Espaço do Diário do Minho

Um “ magnífico” disparate
3 Out 2019
Carlos Aguiar Gomes

Chegou até há poucos anos a tradição de se tratarem barroca e bacocamente os reitores das Universidades por “Magnífico Senhor Reitor”. Não sei se houve alguns reitores magníficos. Talvez. Mas tem havido reitores que tomaram e tomam decisões magnificamente disparatadas e que, de todo, não podem ser “magníficos”.

O último exemplo é do actual reitor da Universidade de Coimbra que tomou a decisão disparatada e ditatorial de impor a proibição de ser servida carne de vaca nas cantinas da Universidade de que não é dono, mas um gestor a prazo. O argumento usado, cheio da ideologia ecologista, é de que as vacas são altamente poluidoras e a sua criação deixa uma imensa “pegada de carbono” (que vá com os seus seguidores para uma gruta comer ervas!).

Vai agora, o reitor da UC ter de proibir o leite, os iogurtes e os queijos? Se for coerente, lá terá de impor mais esta interdição em nome das « alterações climáticas».

Ouviu a academia? Plesbicitou a medida?

Esta medida é profundamente ideológica e… ditatorial.

Se fosse aluno desta vetusta Universidade, podia ter a certeza, este “magnífico” senhor, que levaria na minha pasta todos os dias um pedaço de bife, um hambúrguer, croquetes ou almôndegas. E quereria ver se algum esbirro da sua seita me iria perseguir, instaurar um processo disciplinar ou me arrancariam a carne que eu levaria.

Cavaco, numa célebre visita à ilha Graciosa, nos Açores, comentou mais ou menos assim: “aqui até as vacas riem!” Pois, agora, as vacas açorianas estarão a chorar. A sua vida só tem sentido para dar carne e leite, o leite de onde se fabricam os melhores queijos do mundo! Que pobres vacas quer o “magnífico” de Coimbra ver por este país e por este mundo! Ou será que quer a “ hinduização” das vacas?

Respeito quem não come carne de vaca ou qualquer outro alimente. Todos estamos no direito de comer o que quisermos. Não assiste a ninguém, nem mesmo aos “magníficos”, o direito de proibir o que quer que seja aos outros cidadãos. Ou será que queremos um Estado policial da nossa comida?

Sim, devemos ser comedidos no que comemos. A nossa saúde assim o exige, o que é muito diferente de nos proibirem alimentos que desde a Pré-História fazem parte da nossa dieta e são fundamentais para o nosso desenvolvimento. Não seria melhor, este “magnífico” desencadear uma campanha de educação alimentar, com as bebidas alcoólicas incluídas, perante a comunidade que transitoriamente gere? Já se lembrou este “magnífico” de proibir as bebedeiras dos seus alunos, sobretudo durante as festas dionisíacas que são as “Queimas das Fitas” que tantas vezes descambam em comas alcoólicos? Bem sei, me dirão, fora da Universidade ele não pode proibir nada (e ainda bem que este polícia alimentar não tem esse poder!), mas pode e deve desencadear campanhas sérias e permanentes contra o abuso do álcool ( não só contra o vinho!).

Para tranquilizar algumas almas mais sensíveis a este assunto, devo dizer que como carne de vaca com moderação não por razões ideológicas mas de saúde e de que sou louco por queijos de todas os cheiros, sabores ou consistência, mas infelizmente, também quanto a este petisco, tenho de ser muito moderado. Como lamento! Mas não deixarei de comer carne de vaca e queijos.

Já chega de Estado policial que nos vigia e controla todos os passos da nossa vida e agora, pelos vistos, também aparece um “magnífico” que vai controlar o que os estudantes vão comer. Eu que frequentei a Universidade durante o chamado Estado Novo, nunca vi, nas cantinas, a PIDE a vigiar o que comíamos. Salazar e os salazarentos não chegaram a tanto!

Revolta-me esta mentalidade “controleira” que já nos quer dominar o pensamento e já anda a rondar o nosso prato! Não e não!



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