Espaço do Diário do Minho

“Desaparecidos em combate”
16 Set 2019
Narciso Mendes

Já há muito tempo que ando para trazer à cena um caso que se passou com um conterrâneo meu, o Meneses, durante o chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso),1974/75, tendo como pano de fundo a chamada ideologia comunista tão em voga, nesse tempo, na antiga URSS (União Soviética)e no Gonçalvismoem Portugal. Em que havia, como interlocutor um amigo dele, o Castro, que no 25 de abrilse tornou militante do então Movimento de Esquerda Socialista (MES)e como objeto de análise e controvérsia o velho automóvel do Meneses. Carro esse, bastante modesto, comprado em terceira mão graças ao esforço, trabalho e sentido de poupança desse jovem, dos seus 23 anos, regressado da vida militar, cumprida durante três anos até ao último segundo.

Ora, o Meneses que começou a trabalhar logo que saíra da escola primária foi economizando, do pouco que ganhava, algum dinheirito para ver se não passava fome durante o serviço militar, mas que acabou por não gastar. Apenas despendeu algum dele para aproveitar, enquanto lá estava, tirar a carta de condução. Tendo, logo que passou àpeluda, decidido comprar o tal carrito. Embora, longe de imaginar que viria a ser alvo de censura por parte de alguém que se dizia seu amigo, o Castro, recém-alistado no partido dos intelectuais marxistas que quando viu o Meneses, de volante nas unhas, logo se apressou a apelidá-lo de “burguês”,palavra bastante depreciativa para a época que se traduzia, mais ou menos, em ostentação de riqueza.

O nosso homem que ficara triste com o epíteto lançado pelo dito amigo doMES, apesar disso, resolveu nunca se recusar a dar-lhe umas boleias, em gesto de condescendência à pobreza de caráter e raivado radical de esquerda. Não sem trazer à baila, sempre que o Meneses lhe dava boleia, as teorias pregadas por Marx, Trotsky, Lenine e outros mentores da ideologia de querer acabar com os ricos e, quiçá, remediados o que, de certo modo, incomodava dono do veículo, levando-o a pensar: – então, dou boleia a este tipo e ainda por cima me condena por possuir algo de meu, conquistado com o suor do meu rosto? Que Deus me dêpaciênciapara aturar tal idiota invejoso, mas aqui não assenta mais os fundilhos das calças!

Aliás, o Castro tornara-se um incondicional admirador do General Humberto Delgado, por ter prometido tirar uma quinta ou uma casa a quem tivesse duas, para dar à borla a quem precisasse dela, ainda que nada tivesse feito para as merecer, se acaso viesse a ser Primeiro-ministro do país. Daí, tê-lo cativado para esse tipo de políticas, bem como a outros que viam no General – sem medo – o maná caído do céu. Tal como passou a acontecer com aqueles que passaram a pregar essas ideologias os quais, ainda hoje, vão sobrevivendo à custa da parasitagem, dos subsídios, das benesses e dos tachos que o estado lhes confere sem que, para isso, levantem uma palha. Só que o Meneses resolvera acabar com aquela treta, dentro da sua própria viatura, vinda daquele comodista a quem, posteriormente, teve de pregar algumas fintas quanto a boleias.

Entretanto, o tempo foi passando e do homem do MES nada. Até que passadas várias eleições, para isto e para aquilo, o Meneses ao atravessar a passadeira numa das ruas da cidade avistou o tipo, agora, de cabelos grisalhos, ao volante de uma alta cilindrada – daquelas que só osburgueses,de outrora, podiam ter – a dar-lhe passagem. Estava quebrado o enguiço: – o de pensar que o Castro se tornara num simprolas, preso às convicções de esquerda, aos seus preconceitos e contra a subida na vida por parte dos que conquistam algo para si.

Já do outro lado da rua, o Meneses caminhava pensativo quanto à palavra “burguês” e ao seu “conceito”,desaparecidos em combatedos manuais da retórica política. Dado que os patamares de riqueza foram atingidos por muitos socialistas e comunistas. Hoje, possuidores de boas máquinas, vivenda e casa na praia, bens que usavam no confronto ideológico, de outrora, apenas por inveja.



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