Espaço do Diário do Minho

Quem anda a tramar a história?
28 Out 2019
Narciso Mendes

Parafraseando um conhecido historiador do século passado, direi que “para podermos interpretar a História de Portugal, com algum rigor, há que harmonizar as políticas do país ao longo do tempo, as governações, decisões e contradições, resolvendo certos enigmas e transpondo alguns abismos psicológicos, tomando por base de entendimento os acontecimentos á luz de cada época”.

Ora, de há tempos para cá, a nossa História tem sido devotada a algum desprezo. O que para um país integrado nesta Europa Comunitária – que pretende os seus membros alinhados, por si, mas com cada um deles a manter a sua identidade própria e as suas raízes – é bastante dececionante. Sobretudo, para quem respeita a Pátria portuguesa, os seus antepassados, os valores por eles transmitidos e todo o património que nos legaram. E o que se tem visto? Uma onda de detratores que a encaram como um manual de más práticas, fascizante e patrioteiro, engendrado em sistemas ideológicos arcaicos dignos de – se acaso pudessem – lhe serem apagados os conteúdos incómodos.

São, pois, os obreiros de tal fenómeno – do tipo “vespas asiáticas”, da China ou da Coreia do Norte – a alastrar cada vez mais pelo país, desde Revolução de 1974, que pretendem envenenar partes do historial da nação. Para isso, paliaram documentos, imagens e até obras de arte – de inegável valor histórico para o que, de forma sub-reptícia e velhaca, interditaram a sua consulta desde então. Talvez por serem comprometedores para algumas figuras e figurões, apoiantes do antigo regime, que se tronaram políticos do atual. E, também, por não estarem em consonância com a ideologia dominante na democracia portuguesa, deixando certos factos históricos por explicar, omitidos que foram à nossa memória coletiva.

Aliás, trata-se de gente interessada em abolir a disciplina de História nas escolas, já quase sujeita a um ensino residual e a quem Camões – se vivo fosse – chamaria, hoje, de “perros” por terem, praticamente, varrido com a obra Camoniana, “Os Lusíadas”, do estudo escolar. E de quem apenas resta o feriado de 10 de Junho e o polémico “Prémio” para recordar tão prestimoso e nobre poeta, narrador de feitos históricos, o qual enalteceu a Pátria acima de tudo. Ou como alguém, um dia, o considerou: “Poeta vero e grande entre os grandes de todos os tempos, génio nobre e indomável, florindo em obras de graciosa perfeição, de suma e luminosa beleza, esse é que permanece indisputado, sempre jovem na excelsa ascendência da sua vocação”.

Todo este alheamento, devotado à nossa História, anda a provocar inquietação nos meios mais atentos à sua compilação, preservação e estudo. Os quais vêm afirmando que a lei da Autonomia e Flexibilidade Curricular poderá levar a uma perda de peso na educação. Produzindo, assim, consequências nefastas na formação académica e de cidadania dos nossos jovens em termos de valores, identidade e memória, como “feedback”, para lançarem as bases do espírito crítico e de futuro como homens e mulheres de amanhã. Pelo que, continuando alheios aos conselhos da Conferência Permanente de Ministros Europeus de Educação – a qual considera o ensino de História de capital importância para a educação das nossas crianças, tornando-os cidadãos cultos e livres – só teremos, nesse capítulo, doutores ignorantes.

Afinal, quem anda a tramar a História de Portugal? Só podem ser aqueles que a tentam reduzir a um patriotismo bacoco, miserável e desprezível do passado. Capazes de a levarem por trilhos inadmissíveis, ofuscando as páginas que não se encaixam na ideologia afeta a certa “partidarite” nacional. Principalmente, alguns dos capítulos da 1.ª e 2.ª Repúblicas, e das Dinastias dos nossos monarcas. Cujo último sucumbiu às mãos de quem tanto se vangloriara pela abolição da pena de morte em Portugal porém, posteriormente, elevados a republicanos valentes. Dignos de romagens aos cemitérios e loas tecidas junto aos seus túmulos. Do restante, faz-se letra morta.



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