Espaço do Diário do Minho

A crise da memória, hoje
10 Out 2019
Carlos Aguiar Gomes

Para ser moderno, há quem acredite que é necessário separar- se das raízes. E essa é a ruína, porque as raízes, a tradição, são a garantia do futuro. Não é um museu, é a verdadeira tradição, e as raízes são a tradição que levam a seiva para fazer crescer a árvore, florescer, frutificar. Nunca se separar das raízes para ser moderno! Isso é um suicídio”. (Papa Francisco aos Agostinhos Descalços, 12.IX.2019)

As nossas raízes pessoais, familiares ou sociais, a nossa memória, o que nos ata e liga ao passado, neste presente transitório e que nos dirige para o futuro, são absolutamente indispensáveis. Uma pessoa, família ou sociedade que perca a sua memória está condenada à ruína. Desaparece.

As raízes não são âncoras que nos prendem a outras épocas e nos impedem de encarnar no mundo actual para fazer nascer algo novo. Pelo contrário, são um ponto de enraizamento, que nos permite desenvolver-nos e responder aos novos desafios.” (Papa Francisco, in Christus vivit, n.º 200)

A nossa sociedade, começando por cada um de nós, anda à deriva e anda à deriva porque perdeu a sua memória. Todos nós já fomos confrontados com crianças e jovens que desconhecem tudo sobre a sua família, a família do Pai e a da Mãe. Até o nome dos Avós, muitos desconhecem. Também passa despercebida e ignorada a História da nossa terra e país. Por isso, entramos numa sociedade falida de valores, dos valores que “construíram” a nossa família e a nossa Pátria. O mesmo se passa com a Religião, onde também impera uma ignorância crassa e até os fundamentos mais alicerçantes da nossa Fé.

Por exemplo, quantos jovens e jovens adultos que chegam à Basílica de S. Bento da Porta Aberta desconhecem quem foi S. Bento? Que vida teve? Que legado (fabuloso) nos deixou? Que influência tiveram os seus filhos espirituais na construção do nosso país, da Europa e do mundo? Sabe-se que antes de Portugal existir, já cá estavam os “filhos espirituais de S. Bento”? Onde estão os monumentos que nos deixaram? Que “alma” têm estes edifícios?

…E neste mês de Outubro, dedicado às MISSÕES, que valores temos transmitido aos nossos filhos, amigos ou vizinhos, sobre o valor e testemunho de tantos milhares de homens e mulheres que ao longo dos séculos levaram Cristo e o Seu Evangelho, a promoção e o desenvolvimento humanos a tantas latitudes ? Quantos de nós tem tido esta preocupação ?

Quantos de nós já pensaram um pouquinho nas enormes dificuldades que passam os missionários em terras distantes e diferentes?

E sem esta memória cristã missionária, como podemos pedir mais e melhor oração pelas vocações missionárias, se nada sabemos sobre o trabalho que os “levadores de Evangelho” desenvolvem por esse mundo?

Não podemos viver no Passado, mas não podemos viver sem o Passado. Sem a nossa memória familiar e social. Como referia o Papa aos monges agostinhos, “as raízes são a tradição que levam a seiva para fazer crescer a árvore, florescer, frutificar. Nunca se separar das raízes para ser moderno! Isso é um suicídio”. Que acontece às árvores a quem cortam as suas raízes?

Neste mês, vamos fazer um esforço para que cada um de nós saiba, possa e queira ser um transmissor da memória familiar, religiosa e social. Assim, contribuiremos para que a ruína familiar, religiosa e social aconteçam! Um desafio que o Papa nos lança. Um desafio contra a fortíssima crise da Esperança em que mergulhou (ou nos mergulharam?) o nosso tempo.

Sem Esperança não há Futuro e o Presente fica sem alicerces por lhe terem sonegado a memória, as raízes. As nossas raízes dão-nos força para ir em frente. Ninguém nem nenhuma comunidade humana pode viver muito tempo sem a memória, tal como a árvore a quem, um dia, alguém cortou as suas raízes. A seiva que alimenta o caule, as folhas e os frutos deixa de circular e a árvore morre. Isto é o que está a acontecer, hoje, nesta sociedade amnésica, ou melhor que os “desconstrutores” da nossa história conseguiram fazer cortando-lhe as raízes, sem nunca se fatigarem nem desistirem, face à abulia de tantos de nós.

Caro leitor, peço-lhe que medite bem e muitas vezes na frase do papa Francisco, com que encimo este artigo .



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