Espaço do Diário do Minho

Na canonização de São Bartolomeu dos Mártires: alguns desafios pastorais
9 Nov 2019
Carlos Nuno Vaz

Hoje à noite, em Viana, onde morou nos últimos anos de vida, depois de ter resignado como arcebispo de Braga, e onde morreu e está sepultado, realiza-se uma vigília preparatória da celebração eucarística de amanhã, na Sé de Braga, às 15,30h, em que será lido o Decreto de Canonização pelo Cardeal Becciu, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, que torna oficial para toda a Igreja a inscrição de Frei Bartolomeu dos Mártires como Santo da Igreja Católica.

Das muitas facetas da vida deste Santo, queria relevar algumas que ainda hoje nos desafiam e interpelam a uma verdadeira e sincera conversão humana e pastoral.

Como o exemplo deve vir de cima e é ele que mais atrai e até arrasta, realçaria o empenho do Santo na oração e na dignidade da liturgia, pois, afirma repetidas vezes: «De estudo sem devoção e de pregação sem preceder oração, pouco proveito se pode esperar». (Cf. Frei Raúl Almeida Rolo – D. Frei Bartolomeu dos Mártires – O ‘Arcebispo Santo’, 2015, p. 15). A este propósito, convém relembrar o que o Dr. Franquelim Neiva Soares reproduziu há poucos dias (26 de Outubro) em artigo do «Diário do Minho» a propósito do incentivo que ele deu à liturgia e, no caso concreto, à música e à utilização da Palavra de Deus nas celebrações: sobetudo na eucaristia e Liturgia das Horas.

Passados mais de 400 anos, algumas das suas orientações/recomendações continuam de extrema actualidade e a desafiar-nos a todos para as cumprirmos. Às dignidades, cónegos e outros incita a que «rezem e cantem alto e em voz igual, distinta, clara, concorde, com pausa e silêncio». Mais: devem cantar as horas «com coma ou flexão, se a tiver o verso, e a pausa no meio do verso (deve ser) larga, recebendo folgo nela, (isto é, respirando fundo nela), pronunciando claramente todas as dicções e sílabas».

Continua a ser triste verificar que a generalidade das pessoas e muitos sacerdotes e bispos têm muita dificuldade em respirar bem, em tomar bom fôlego que permita intensidade e diferenciação na dicção. Não podemos contentar-nos com a respiração espontânea, rápida e superficial. Por isso, a tendência a comer os tempos de pausa e silêncio se torna um triste hábito.

Daí que, por exemplo, no Credo, não se note nenhuma distinção entre a proclamação das verdades de fé referentes a Deus Pai, as referentes a Jesus Cristo, as que têm a ver com o Espírito Santo, as que dizem respeito à Igreja, ao Baptismo para remissão dos pecados, à esperança na ressurreição dos mortos e na ressurreição dos mortos. Em vez de ser interiorizado e saboreado, o Credo é ‘despachado’ sem que quase nada dele se fixe com deleite e aprofundamento espiritual.

A maneira como se reza o Pai Nosso, sem distinguir bem cada uma das afirmações traduzidas em frases, sem respirar profundamente, fazendo pausa, antes do início de cada uma delas, faz com que a esta oração por excelência, da qual, como afirmou Santo Agostinho: – podemos pedir com outras palavras, mas nunca pediremos coisas diferentes nem agradeceremos graças diferentes das que são expressas na Pai Nosso – falte a unção que uma recitação pausada, propicia.

Quem a ouvir nas nossas igrejas dificilmente fica edificado e maravilhado. Muito menos se sentirá atraído por uma tal recitação. Quando cantado, já se pode aproximar mais do que deve ser. E aqui diríamos que a maneira de cantar, com as suas exigências de respiração, ora rápida, ora profunda, devia ser a inspiração para a maneira de rezar.

Diz mais São Bartolomeu: é preciso saber ler bem e cantar bem, ter honestas vozes e pessoas, preferir os melhor preparados, porque é um escândalo ouvir alguns coreiros – poderíamos dizer também, alguns cantores e leitores – lerem com erros e acentuarem mal, por não terem voz apropriada. Mais uma razão para escolher os melhores, para que a dignidade do culto não sofra com os atropelos de vária ordem. Já é mais que tempo de fazer pelo menos tanta formação para leitores como a que é feita para os Ministros Extraordinários da Comunhão.

Não teremos, certamente, tanta capacidade de o imitar nas renúncias ao descanso durante a noite, à alimentação sumamente frugal – sujeitando-nos a severos jejuns, por exemplo –, e mortificações corporais, mas podemos tentar imitá-lo ao menos na oração, no estudo aturado da Palavra de Deus, no incansável zelo apostólico – visitou a vasta arquidiocese várias vezes –, no amor entranhado aos pobres e na luta pela dignidade de tudo quanto contribui para maior glória e honra de Deus.

A melhor veneração dos santos é cumprir na vida o que eles nos propuseram com os seus ensinamentos e sobretudo o que testemunharam com a própria vida.



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