do seu ponto de vista. Tem um bom coração. É muito divertido escrever sobre ele.

DM – “O Diário do Rowley” foi uma tentativa de acabar com o Greg ou quis pensar fora da caixa?

JK – Não é uma tentativa de “matar” o Greg. Eu percebi que quando fizeram os filmes, a peça, o musical, o Rowley era sempre o herói. Os fãs queriam que o Rowley ganhasse. Decidi fazer um livro sobre esta personagem, que é uma espécie de herói das histórias de “O Diário de um Banana”.

DM – Acha que as editoras condicionam o seu trabalho como escritor?

JK – Escrevo o que quero. Tenho muita sorte, sou um privilegiado porque não me dizem o que fazer. Mas é claro que se escrever um livro que elas não queiram publicar, não é publicado.

DM – Não teme que “O Diário de um Banana” condicione o seu futuro como escritor, que vá ser só o escritor de “O Diário de um Banana”…

JK – Penso que sim, e não vejo problema nisso. Há muitos criadores que só criaram uma coisa ao longo da sua carreira, e isso é bom. Por exemplo, J. R. R. Tolkien criou “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit” e ficou tudo no mesmo universo. Charles Schulz criou o Snoopy e o Charlie Brown (Peanuts). Às vezes é melhor assim do que seguir por caminhos diferentes. Contudo, há alguns escritores que tiverem sucesso em criar personagens diferentes.

DM – O que pensa da discrepância que existe entre os autores nomeados para o Nobel e os restantes? A maioria dos leitores compra outro tipo de livros…

JK – É ótimo ler literatura a sério, especialmente à medida que se vai envelhecendo, ler livros que desafiam o intelecto. Os meus são mais para entretenimento. Os dois tipos de literatura coexistem, tal como às vezes vemos um filme para entretenimento, outras para aprender.

DM – Esta é uma coleção assumidamente para o público infantojuvenil ou os pais podem tirar ideias de como lidar com os filhos?

JK – Talvez os pais leiam os meus livros com os filhos. Talvez os filhos descubram a vida dos pais ao falar dos meus livros, porque provavelmente o que acontece aos filhos também já aconteceu aos pais. Isso pode estreitar a relação com os pais quando os filhos perceberem como eram em criança.

DM – O facto de ter sucesso em todo o mundo mostra que os temas das crianças são iguais em diferentes latitudes?

JK – Não conheço as crianças suficientemente bem para responder a essa questão, mas sinto que as crianças interpretam os livros da mesma maneira, independentemente das suas culturas, como a China, e de estarem em sítios longínquos. Não sinto que as crianças quando leem os meus livros sintam que estão a ler especificamente sobre uma criança norte-americana, mas sobre a infância. Essa é a minha esperança, esse é o meu objetivo.

DM – Já sentiu necessidade de alterar algo nos seus livros devido às especificidades culturais?

JK – Sim, por vezes existem sensibilidades culturais. Por exemplo, em alguns países árabes, não posso ter um porco como personagem, por isso transformei-o numa ovelha. Existem sensibilidades culturais, mas não é muito comum.

DM – No “Assim vais longe” a família Heffley faz uma longa viagem de carro. Nessas viagens, comporta-se como pai ou como Greg?

JK – Como pai, especialmente se for a conduzir. No passado, também fiz essas longas viagens em carros apertados. Os meus filhos têm melhores condições do que eu tive.

DM – Na “Última gota” o Greg e o Rodrick [o irmão mais velho de Greg] passam o tempo a discutir por causa de um roupão. O que aconteceu ao roupão?

JK – Às vezes, tenho de inventar algo para um livro, que fica limitado a esse livro, como é o caso do roupão. Nem sempre sou consistente. Talvez faça reaparecer esse roupão. Vou trazer algumas coisas dos livros anteriores para o “Diário do Rowley”. Existe no livro dois, “O Rodrick é Terrível”, uma personagem, de nome Leland, que gostaria de trazer de volta, talvez para o livro 16 ou 17.

Jeff Kinney foto

DM – Porque é que no livro “Tudo ou Nada” o Greg aposta em ser cineasta para ser famoso e não noutra coisa, como por exemplo ser escritor? Afinal, ele já tinha tentado promover a sua banda desenhada num outro livro…

JK – Não tenho a certeza de que o “Tudo ou Nada” tenha sido o meu melhor livro… Eu estava a tentar explorar a ideia do miúdo que está à procura da coisa que o torna especial ou de um talento especial. O Greg decide, então, ser cineasta. Eu fiz filmes em criança e senti que isso me diferenciou dos outros. Por isso é que eu escolhi que fosse cineasta e não cartoonista.

DM – No “Põe-te a Milhas” como lhe surgiu a ideia de um cobertor de pizza? Vai registar a patente e tentar vendê-la no futuro?

JK – Penso que isso não será uma boa ideia. Estava a tentar encontrar os produtos mais ridículos possíveis, e esse foi um deles. É engraçado que te tenhas lembrado disso, porque já não me lembrava disso. Depois de escrever um livro, esqueço-me do que aconteceu no livro.




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