Espaço do Diário do Minho

Praxes académicas e faltas de respeito
5 Set 2019
Silva Araújo

1. Leio no livro «Manuela Eanes», de Fátima Campos Ferreira:

«Nós tínhamos – afirma Manuela Eanes, referindo-se à vida de estudante de Direito – um grupo muito ativo na JUC (Juventude Universitária Católica) feminina. Eu ainda sou do tempo em que os rapazes estavam na JUC masculina e as raparigas na JUC feminina. Fizemos muitas coisas, tínhamos muitas reuniões, inclusivamente fizemos a primeira exposição depois do Concílio Vaticano II. Havia uma grande vivência, um grande entusiasmo. Eu fico muito chocada com as praxes que têm havido ultimamente. Na altura havia uma coisa muito importante: recebíamos as caloiras com um lanche, ficávamos madrinhas de algumas – eu fui madrinha, por exemplo, da Assunção Trony, e também da Luísa, mulher de Basílio Horta, que ainda hoje me telefona, e eu telefono-lhe, partilhando notícias.

Se houvesse algum problema podiam contar connosco. Acho que isso é que é o verdadeiro espírito universitário: ficarmos responsáveis pelos mais novos. É muito importante estarmos abertos aos colegas, permitir que eles se sintam bem, pois a mudança de ambiente é muito difícil para alguns. Há tantos movimentos para tanta coisa. Acho que deveria haver um movimento para pôr fim às praxes agressivas, desumanas e degradantes» (pag. 30-31).

2. Às praxes se refere também Diogo Freitas do Amaral. Na página 230 de «Mais 35 anos de democracia» narra como obteve da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito «a renúncia completa a qualquer forma de praxe académica». Ao fim de três horas conseguiu convencer os dirigentes da Associação «de que a praxe académica não só não servia para qualquer fim útil, como se traduzia na maioria dos casos em violação dos direitos humanos fundamentais, tanto dos caloiros como sobretudo das caloiras». Conseguiu que a praxe académica fosse substituída por uma «semana de receção aos novos alunos», com a participação ativa de estudantes e professores.

«Que sentido faz, perguntou aos mais velhos, vocês receberem os mais novos nesta casa, que é de todos, com exigências imorais, mangueiradas e humilhações? Acolham os caloiros com simpatia, mostrem-lhes os cantos à casa, expliquem-lhes como é diferente a universidade do liceu, e ofereçam-se para os ajudar nas dificuldades que vierem a enfrentar nas disciplinas do primeiro ano. Isso, sim, será uma autêntica solidariedade académica!»

«Foi o que se fez, acrescenta, logo em outubro de 1998. E a experiência foi um sucesso! Só é pena que ainda hoje, em pleno século XXI, haja universidades portuguesas que consintam na continuação da estúpida tradição, marialva e machista, da velha praxe académica, e que todos os governos (de direita e de esquerda) revelem medo de a proibir… Ainda não perceberam que essas praxes são muito piores que as touradas?!»

3.Coma formalização da matrícula começa dentro de dias, praticamente, um ano letivo nos estabelecimentos de Ensino Superior. A solidariedade bem praticada exige que os mais velhos apoiem os mais novos, mas os apoiem de verdade. Que os recebam com amizade e alegria, pois ingressar no Ensino Superior é motivo de festa.

4.A experiência diz-nos haver muito a corrigir no que se chama de praxes académicas.

Que se elabore um programa de verdadeiro acolhimento aos mais novos, em que se evite toda a espécie de exageros. Onde as pessoas se respeitem e respeitem os outros.

Que se reveja também a forma de exteriorizar a alegria do fim do curso com a Queima das Fitas, onde tem havido comportamentos de evitar. Onde é necessário mostrar como a chamada irreverência académica não anda divorciada da boa educação. E os cortejos, às vezes de uma confrangedora pobreza, revelem nível de Ensino Superior.

5.Noacolhimento aos mais novos os estudantes verdadeiramente cristãos deverão sentir-se vocacionados a marcar a diferença. A ver nos outros irmãos merecedores de apoio. É revoltante tratarem-nos como objetos que se exibem na praça pública a fazerem momices e palhaçadas ridículas.

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A solidariedade bem praticada exige que os mais velhos apoiem os mais novos, mas os apoiem de verdade. Que os recebam com amizade e alegria, pois ingressar no Ensino Superior é motivo de festa.



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