Vídeo: DR

O Dia de São Martinho lembra tradições, histórias populares e rituais que ainda hoje estão presentes.

José Rodrigues Lima
11 Nov 2019

O espaço geocultural do Alto Minho é litoral e interior; ribeira e montanha; terra e mar; marítimo e raiano; praia e monte; planalto e vale; branda e inverneira; rural e urbano; aldeia local e aldeia global; sítio e povoado; doméstico e social; privado e comunitário; realidade e símbolo; profano e sagrado; comunidade real e comunidade virtual; localismo e globalismo.

As folhas tocadas pelo vento vão caindo neste tempo outonal. A natureza saudamos com a paisagem onde os tons suaves nos levam, por vezes, à contemplação do território das zonas ribeirinhas ou da montanha. Estendemos os olhares para perto e ao largo, localizando manchas arbóreas, autênticos soutos de carvalhos e castanheiros. Estamos no período do ano para recolher as amêndoas, as nozes saborosas e as castanhas para os magustos celebrados com vinho novo ou água pé, em convívio familiar ou de boas amizades.

“Pelo São Martinho vai à adega e prova o vinho e abatoca o teu pipinho”.

E os rituais comprem-se como se fosse a primeira vez. Os castanheiros oferecem-nos os ouriços arreganhados e as castanhas vão caindo uma a uma. A garotada vai apanhado os frutos dos castanheiros, aquelas castanhas que caiem abeira dos caminhos, nos campos ou nos soutos, onde canta a passaradas ao romper da manha “despertadora”, ou pelo fim da tarde “recolhedora”.

Quentes e boas

Mas se no ambiente da ruralidade há paisagem sonora e outonal, no meio urbano há vozes anunciadoras: “Olha a boa castanha… Quentes e boas. Eh menina, oh menino… leve umas castanhinhas… Prove… São de Trás os Montes… O preço é do ano passado… Ganhamos poucochinho… São muito gostosas…”

A fumaça dos assadores estendesse pela avenida, pelo largo e entra mesmo pela esquina da rua estreita. Assim se vão saboreando as boas castanhas embrulhadas em papel de jornal com notícias passadas, ou pelas folhas da lista telefónica já ultrapassadas.

Os vendedores de castanhas aí estão com a sua tipicidade e animando a vida da gente apressada… E ouvimos: “Mãe, apetecem-me umas castanhas quentinhas.”

E faz-se o regalo: “São muito boas.” Os adultos também apreciam as castanhas pelo São Martinho acompanhadas com o vinho da colheita do ano ou a celebrizada “água-pé”, ou a jeropiga feita segundo a tradição do tempo dos avós que eram mestres na elaboração, lá em casa.

Vinho que baste

Aqui pelo Minho, e noutras zonas vinhateira do país podemos ouvir, traduzindo à sua maneira o gosto profundo ao vinho: “Não quero ricos cavalos, / nem palácios reais; / só q’ ria ter uma adega / com vinte pipas ou mais”.

O “vinho alegra o coração do homem e as mulheres não desagrada, e não faz mal nenhum”, assim se cantava cantochão.

É de citar a comunicação apresentada no “Congresso Internacional de Etnografia”, realizado em 1963, fruto da investigação de Fernando Castro Pires de Lima, intitulada “O Vinho Verde na Etnografia”.

Desejando inserir-nos na importância do vinho na economia e nas relações internacionais, merece destaque o artigo “Itinerário do primeiro vinho exportador de Portugal para a Grã-Bretanha”, narrativa do Conde d’Aurora, publicada na separata das jornada vinícolas, em 1962.

Escreve o citado autor: “o curioso livro seiscentista 1613 “The book of carning and serving and all the feastes of the year for the servisse of a Prince or other estate” – fala-nos, entre outros, dos vinhos servidos na Grã-Bretanha, do célebre “Orey”, nome que davam aos Britânicos ao vinho verde”.

Os cinco “sssss”

Consta no “Regimen Sanitatis Salernitanum”, dos séculos XI – XIII, que o vinho deve ser forte formoso fragante fresco e frutado.

Mas se os habitantes de Salermo apreciavam o vinho saudável, em Monção e Melgaço temos o “alvarinho”, que é fruto do território onde “o solo, o solo a sabedoria, o sofrimento e o sossego”, produzem o precioso néctar que “torna o mundo lindo e inspira o artista”.

É sempre de lembrar António Correia de Oliveira, o nosso poeta de Belinho, Esposende.

Assim louva o vinho: “loiro fio de azeite a urgir-lhe o caldo, / traga” de vinho a batizar-lhe o pão.”

