Espaço do Diário do Minho

Ignorando o óbvio
11 Nov 2019
Narciso Mendes

É praticamente um dado assente que todos os partidos políticos, pelo menos os com assento parlamentar, consideram premente uma luta sem tréguas contra a corrupção. E apesar de quase não apontarem estratégias nem reformas de fundo para tal, como no caso da Justiça, as nossas forças partidárias vão usando, apenas, tal capítulo mais para preenchimento dos seus programas eleitorais do que para o dito combate. Portando-se como uma espécie de guardiões dos seus rendimentos, não se lhes vá acabar o quinhão que recebem do estado para a sua sobrevivência.

É, pois, com a finalidade de adormecerem o povo que todos eles vão fazendo coro na “cantilena” da erradicação dos corruptos, no país, prometendo – sempre que um político é acusado de tal prática – o habitual: “à justiça o que é da justiça e à política o que é da política”, embora sabendo, de antemão, que o Zé “pagante” já lhe custa a acreditar que assim é. Pois, tais prevaricadores sabem bem que podem contar com os melhores advogados, do país, para desmontarem os seus casos, pelo que a maioria dos portugueses (sobretudo os da abstenção) já não ignora que esses profissionais do crime financeiro são capazes, como máfias, de corromperem a própria magistratura judicial.

Ora, pelo que me tem sido dado observar a classe política – quase surda e muda em relação aos sinais concretos que vão surgindo sobre a corrupção – vai “ignorando o óbvio”. Apenas uma figura tem levantado a sua voz, com toda a coragem e frontalidade, dizendo que deveria ser investigado tudo aquilo que o “mirone” informático, Rui Pinto, sabe sobre as fraudes, evasões fiscais e desvios de dinheiro para os Offshores, Ilhas Virgens e Seichelles de tais mariolas. Coisa que o Ministério Público (MP) entende não dever fazer, a fim de não incomodar certas personalidades. Trata-se da socialista Ana Gomes a qual, sem papas na língua mas não tendo quem a acompanhe, vai insistindo na utilidade das provas do delator.

Facto deveras escandaloso tem sido o dos partidos políticos, especialmente daqueles que tanto apregoam a irradicação da corrupção no país, ao não aconselharem o MP a que deite mão àquilo que poderia ser a chave para o deslinde da engrenagem dos esquemas montados pelos agentes da ação criminosa. Anuindo a que seja mantido em prisão preventiva o franzino hacker, cada vez com mais acusações (147) de entre as quais se destaca a da “tentativa de extorsão” à entidade Doyen a qual, a meu ver, também terá telhados de vidro. E de o trazerem sempre algemado, entre dois possantes guardas, o que é ridículo. Daí, ficarmos com a ideia de que nada daquilo que o jovem diz ter em mira importa. Embora a referida eurodeputada defenda proteção a quem denuncie casos que envolvam esses autênticos profissionais da “marosca à portuguesa”.

Depois, a não ser um ou outro, mais nenhum partido parece estar interessado na reforma da Justiça. Nem este Governo, que a não incluiu no seu programa nem, tão pouco, nomeou outro elemento para o chefiar a pasta desse ministério mantendo a atual Ministra da Justiça. Isto, apesar de continuarmos com os tribunais lentos, estagnados e com a eternidade como sistema de os acusados irem, ou não, a julgamento. Então no que diz respeito a casos de hipotética corrupção, como no caso Marquês, de um Ex-Primeiro-ministro socialista, há 1825 dias em espera, é caso para se dizer: “tudo como dantes”.

Também aqui, na Justiça, de que adiantaria a pesquisa sobre a corrupção ou outros crimes graves contra o estado português, como os de Abuso de Poder, fuga e Branqueamento de Capitais, Participação Económicaem Negócio, Peculato, etc., se esta se mantém impreparada para agir a tempo e horas? E mesmo que a “geringonçada”, do PS, assim o pense prefere ignorar o óbvio, ou seja, nada aflorando devido ao complexo instalado de que um qualquer “beliscão” à Governante logo seria transposto para as esferas do populismo, racismo, xenofobia ou de afronta às minorias étnicas.



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