Fotografia: Nuno Cerqueira

«Aqui não há misericórdia, ou somos nós ou são eles»

Adriana Barbosa é a única mulher do distrito de Braga em missão na República Centro Africana.

Nuno Cerqueira
11 Nov 2019

Ainda há poucos anos Adriana Barbosa trabalhava pelas confeções do vale do Cávado, nomeadamente por fábricas entre Barcelos e Esposende. Chegou, inclusive, a trabalhar numa caixa de supermercado mas decidiu arriscar, devido à crise no emprego, uma aventura que a levou a um dos locais mais perigosos do mundo.

Natural de Gemeses, freguesia do concelho de Esposende, Adriana Barbosa é uma das três mulheres da região do Minho – as outras duas são do distrito de Viana do Castelo – e a única do distrito de Braga a cumprir missão na República Centro Africana.

«Sinceramente, há uns anos não me imaginava aqui», diz à reportagem do Diário do Minho, revelando que a carreira militar foi «fruto da falta de emprego» e oportunidades para os jovens no concelho Esposende.

«Devido à crise a nível de emprego decidi, basicamente, arriscar e acabei por me alistar no exército», diz, não mostrando qualquer arrependimento. A vida de Adriana Barbosa mudou.

«Sou agora socorrista no Exército e tenho o curso de condutor e chefe de viaturas Pandur. Essa é a minha missão aqui na República Centro Africana», aponta Adriana, que antes de chegar a um dos mais perigosos cenários de guerrilha no Mundo, esteve no ano passado na Roménia.

Esta jovem de 28 anos de idade, faz 29 a 12 de novembro, quando está no quartel tem base no regimento de Infantaria N.º 13 de Vila Real.

Aquando da reportagem do Diário do Minho, a missão portuguesa sofreu mais um ataque, algo que Adriana diz ser «muito comum».

«Estamos preparados para estas eventualidades», frisa, dando conta da mistura de emoções quando pisou solo africano.

«Foram tantas as sensações diferentes. Senti logo aquela emoção de aperto no coração de estar longe da família. Olhar à minha volta e ver o fim do mundo, cheio de tristeza e pobreza. E claro, também pensei onde me vim meter», diz entre sorrisos, acrescentando ainda que a República Centro Africana tem outros perigos para além dos ataques de milícias constantes.

«Enfrentamos dificuldades como o clima. Aqui também há o problema das doenças, pois é um local onde falta tudo e que está completamente devastado pelo conflito», acrescentou ao Diário do Minho.

Por tal, os dias da missão portuguesa nesta zona do continente africano são preparados ao detalhe.

«Sim, aqui tentamos estar bem fisicamente e psicologicamente para tudo o que pode vir a acontecer. Fazemos atividades de lazer, convívios e até temos um ginásio e um bar. Fora da missão tentamos conversar e descansar entre as poucas horas que temos livres», explica.

No entanto o sorriso rasgado de Adriana é cortado pela frieza quando o Diário do Minho pergunta se já se imaginou a disparar a arma.

«Aqui ou somos nós ou são eles. Do outro lado não há misericórdia. Já me imaginei a disparar, mas imagino mais o após isso acontecer, aqui temos que olhar pelos nossos e não pensar no que está na ponta do cano», dá conta a jovem Adriana, que quando andava por terras da foz do Cávado, era atleta, no concelho vizinho da Póvoa de Varzim, do Póvoa Futsal.

[Notícia completa na edição impressa do Diário do Minho]





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