O vinho na bíblia

O vinho é tratado na Bíblia tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento: No livro de Bem Sirá podemos ler: “O vinho é como a vida para os homens, se o beberes moderadamente. Que vida é a do homem a quem falta o vinho? Ele foi criado para a alegria dos homens. Alegria do coração e júbilo da alma é o vinho, bebido a seu tempo e moderadamente”.

Na primeira carta a Timóteo é lembrado ao discípulo de Paulo que beba vinho: “Doravante não bebas só água, mas toma um pouco de vinho”.

É de sublinhar a importância do vinho nas bodas de Caná e na “Ultima Ceia”: Jesus tomou o cálice com vinho e disse: “Este é o sangue da Nova Aliança”.

O Pe. António Vieira na segunda Dominga da Quaresma diz que: ”O vinho é aquele cordial simples, medicado pela natureza para alegrar o coração do homem”. O nosso povo diz que “com pão e vinho se anda a caminho”; “pão pela cor e vinho pelo sabor”.

Práticas cerimoniais

Nas festividades cíclicas, agrárias e sociais, vinho é por excelência o elemento sublimador da comensalidade, o poderoso referente da coesão social, assim escreve Benjamim Pereira.

Em certas povoação o namoro das raparigas só era per33missível a forasteiro, após o pagamento de determinada rodada de vinho aos presentes na taberna da aldeia, sendo lhes passados, após o ritual, um género de passaportes assinados pelos beneficiados e carimbados com o precioso liquido no fundo das malgas.

A caneca e a malga permanecem sempre prontas na adega para serem utilizadas e alimentarem comentários da boa vizinhança, por vezes “juízos sobre acontecimento das comunidades rurais” ou dos “falatórios”.

O prior António Quesado, que for pároco em Vila Franca, Viana do Castelo, apreciado cultivador da amizade e da comensalidade dizia: “vinho bom, com peso e medida, alegra a gente, faz bom ventre e limpa o dente”.

E dando largas ao seu perfil de bom conselheiro escreveu: “Quem ao copo souber pedir conselhos,/ nem tristezas nem maleitas o consolam;/ porque o vinho, lá diz o evangelho / só da alegria e saúde ao homem”.

À sombra do castanheiro 

A sombra do castanheiro 

É recortada na ponta;

Quem eu quero não me quer,

Quem me quer não me faz conta

Castanheiro sem ouriço

Que castanha pode dar?

Homem pobre sem dinheiro

Que amores pode tomar?

Da outra banda do rio

Tem meu pai um casta-
nheiro…

Dá castanhas em Agosto

Uvas brancas em Janeiro.

Estes mocinhos de agora 

São pouco não têm dinheiro;

Mandam solar os sapatos

Com folhas de castanhei-
ro.

Ó meu amor dá-me vi-
nho,

Que água não sei beber;

A água tem sanguessugas,

Tenho medo de morrer

 

Mata o teu porquinho

Na economia doméstica e na ruralidade a criação do porquinho ocupa um lugar especial.

Faz parte da paisagem minhota o denominado “cortenho do porco”. Comprado a tempo nas feiras é alimentado com hortaliça, bolota, farinha minha e lavadura. Engordado o porquinho para o São Martinho, concretiza-se a mantasse festiva e em dia a assinalável.

O matador, homem experiente nestas andanças, chega cedo, e depois de “matar o bicho” vai-se ao trabalho: sacrificar o animal.

E segue-se todo o ritual trabalhoso e demorado. Vem o “desmanchar”… Saboreia-se o sarrabulho, os rojões, não faltando os pelouros, tudo cozinhado por quem sabe da tradição e do bom gosto.

Faz-se o fumeiro com as apetitosas chouriças, chouriços e preparam-se as carnes para as salgadeiras. Os bons presuntos merecem uma atenção especial, e serão curados com boa lenha e o frio. O povo ainda dizia: “criar e matar o porquinho é ter o talho em casa”. Sabemos que existe uma mudança social nos rituais apontados. Pois que haja alegria que baste com castanhas vinho e porquinho.

“Ande o sol por onde andar, o verão de São Martinho há-de chegar”.

É sempre uma satisfação recordar a lenda de “São Martinho, a capa e o pobre”.

“No dia de São Martinho mata o teu porquinho, chega-te ao lume, assa as castanhas e bebe o teu vinho”.

“Quatro castanhas assadas, / quatro pingas de aguardente / quatro beijos de uma moça, / fazem um homem contente.” Assim regista Gabriel Gonçalves no “Cancioneiro temático da Ribeira Lima”. Continuamos a alimentar o imaginário de S. Martinho em cima do cavalo, cortando a capa e oferecendo metade ao pobre. S. Martinho é padroeiro de várias paróquias, desde o S. Martinho de Cristovão, Melgaço, a S. Martinho de Vila Fria, Viana do Castelo.




Outras Reportagens


Scroll Up