Espaço do Diário do Minho

Vitória com história e glória
13 Set 2019
Carlos Dias

Na história do desporto há um rol enorme de pequenos ou grandes acontecimentos que marcam determinado momento, mas que perduram na memória coletiva.

Estas histórias mais marcantes no fenómeno desportivo comportam momentos de glória, outros de deceção, outros de tristeza, outros de superação, também alguns trágicos, mas são estas histórias que dão dimensão e relevância ao desporto, enquanto domínio social. E há pequenos pensamentos/momentos que podem mudar as nossas vidas.

O judoca Jorge Fonseca tornou-se o primeiro português a sagrar-se campeão do mundo de Judo. Em Tóquio, cidade que também receberá os próximos Jogos Olímpicos, em 2020, o português delineou um percurso extraordinário que o conduziu ao histórico título mundial, ultrapassando atletas da elite nesta categoria (–100kg). Esta foi uma vitória marcante e inédita para o Desporto português, mas quando analisamos o percurso pessoal e desportivo deste atleta, esta vitória ganha uma dimensão fenomenal, quase sobre-humana.

Oriundo de S. Tomé e Príncipe, chega ao nosso País com 11 anos, e como todos os jovens desta idade foi o futebol que o integrou na comunidade, mas a descoberta do judo surge por curiosidade. No tatami descobriu o palco privilegiado para a sua expressão desportiva, mas a vida pessoal, quase, lhe trocou as voltas: quando tinha 17 anos, foi pai, o que lhe alterou muitas das rotinas e prioridades. Mesmo assim, o percurso nacional foi muito positivo, e em 2013 sagra-se campeão da europa (sub-23).

Contudo, dois anos depois, foi-lhe diagnosticado um tumor na perna. O tatami nunca deixou de fazer parte do seu dia-a-dia. A doença, os tratamentos, o sofrimento, que para muitos seriam motivos para desistir do percurso desportivo, construíram um atleta mais completo. Não deve ter sido fácil, mas essa perseverança, superação e crença, abriu o caminho para conquistar o título mundial e, mais importante ainda, colocou-o num lote restrito de super-campeões, que para além de ganharem títulos, são referências inspiradoras da história do desporto.

O “judoca dançarino” (visto que comemorou o título, ainda no tatami, com uma dança) deu-nos uma imensa lição de vida: porque enfrentou os diversos obstáculos que lhe foram aparecendo, que poderiam parecer impossíveis de superar, manteve a força e a determinação necessárias para os transpor e conquistar um título mundial. Outra conquista do judoca Jorge Fonseca foi ter sido primeira página de um jornal desportivo… inédito! Como disse Bruno Lage, treinador de futebol do SL Benfica, quando recebeu o prémio de “Treinador do Ano”: “Para se ganhar, temos que perder muito e saber perder”.

Este título mundial foi um feito extraordinário para o judo, para o desporto e para a humanidade. E, na minha perspetiva, a relação entre a Damaia e Tóquio ainda não encerrou, temos todos o sonho que em 2020, nesta cidade nipónica, seja escrita mais uma página de glória para o desporto português!…



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