Espaço do Diário do Minho

Como ler um texto literário, ou um discurso
21 Set 2019
Rosas de Assis

Cada um de nós é uma componente somática e desenvolve-se num meio: é um ser histórico produto e produtor de história.

Ligados no tempo somos um kairos, um presente, que é sempre uma dádiva do passado, especialmente hoje ,quando recordamos, no tempo e no espaço, algo que se tornou intemporal no percurso da vida, sobretudo se o resultado de muitas cambiantes, multiformes e polifacetadas.

Como em Proust a la Recherche du temps perdu, todos construímos uma teia, um arquivo do disco duro da memória com várias teras de armazenamento. Como também diz Tolentino Mendonça, não estamos na origem de nós próprios, mas somos aquilo que recebemos dos outros, somos uma herança preciosa que nos transcende. E transmiti-la consiste exatamente em integrar o ser humano na história. Esta é constituída por muitas cambiantes, aspetos e coordenadas. Alexandre Herculano diz mesmo que é um erro vulgar confundir o desejo com o querer. O desejo, diz ele, mede os obstáculos; a vontade vence-os.

A literatura regista os factos em vozes e discursos polifónicos articulados e ordenados, segundo o tempo, em situações tónicas e átonas de narrativas e diegeses que distendem ou condensam, pulverizam ou aumentam a idealidade com pontos de vista e voz através da instância narrativa ou poética.

Escrever é como trabalhar num laboratório em que vários mundos simultaneamente levitam, levedam, transmigram, seduzem ou confundem. É uma espécie de hifologia (Roland Barthes), trabalho de aranha construindo o texto/tecido em que, como o autor, morre na sua teia. Assim entendemos porhistória/estóriao significado ou conteúdo narrativo enarrativa osignificante, enunciado ou discurso do texto, sobretudo o texto narrativo em si; e por narração o acto narrativo produtor e, por extensão, o conjunto da situação real ou fictícia na qual se toma lugar, segundo Gérard Genette.

Num texto, sobretudo poético descobrimos o tempo(Erzählte Zeit/Erzählzeit), o modo e o aspecto,ou a maneira pela qual a história é percebida pelo narrador. Pode existir uma sedução do real como pode ser traduzido num discurso cómico à maneira do Palito Métrico, de sabor académico, ou musical à maneira deCarmina Burana, em que o aspecto toma uma coloração de humor ou de cómico, num ridendo castigat mores, ouasinus asinum fricat (o asno coça outro asno) de carácter burlesco, irrisório ou satírico.

Para ultrapassar a armadilha da indiferença relativista e surdez dogmática, bem como a suspensão do juízo, Todorov propõe uma crítica dialógica. O problema da alteridade, da polifonia literária, conforme Baktine, obriga a ver o discurso, não como uma Babel interiorizada, mas uma polifonia restrita (o dialogismo), situado entre a monódia e a polifonia a concitar um encantamento e uma norma ética de um um ideal de bem-estar e da liberdade.

Heidegger dizia mesmo que a obra de arte nos atinge como uma pedrada, não significando de modo algum a confirmação apaziguadora do acordo. A experiência do texto, na sua semântica(signo) e semiótica(significação), inclui tudo o que nos religa, e no seu caráter dialógico, mostra que aquilo que se exprime na linguagem não é simplesmente a fixação de um querer dizer, mas uma tentativa em constante transformação, ou melhor, uma tentação sempre repetida de se comprometer em algo, através do diálogo interior e exterior.

Como é óbvio, em vez de validar os nossos preconceitos, a palavra põe-os em jogo, isto é , submete-os à nossa dúvida e à réplica do outro. Assim autor, narrador-leitore interlocutor tornam-se os intérpretes de uma hermenêutica em construção, com diversas cambiantes e vozes, nem sempre unânimes, mas abertas a interpretação subjetiva polivalente e polifónica inacabada.



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