Espaço do Diário do Minho

Muro de Berlim, Euro e Brexit
9 Nov 2019
Carlos Vilas Boas

Em Agosto de 1988 acompanhei arquitetos portugueses a Berlim ao encontro mundial de arquitetura que então se realizou na parte oeste da cidade. Com partida e chegada um mês depois a Braga, pude visitar de carro uma boa parte da Europa, incluindo a Eslovénia que ainda fazia parte da Jugoslávia, em inícios de desmembramento, já sem a forma aglutinadora do Marechal Tito e por força das ondas de choque causadas pela perestroika e a glasnost de Mikhail Gorbachev.

Recordo-me da travessia por mais de 500 kms numa autoestrada decrépita pelo território da Alemanha de Leste, percorrida pelos Trabant. Em Berlim o meu dormitório ficava a centenas de metros do muro que dividia a cidade. Subi o muro por uma escada e, no alto, espreitei para divisar de leste um guarda que, ao ver-me, apontou-me uma espingarda, fazendo-me descer a toda a velocidade.

No dia 9 de novembro de 2019 faz 30 anos que o muro de Berlin caiu. A frase do então Presidente americano Ronald Reagan, dirigindo-se ao secretário-geral soviético no Portão de Brandemburgo. “Sr. Gorbachev, derrube este muro!”, acrescendo à famosa expressão de J F Kennedy duas décadas antes, “Eu sou um berlinense!” caíram fundo em Gorbatchev, que em viagem no mês anterior impôs aos líderes da Alemanha Oriental uma abertura do regime.

As Revoluções de 1989 e dos anos seguintes ditam o fim do domínio soviético nos países que compunham o Pacto de Varsóvia e da própria União Soviética.

À queda do muro segue-se a unificação das Alemanha. Em 1991/1992 estabelecem-se os critérios de convergência pelo Tratado de Maastricht, como parte das preparações para a introdução do Euro.

Muitas vezes dei por mim a pensar se teria havido euro sem a queda do muro de Berlin, que permitiu a reunificação da Alemanha. Facto é que, embora a ideia da criação de uma moeda europeia única tenha surgido na década de 1970, só avançou após a unificação. Os custos da reunificação eram elevados, pois a Alemanha Ocidental teve que suportar os gastos com a recuperação económica dos Estados orientais, que viviam numa situação industrial com décadas e décadas de atraso. E parece assente que a Alemanha foi o país mais beneficiado com a moeda única.

Certo é que a nova Alemanha tornou-se um gigante económico, o motor do crescimento económico europeu. A queda do muro e o desmembramento do império soviético fez recrudescer a esperança dos europeus na construção de uma Europa forte e unida, um espaço europeu livre e com uma moeda única.

Nalguns espíritos a reunificação da Alemanha gerou sentimentos opostos. Na realidade ainda não tinham passado cinquenta anos desde a II grande guerra mundial, gerada na Alemanha pelo mal Hitleriano, pelo que era normal que os britânicos, primeiros adversários do eixo italo-germânico, receassem pela recuperação da grandeza alemã.

Aos britânicos, de quem se diz que sempre estiveram com um pé dentro e com um pé fora da UE, nunca agradou o predomínio germânico no pós reunificação. Não obstante a defesa da permanência do primeiro-ministro inglês David Cameron, alegando ter obtido um acordo satisfatório que permitia a não participação britânica em certas políticas e objetivos da EU, permitindo ainda que limitassem os benefícios concedidos aos imigrantes, os britânicos decidiram por curta margem pela saída da EU.

Hoje percebe-se que os líderes britânicos não sabem o que fazer com o Brexit. A câmara dos comuns vota contra os acordos, contra a saída sem acordo, contra a permanência, contra um novo referendo. Fazem-se piadas quanto à data do Brexit. No “expresso da meia-noite” ouvi uma jornalista comentar que uma das regiões do Reino Unido que mais subsídios recebia da UE votou a favor da saída. Foi lá e deixou os comerciantes locais incrédulos quando lhes deu a perceber as consequências do Brexit. Desconheciam que os subsídios a fundo perdido que recebiam vinham da União Europeia, que os produtos importados da EU que vendiam passariam a pagar taxas e impostos.

Como a Europa seria diferente sem a queda do muro de Berlim!



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