Espaço do Diário do Minho

Os ruídos da dança
13 Set 2019
Artur Soares

Estamos a suportar a campanha eleitoral para as eleições legislativas de 6 de Outubro próximo. Os dirigentes políticos andam em roda-viva. Fala-se muito, gesticula-se outro tanto e crescem no canto das bocas a espuma do falatório e os perdigotos que se expelem pela falsa convicção dos tratantes, que lideram os tratados na via pública ou nas televisões, e que estas teimam em repetir até à exaustão.

O povo, parte do povo, acompanha, deixa-se beijar, não entende porque pugnam os políticos: porque gritam, porque se guerreiam, porque mostram tanta vontade de representar o povo! Os dirigentes políticos falam de tantas coisas que o país se interroga. Há promessas, coisas que vão ser feitas, coisas que não foram feitas “mas que se fizeram”. O povo, estupefacto, assiste a uma verdade: os políticos fazem sempre as mesmas campanhas e dizem sempre o mesmo – nada.

Sentados à mesa do café, nos restaurantes, nas esquinas – que são os sofás dos técnicos de lazer– todos estão de acordo: poucos ou ninguém acredita (já) nos políticos e muito menos nas campanhas eleitorais.

O Partido socialista tomou conta da Nação. O seu chefe corta e risca, nomeia ou arreda dos cargos políticos quem entende. Os restantes PS’s aceitam os mandos e desmandos de António Costa, pois se assim não for, corta-se, aos excitados/reclamantes, as benesses ou mordomias disponíveis.

O actual Governo confia na publicidade feita e nas mentiras que ao longo destes quatro anos soube distribuir. “Porque recuperaram a confiança dos portugueses” – não recuperaram, pois o país tem autênticos cancros e não almeja remédio capaz de os curar. “O país tem recuperado a economia nacional” – não recuperaram, pois o dinheiro que havia nos cofres foi acto rapace por imposição da Troyca, até 2015, e os serviços públicos e os investimentos estão na lamaçal.

“Os projectos anunciados para adquirir o progresso para o país” – são uma farsa, pois o país não tem dinheiro para certos projectos e Costa diz que serão reestudados. Muito, mas muito mais se podia apontar nesta política que Costa anuncia e que, quem sabe?, até ganhará por números altos as eleições. O povo o dirá, mas a maioria não o dirá conscientemente, pensadamente, culturalmente.

Ainda sentados à mesa dos cafés ou nas esquinas de qualquer canto, comenta-se que Rui Rio quer fazer política, quer governar o país, que irradia seriedade, que tem óptimo serviço prestado, que tem ideias para matar banalidades, que é fiel à social democracia dos seus fundadores, mas que não consegue e não pode mandar, porque “há uma minoria do Partido que faz muito barulho”. É que os seus companheirosbarafustam, vivem excitados, gesticulam e correm muito mas não trabalham: apenas querem a continuidade das regalias, lutam e atraiçoam se preciso for para as manter e para terem uma aposentação vitalícia, devido à política exercida, sem fazerem os respectivos descontos.

Os Centristas, desorientados, grevistas – bem como comunistas e bloquistas – na greve dos motoristas, parecem resignados a uma derrota eleitoral, onde o banal da sua campanha nada tem que prenda, que dê esperança àqueles que – silenciosamente – se vão sentindo órfãos dos Partidos do Centro ou do centro/direita. António Costa deve-se rir de tanta banalidade e desorientação entre os seus adversários políticos!

Os portugueses, nesta campanha caduca, sentem zero de novidades para um futuro melhor. Já falam que vai acontecer novo engrossamento do maior Partido em Portugal – os abstencionistas. Recorde-se que nas legislativas de 1975, a abstenção foi de 9%. Nas legislativas de 2015, foi uma abstenção de 44%, que foi o auge de sempre, e tivemos uma abstenção vergonhosa de 70% nas eleições europeias!

Como pode um país dizer que vive em democracia, como podem os políticos sentirem-se vitoriosos com resultados eleitorais, se o partido abstencionista é de tal tamanho e se é sabido que são os jovens o grosso da coluna, porque que em nada crêem?

Não admira, pois, que o descalabro se verifique na ausência das urnas. Os buracos nacionais que teimam em não ser tapados – como pessoal insuficiente em todos os serviços do Estado; como a continuidade de fogos anualmente programados por interessados e criminosos; como o descalabro ou as desilusões na Saúde, na Educação, na Cultura; como na não resolução do vergonhoso (chamado) Acordo Ortográfico; na não entrega (ostracizada) da província de Olivença, que é Portugal; na não recuperação da vida económica da classe média, etc. – arredam das urnas os injustiçados e aumenta neles o desdém, porque sentem que só os governantes se querem governar.

Que os ruídos desta oca dança que as campanhas eleitorais teimam em manter – com banalidades, atitudes surreais, mentiras e acções hipócritas – não desanimem os portugueses de votar, para, democraticamente, derrotar os abstencionistas e Portugal ser melhor.

(O autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)



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