Espaço do Diário do Minho

Exéquias cristãs
19 Set 2019
Silva Araújo

1. O bispo da diocese espanhola de Huesca, D. Julián Ruiz Martorell, publicou em 02 de setembro um decreto sobre as exéquias cristãs.

Nele estabelece que, a partir de 01 de outubro de 2019, em todas as paróquias, comunidades cristãs da Diocese de Huesca e nos funerais se evite:

1. Ler cartas de despedida ou escritos de agradecimento.

2. Pronunciar discursos ou alocuções laudatórias ou biográficas do defunto. Nem elogios, nem elegias.

3. Acrescentar orações ou leituras que não constem do ritual das exéquias.

4. Interpretar músicas ou cânticos que não sejam os adequados para as exéquias.

2. Como suporte da sua decisão cita o Catecismo da Igreja Católica, a Sacrosanctum Concilium, o Ritual das Exéquias.

O número 1684 do «Catecismo da Igreja Católica» diz que «as exéquias cristãs são uma celebração litúrgica da Igreja. O ministério da Igreja tem em vista, aqui, tanto exprimir a comunhão eficaz com o defunto, como fazer participar nela a comunidade reunida para o funeral e anunciar-lhe a vida eterna».

O Vaticano II, na constituição dogmática sobre a Sagrada Liturgia, «Sacrosanctum Concilium», deseja que os fiéis participem na ação litúrgica de forma consciente, ativa e frutuosa (número 11). Referindo-se concretamente às exéquias afirma que «devem exprimir melhor o caráter pascal da morte cristã» (número 81).

Transcrevo algumas passagens do ritual romano «Celebração das Exéquias», na edição portuguesa de 30 de novembro de 2005. Começa por afirmar a importância e dignidade das exéquias cristãs. Ao celebrá-las «procurem os cristãos afirmar sem reservas a esperança na vida eterna» (número 2).

«Evitando as formas de exibicionismo vão, é justo que se dê a devida honra aos corpos dos fiéis defuntos, que pelo Batismo se tornaram templo do Espírito Santo» (número 3).

«Na celebração das Exéquias, além da distinção baseada no ministério litúrgico e na Ordem Sacra, e excetuando as honras devidas às autoridades civis, segundo as leis litúrgicas, não se faça qualquer aceção de pessoas particulares ou de condições sociais, quer nas cerimónias quer no aparato exterior» (número 21).

«Depois do Evangelho deve haver uma breve homilia, evitando, porém, a forma e o estilo de um elogio fúnebre» (números 78 e 90).

«Segundo os costumes locais, aprovados pelo Ordinário (Bispo) do lugar, (na última encomendação e despedida) podem ser pronunciadas por um dos familiares, ou outra pessoa, algumas palavras de agradecimento e de comentário cristão a respeito do defunto, com estas palavras ou outras semelhantes:

Antes de nos separarmos, permiti que diga umas palavras de agradecimento em nome de todos os familiares deste nosso querido irmão. A vossa presença e a vossa companhia exprimem o afeto e a consideração que sentis para com o defunto e para connosco. Mas, de uma maneira especial, queremos agradecer a vossa oração sincera, pois o melhor conforto e consolação é partilhar convosco a fé na ressurreição que esperamos» (número 97).

3. O funeral de alguém é oportunidade para lembrar a doutrina da comunhão dos santos; a fé na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há-de vir, como dizemos no Credo; afirmar a convicção de que a morte não é fim mas passagem; manifestar com gestos concretos solidariedade para com as pessoas em luto.

Estou persuadido de que, às vezes, se dá um ar teatral a certas exéquias. Em lugar de se encomendar a Deus o cristão que partiu, fica-se com a impressão de haver exéquias aproveitadas para satisfazer a vaidade de vivos. Há quem delas se sirva para fazer propaganda ideológica. Há velórios onde se preenche o tempo com conversas nada aconselháveis como há acompanhamentos, a pé, para o cemitério que deixam a desejar.

O consumismo também aqui se intrometeu. A ambição de faturar leva a gestos escusados e a despesas supérfluas. Mas raras vezes se fala no valor da esmola a favor dos mais carenciados como forma de sufrágio.



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