Espaço do Diário do Minho

Dez regras de vida segundo e seguindo S. Bento: a humildade III – d)
17 Out 2019
Carlos Aguiar Gomes

Onde houver pouca humildade fatalmente há-de faltar a caridade” ( Benedikt Baur)

O autor da frase com que abro este quarto artigo dedicado à humildade seguindo a Regra de S. Bento, é de um célebre monge beneditino, Abade da Abadia de Beuron, na Alemanha, que viveu entre 1877 e 1963, Dom Benedikt Baur. A citada frase resume de forma lapidar a importância da humildade não somente no quotidiano de um mosteiro, mas igualmente na vida da família e de outras comunidades humanas.

Se a falta de humildade é soberba e arrogância arrastará com esta falha a falta de caridade, de amor. E sem amor, qual a comunidade humana que pode viver em paz e tranquilidade interior? Dando-se conta do quanto é fundamental a humildade para a vida de um mosteiro, é que S. Bento lhe dedica um longo capítulo na Regra que deixou para orientar a vida dos mosteiros ( e, por extensão, da vida das famílias).

Mas voltando aos doze degraus da humildade, referidos no capítulo VII da Regra do Santo patriarca, S. Bento. Em artigos anteriores, de forma sucinta e simples, procurei analisar os nove primeiros degraus dos doze elencados por S. Bento.

S. Bento, não por acaso, aponta-nos a escada, com os seus degraus, para chegar ao cume da perfeição na humildade. Não se trata de graus da humildade, mas de degraus, igualmente importantes mas interligados, de uma escada que ele nos convida a subir, degrau a degrau.

Os três últimos degraus são significativos quanto ao comportamento dos monges (e nosso). Assim, o décimo degrau convida a não se ser leviano, “sempre fácil e pronto para o riso”. S. Bento não nos diz que os monges não deverão rir! Sugere que se saiba “sentir” a oportunidade de o fazer! Bem diz o ditado popular, tão conhecido e repetido: “muito riso, pouco siso!” A alegria interior não se mede pela intensidade e frequência do riso. Se rir faz bem à saúde, estar-se sempre a rir pode ser sinal de… pouco juízo, de leviandade e pouca seriedade na nossa vida.

O penúltimo degrau a subir na escada da humildade, recomenda um princípio de correcção e respeito para com os outros: “…o monge, quando tiver de falar, dizer as coisas com delicadeza (…) com palavras breves e ajuizadas sem levantar muito a voz…”. Não se aplica esta indicação, também, à vida nas famílias, nas escolas, hospitais e noutras comunidades humanas? Já todos reparamos que quando se assiste a uma discussão, quem mais grita menos razão tem? Que esta atitude é dos fracos que querem impor a razão à força sem a força da razão que dispensa os berros.

O último degrau da escada da humildade que S. Bento aconselha a subir, o décimo segundo, e “consiste em o monge não só possuir esta virtude no coração, mas ainda em a mostrar, pelo seu porte exterior, aos olhos de quem o vê…”. Com a sagacidade que S. Bento possuía, ele recomenda e supõe que a humildade começa e se enraíza no coração de cada monge, de cada um de nós. Mas… não a devemos esconder, não para ser exibida com vaidade, mas para poder exercer a função de côngio na verdade que brota do coração, morada primeira da humildade. Não seria de aplicar esta indicação no seio das nossas famílias e das comunidades por onde passamos?

Ora, uma vez subidos todos os degraus da humildade, depressa atingirá o monge aquele amor de Deus que sendo perfeito, expulsa o temor. É graças a este amor, o que antes observava não sem um sentimento de terror, começará a guardá-lo sem dificuldade alguma, como que naturalmente e por hábito…”.

Tinha razão Dom Benedikt Baur quando escreveu que onde falta a humildade falta a caridade e sem caridade as nossas comunidades, quaisquer que sejam, tornam-se em verdadeiros infernos.

Que sabedoria a deste Santo Patriarca! Como a sua Regra continua actual e não só para os monges. Cada um de nós, leigo ou não, só tirará proveito de conhecer bem a Regra do Santo Patriarca, que não perdeu o vigor e a frescura, mesmo passados cerca de 1500 anos de ter sido escrita!



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