Espaço do Diário do Minho

A Caridade do Arcebispo – 1
14 Nov 2019
Silva Araújo

1. Há dezoito anos publiquei o livro «O Arcebispo Santo – um modelo para hoje». Nele referia um conjunto de comportamentos exemplares vividos pelo agora S. Bartolomeu dos Mártires. Recordo hoje a sua preocupação com os pobres e os doentes.

É evidente que não inventei nem invento nada. Transcrevo apontamentos recolhidos em livros como: «Vida do Arcebispo D. Frei Bartolomeu dos Mártires», da autoria de Frei Luís de Sousa, editado em 1946 pela Empresa do «Diário do Minho»; «Portugal no Concilio de Trento», de José de Castro, particularmente os volumes III e IV; do mesmo José de Castro, «D. Frei Bartolomeu dos Mártires e outros textos sobre o Venerável», este editado em 2014.

Dito isto, vamos ao tema de hoje e das próximas duas semanas.

2. Um dos títulos que quadra bem ao novo Santo é o de Arcebispo dos Pobres. Foi um bom praticante da caridade das obras, bem mais difícil do que a das palavras, mas autenticamente evangélica.

Como Prior do Convento de Benfica, escreve Fr. Luís de Sousa, «persuadido e confiado que não podia Deus faltar a quem de verdade o servisse, conforme suas divinas promessas, não fazia diligência por adquirir renda nem acrescentar a que a casa tinha. E do que havia de portas adentro era tão liberal que lhe aconteceu de em tempo de fome, acudindo muitos pobres à portaria, mandar repartir por eles o peixe que estava guisado e prestes para o jantar da comunidade, dizendo que, em tempo de necessidade, para religiosos que professavam a pobreza, bastavam ervas e frutas. E que, se eles fossem verdadeiros filhos de S. Domingos em obras e exemplo, isto bastaria para os seculares se desentranharem por lhes acudir».

Quando arcebispo e senhor de Braga, à mesa, a primeira coisa que fazia era separar logo metade para os pobres, fazendo de conta que, quando se sentava, tinha Cristo por convidado.

3. Nas visitas que fazia ia tomando «estreita e miúda informação» das necessidades mais precisas que havia em cada lugar e os nomes dos necessitados, mandando-lhes depois roupas e outras ajudas.

Na Cidade, conta ainda Fr. Luís de Sousa, «mandou tomar a rol todo o género de pobres, assim das portas, como envergonhados e viúvas e donzelas honradas, com tanta diligência que não havia necessidade tão encoberta que andasse fora de seus memoriais.

E porque receava ficar-lhe alguma por remediar, como se fora algum grande delito, encomendava a pessoas de confiança e virtuosas que com todo o resguardo e cuidado procurassem saber se havia gente que antes quisesse padecer que manifestar-se e logo lhe dessem aviso para não lhe escapar o socorro.

Ele, por outra parte, com o mesmo segredo, se informava se viviam virtuosamente. E como achava necessidade e virtude, logo entravam no rol e conforme à qualidade e família lhe taxava a quantidade que haviam de haver de seu esmoler, de pão, carne e peixe, azeite e vinagre para cada semana. E o pão mandava dar em grão e aos de mais qualidade ajuntava quantia certa de dinheiro e alguns alqueires de pão na entrada de cada mês. E a todos se acudia com tanta pontualidade que nem no dia limitado havia falta nem na taxa alteração.

Estes eram providos todos de vestido e às mulheres mandava dar mantas para não faltarem em ir à igreja. A muitos que moravam em casas alugadas mandava pagar os alugueres».

Nas visitas pastorais, além de pregar e crismar, reunia também com os pobres, e «a uns acudia com dinheiro na mão para remediarem suas necessidades logo, a outros tomava em rol para os mandar vestir».



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