Espaço do Diário do Minho

Manuela Silva, por uma “economia de comunhão”

13 Out 2019
Eduardo Jorge Madureira Lopes

Uma das características de Manuela Silva, que morreu na segunda-feira, foi ter-se empenhado sempre numa tarefa aparentemente simples, mas de facto extraordinária: colocar a economia ao serviço do bem comum, prestando uma peculiar atenção aos mais pobres. A “economia de comunhão”, propugnada por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, colheu a simpatia da economista.

“Falar de ‘cultura do dar’ ou de ‘economia de comunhão’, num ambiente cultural e sócio-político, caracterizado pelo primado do ter, da concorrência agressiva e da obsessão do lucro, é, seguramente, erguer uma voz profética, com todo o peso do incómodo a que, por via de regra, a profecia está associada”, afirmou Manuela Silva (Pelos caminhos da fé. À esquina do terceiro milénio)*. Sucintamente, disse ela, trata-se de “fazer emergir um novo paradigma de organização dos recursos materiais e humanos, que assente na realização do ser humano como pessoa livre, criativa e responsável e respeite critérios de solidariedade e de co-responsabilização face ao eco-sistema”.

Para Manuela Silva, torna-se necessário começar por reconhecer o mal-estar que existe, hoje, no mundo ocidental, em relação à economia de abundância. A situação é considerada paradoxal. Por um lado, como nunca, há uma extraordinária abundância de bens e de serviços postos ao dispor das populações, a ponto de, em certos países, se acumularem stocksdifíceis de escoar, e um espectacular avanço da ciência e da tecnologia, susceptível de satisfazer necessidades e aspirações do ser humano. Por outro lado, o “sucesso económico” apresenta sombras e perplexidades.

Algumas “disfunções” são recordadas pela economista: “O desemprego massivo de carácter estrutural, que afecta largos sectores da população dos próprios países da prosperidade; a precariedade do vínculo laboral, desumanizante e desqualificadora do trabalho humano, que impende sobre uma grande parte da população activa, sobretudo as gerações mais jovens impedidas de poderem fazer a sua inserção de pleno direito nas sociedades a que pertencem; a desigualdade gritante na repartição do rendimento e das oportunidades de acesso aos frutos do desenvolvimento, dando lugar a fenómenos de dualismo, com pesadas consequências para a desejada coesão social; a marginalização e a exclusão social de grupos humanos em situação particularmente vulnerável, origem de múltiplos e graves problemas sociais e, no limite, ameaça e risco para a segurança e a paz social de todos”.

Manuela Silva acrescenta que a tudo isto, e ao que disto decorre, se somam as repercussões do modelo económico vigente nos países economicamente menos desenvolvidos. As que destaca são “o fosso crescente entre as economias do centro e da periferia, sendo que estas últimas compreendem mais de 2/3 da população do globo; a acentuada desregulação dos equilíbrios ecológicos e a ameaça séria que pesa sobre a sobrevivência do próprio planeta; a ilicitude em que vem assentando o comércio mundial, que leva à progressiva deterioração dos termos de troca, sempre em desfavor das economias mais débeis e, inclusivamente, provoca a desestruturação das respectivas economias, em detrimento das possibilidades de sobrevivência das suas populações mais carenciadas; o florescimento das indústrias da guerra, do tráfico de drogas e de outras actividades ilícitas e desumanizantes”.

Afirma Manuela Silva que, “quando se ousa olhar, com limpidez e sem preconceitos, a realidade da economia mundial, tal como esta hoje se apresenta, vem à mente a expressão ousada de Viviane Forrester: o modelo económico vigente apresenta-se não como um sucesso económico mas como um ‘horror económico’, tal é o cortejo das vítimas que o acompanha”. E julgar que o modelo vigente se reformará a si próprio e que se trata apenas de uma questão de “tempo para ajustamento” ou “melhor regulação” é uma ilusão, garante a economista, que deplora que esse modelo tenha conseguido impôr a sua “racionalidade” como única. “Fê-lo à custa do silenciamento das variáveis que definem o bem-estar humano, a solidariedade, o equilíbrio ecológico e a paz social, como se a economia fosse dotada de autonomia e justificação em si mesma e não devesse estar ao serviço daqueles bens superiores”.

Manuela Silva sublinha a existência de uma relação entre economia e ética, que evita que a economia se coloque em posição de “definir as suas finalidades no sistema fechado dos seus próprios critérios”. É por isso que o projecto de “economia de comunhão” pode vir a ter “um efeito ampliado num modelo económico, de raiz humanista e solidária, para o século XXI”. A “economia de comunhão”, constata, nasce da “visão despreconceituosa em relação à economia” de uma mulher, Chiara Lubich. A fundadora do Movimento dos Focolares “tem o grande mérito de ter ousado romper a espessa cortina do determinismo económico, sempre favorável ao statu quo, isto é, à posição do mais forte”. A economista evoca o momento em que, diante de uma imensa multidão de marginalizados e excluídos (“figurados na coroa dos favelados em tomo da próspera cidade de São Paulo”), Chiara Lubich “ousa afirmar que não pode deixar de existir um outro modo de organizar a economia”. A ocasião, defende Manuela Silva, é propícia para o afirmar. A hora, aliás, já tarda.

* Multinova: Lisboa, 1999



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