Espaço do Diário do Minho

Recomeçar sem interromper
17 Set 2019
João António Pinheiro Teixeira

1. Esta é a época dos recomeços. Nas escolas, nas empresas, no desporto e até na política, está tudo a recomeçar. À partida, um recomeço pressupõe uma interrupção. Há entidades que, na época estival, suspendem a actividade habitual.

2. Não é, porém, o que se passa com a missão. A missão está sempre a recomeçar. Mas sem que, alguma vez, possa ser interrompida. A missão é uma constante. Nunca pode parar. Pelo que cada recomeço ocorre imediatamente após o momento anterior. É claro que o missionário tem necessidade de descansar. Mas a missão jamais poderá ser suspensa.

3. O evangelizador tem de repousar até para melhor evangelizar. O descanso é um elemento integrante da missão. O repouso contribui para que se trabalhe com redobrada energia e acrescido entusiasmo. Acresce que, quando um missionário está em descanso, outro missionário está em actividade.

4. Trabalhar sem repousar está unicamente ao alcance de Deus e do Filho de Deus: «Meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho» (Jo 5, 17). Alguns – entranhadamente mergulhados em Deus – conseguiram praticamente estar em missão «non stop».

5. Veja-se o caso de São Paulo, absolutamente assombroso. Segundo São João Crisóstomo, Paulo «desejava mais o descanso sem trabalho do que nós o descanso após o trabalho».

6. São João Paulo II – que viveu num registo muito semelhante ao de Paulo – chegou a confessar que «não tinha o direito de não estar cansado». Ressalvava, porém, que «tinha a eternidade para descansar».

7. No entanto, o próprio Jesus convidou os discípulos a descansar: «Vinde e descansai um pouco» (Mc 6, 31). O descanso mais retemperador é, sem dúvida, estar na companhia do Senhor: a escutá-Lo, a aprender com Ele.

8. Santo Agostinho tudo isto bem percebeu quando, em texto, verteu que «o nosso coração anda inquieto enquanto não repousa» em Deus. E até o «desassossegado» Antero de Quental confessou que «na mão de Deus, na Sua mão direita, descansou afinal o meu coração».

9. Acontece que o descanso do crente não implica a suspensão da missão. A missão está sempre em andamento, sempre em marcha. Enquanto uns descansam, outros prosseguem o trabalho.

10. É por isso que do começo da acção pastoral não decorre que tenha havido um anterior corte da actividade pastoral. Os pastores têm direito a descansar. Mas a Pastoral jamais pode ser interrompida. Ela é fundamental em cada momento da (nossa) vida!



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