Espaço do Diário do Minho

Que fazem aqui?
16 Set 2019
Paulo Fafe

Oiço com alguma atenção e muita pouca paciência, algumas das entrevistas dos líderes partidários que as televisões têm transmitido. Julgo que a intenção é boa, penso que se eu as tivesse teorizado, também as teria apoiado como meio de esclarecer o eleitorado. Mas infelizmente não resultou, porque cada um desses representantes partidários fez, dessa boa intenção, um ato de propaganda programática partidária. Não trouxeram nenhuma novidade e apenas assistimos a reprises enfadonhas, gastas e bolorentas. Salve-se a intenção. Mas esta situação levou-me à interrogação seguinte: que fazem os partidos ditatoriais, PCP e BE, num regime democrático? Pela democracia não lutam, como é evidente. Mas movimentam-se em liberdade de expressão e ação, como se estivessem de acordo com os pressupostos de liberdades democráticas. Que faria o sal num pote de mel? Em nenhuma ditadura, é permitida a presença de democratas, muito menos é consentida a existência de partidos. Então, que fazem aqui, na democracia, os partidos de matriz totalitária como são o PCP e BE? Têm um histórico doutrinário que é contrário à democracia parlamentar; são contra a propriedade privada, são contra a Europa unida, são contra o patronato, são contra tudo aquilo que não seja do estado: bens e pessoas. Estabeleceram-se na Ucrânia, na Polónia, na Bielorrússia, na Roménia, na Bulgária, – isto só para citarmos países europeus – regimes ditatoriais e quando retiraram deixaram povos e terras na miséria absoluta. De doutores fizeram emigrantes indiferenciados. Pela mão de Mikhail Gorbachev, o comunismo soviético mostrou ao mundo uma fartura de ferro velho e uma montanha de desilusão ideológica. Mostrou que o lobo do homem não é o homem, mas o regime autofágico duma igualdade estatal. Isto são factos não são especulações. Mas o PCP e o BE comportam-se como democráticos no nosso regime. É verdade porque o regime não lhes permite que sejam doutra maneira. Mas amor assolapado é vulcão adormecido. E se o regime lhes permitisse acordar? Se querem saber a resposta, leiam Arquipélago Gulag de Solzhenitsyn! Então o que fazem, no nosso regime democrático parlamentar, partidos ditatoriais como estes? A democracia é a boa mãe que até os seus inimigos alberga; isto é, acolhe ditadores de esquerda mas não consente fascistas de direita. Consultem a bíblia da pátria (CRP) e digam-me se não é verdade. Penso que, enquanto eles não podem ser poder, afirmam-se como sindicatos na reivindicação, como fiscais executivos da governação e esperam pacientemente que chegue o dia do homem novo, sonhado de ontem, seja o homem real de hoje. As suas reivindicações são exageradas porque não querem saber de contas certas; antes julgam que as contas incertas levariam o país a uma bancarrota, provocando uma convulsão social tão do seu agrado para um levantamento de massas. Isto está-lhes na génese da alma como o ADN nos está no nosso sangue. Basta observar como eles sonham com as arruadas! Como brilham os olhos comunistas quando evocam as grandes arrudas do PREC! Fazem jeito como sindicatos? Claro que fazem jeito porque, enquanto reivindicam, provocam discussões e contraditórios, que são, como se sabe, as matrizes duma verdadeira democracia. Este favor é ingénuo por parte deles, mas dá jeito à democracia, valha a verdade. Nem sempre os ratos roem no melhor saco. Seria possível existir um partido democrático na China, na Coreia do Norte, por exemplo? Hong Kong dá a resposta.



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