Espaço do Diário do Minho

Um gentleman não tem idade: um minhoto no palácio
10 Set 2019
António Lima Martins

Neste período estival tivemos a felicidade de conhecer uma figura ímpar da hotelaria nacional. Não é nenhum empreendedor, director, gerente, relações públicas. Apenas (e o advérbio não é desmerecedor) um funcionário que não deixa ninguém indiferente no luxuoso “Estoril Palácio Hotel”.

Por esta unidade hoteleira passaram (e passam) realezas (neste Agosto por lá passou a Duquesa de Soria e irmã do Rei Emérito de Espanha Juan Carlos, a Infanta Margarita), actores, cineastas, escritores, desportistas, políticos, diplomatas e, em tempos de segunda guerra mundial, até espiões!

Voltando ao nosso intróito não posso deixar de dar nota de José Afonso, homem do Minho que se diz adepto do Sporting Clube de Braga e que, muito novo, partiu de Caldelas para o glamour da Costa do Estoril; no “seu” Palácio conquista o agradecimento e carinho de todos. Com 17 anos rumou a uma vida melhor iniciando o seu trabalho naquele hotel nos idos anos de 1951.

Trabalhou na copa, passou pela cozinha, foi bagageiro 5 anos até chegar ao que é hoje: muitos dizem-no Porteiro, mas a sua categoria profissional é, há mais de cinquenta anos, a de Trintanário (do francês antigo Trantaner). Profissão do ramo da hotelaria de quem, à porta de hotéis de luxo e com uniforme comprido, tem a função de receber os clientes, abrir portas dos automóveis, dar informações.

Este homem, vestido a rigor, espalha charme e gentileza, é um gentleman. Já assim o fazia quando aí foram filmadas as cenas em que, com o seu outro colega, também amabilíssimo, José Diogo Vieira, actual Concierge, participaram, já lá vão 50 anos, no sexto filme da saga James Bond “On Her Majesty´s Secret Service”. Aquele chamando o motorista à porta, este entregando a chave do quarto ao agente mais famoso do mundo, 007.

José Afonso, aliás tal qual o Concierge, são história viva e ambos merecem palavras de apreço e consideração; são exemplos de que a educação, a competência, o profissionalismo não têm idade e a velhice não é uma fatalidade!

O minhoto (assim o identifico carinhosamente) cumprimenta-nos com um brilho no olhar do alto dos seus imponentes 85 anos! Sim, leram bem! Num mundo em que a expectativa de vida tem aumentado, o olhar para a população mais idosa e saber dela aproveitar dentro de uma organização, de forma dialéctica, colaborativa e respeitadora, as suas experiências, o – digamos assim – “calo da vida” é um desafio aliciante para todos.

Os mais velhos, muitas vezes querem trabalhar e não os deixam, não raras vezes são tidos por dispensáveis muito tempo antes da idade de reforma.

Este senhor José Afonso, senhor mesmo, confidenciou-nos que, ano após ano, a administração do Hotel renova a sua confiança sem amarras a preconceitos ou a estigmas. Não é difícil compreender porquê. Este espelha bem a alegria de viver e uma força intrínseca que irradia e se espraia para os seus hóspedes. Um bem-haja a esta demonstração de carinho e apreço por quem, certamente, tanto deu e tanto dá àquela casa.

Este é o nosso pequeno e humilde tributo a esta personagem ímpar nascida no Minho que continua – e dignamente – a ser parte da história de um dos hotéis mais emblemáticos de Portugal!



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