Espaço do Diário do Minho

O advento da sociedade de consumo
9 Nov 2019
Fernando Viana

Do ponto de vista do consumo e da informação, o mundo em que atualmente vivemos tem poucas semelhanças com aquele que existia há cerca de um século e, se recuarmos mais no tempo, as diferenças vão-se acentuando, mas não de uma forma diretamente proporcional. O homem nunca consumiu tanto e, simultaneamente, nunca teve tanta informação como hoje. Por outro lado, a quantidade de bens e serviços à sua disposição é incomensuravelmente maior e o mesmo se pode dizer da informação.

Vivemos hoje aquilo que se banalizou designar por sociedade de consumo, com uma enorme profusão de bens e serviços, de tal forma que podemos afirmar, sem medo de errar, que o ser humano também nunca teve à sua disposição tantos bens e serviços como os que tem hoje.

A Revolução Industrial terá constituído a rampa de lançamento desta sociedade que se foi estabelecendo de forma tímida em diversos países da Europa e nos EUA no século XVIII e que, paulatinamente, com o vertiginoso desenvolvimento tecnológico, a partir de determinado momento, teremos deixado de consumir unicamente para satisfazer necessidades essenciais, para nos transformarmos em “objetos de consumo”, porventura em múltiplas perspetivas: a de que cada vez vivemos mais, o que só por si origina mais consumo, mas também por que cada vez mais, vivemos para consumir e, por outro ainda, todo o nosso comportamento é estudado pelos agentes económicos presentes no mercado para induzir novas necessidades e, consequentemente, mais consumo.

Finalmente, existem cada vez mais empresas presentes no mercado (melhor será dizer mercados, porquanto existem diversas tipologias de mercados) a oferecer bens e serviços, que recorrendo a sofisticadas técnicas de marketing e publicidade induzem nos consumidores novas necessidades (resta saber se reais ou artificiais) e, consequentemente, também levam ao aumento do consumo.

Na verdade, a atividade económica foi-se perspetivando na oferta de um cada vez maior número de bens. Muitas vezes, por força da normalização legal e da convergência tecnológica, as diferenças entre os mesmos bens produzidos por empresas diferentes são mínimas, embora o preço possa ser muito diferente e não raras vezes, se crie no consumidor, graças ao marketing, por um lado, e às séries curtas por outro, a ideia de um bem completamente personalizado e adaptado à sua individualidade.

Aliás, esta é uma possibilidade a que cada vez mais fabricantes recorrem. Veja-se, por exemplo, os fabricantes de automóveis que oferecem carros em que aparentemente tudo é escolhido pelo consumidor, desde a cor exterior, o tipo de motor, o material e a cor dos estofos ou os gadjets eletrónicos incorporados, e assim permitem criar no consumidor a ideia de plena identificação com o produto, quase como se ele fosse uma criação sua.

Mas se este exemplo já é corriqueiro, repare-se nas marcas de refrigerantes ou de iogurtes que permitem que o consumidor insira o seu nome na lata ou no boião. Desta forma, quando um João ou uma Maria quaisquer, forem consumir o produto, não se trata de um simples e anónimo ato de consumo. Eles estão a consumir o “seu” refrigerante ou iogurte, fabricado “especialmente” para si.

Na medida em que o ato de consumir é cada vez mais associado à satisfação de um prazer e não de uma necessidade, os produtores procuram trabalhar muito bem este conceito, através do marketing e da publicidade, levando o consumidor a consumir para sentir prazer ou sentir-se recompensado. Da próxima vez que consumir algo, pense nisto.



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