Espaço do Diário do Minho

O padre António Manuel de Sousa Fernandes
1 Set 2019
Eduardo Jorge Madureira Lopes

“A generosidade é a virtude da dádiva”. É deste modo que o filósofo francês André Comte-Sponville inicia as considerações sobre a generosidade incluídas no Pequeno tratado das grandes virtudes(Lisboa: Presença, 1995). De entre as quase duas dezenas de virtudes recenseadas, a mais apropriada para caracterizar o padre António Manuel de Sousa Fernandes poderá ser a generosidade. Mesmo os que preferirão sublinhar-lhe preferencialmente outras qualidades morais não discordarão quanto à circunstância de a generosidade ser um dos traços essenciais deste homem culto, inteligente, talentoso (com talentos diversificados, aliás) e bem disposto, que, sendo sobretudo padre, foi ainda advogado, professor universitário (foi meu professor na Universidade do Minho), político, maestro e tantas outras coisas. Foi também um bom amigo.

Generosidade, portanto. Escreve o filósofo francês, reportando-se a um pequeno extracto do matemático, físico e filósofo francês René Descartes, que ela “é ao mesmo tempo consciência da sua liberdade (ou de si mesmo como livre e responsável) e firme resolução de a utilizar devidamente”. O percurso do padre António Manuel de Sousa Fernandes é um expressivo testemunho da veracidade desta afirmação. Esse caminho não foi isento de dissabores, como os que, com um corajoso grupo de sacerdotes e de leigos, teve de viver antes de 25 de Abril de 1974 por pretender uma Igreja bracarense em sintonia com o espírito do Vaticano II.

A reflexão sobre a generosidade dá boa conta do quão ela é assaz admirável: “Como todas as virtudes, a generosidade é plural tanto no seu conteúdo como nos nomes que lhe atribuem ou servem para a designar. Aliada à coragem, ela pode ser heroísmo. Aliada à justiça, faz-se equidade. Aliada à compaixão, torna-se benevolente. Aliada à misericórdia, ei-la indulgente. Mas o seu nome mais belo é o seu segredo, que todos conhecem: aliada à doçura, ela chama-se a bondade”.

“Bem fazer e manter-se alegre”, pretendia Baruch de Espinosa, que André Comte-Sponville cita, para acrescentar: “O amor é a meta; a generosidade, o caminho”. Uma outra afirmação do filósofo holandês do século XVII, filho de judeus portugueses fugidos da Inquisição – “o amor é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior” – serve ao autor do Pequeno tratado das grandes virtudespara comentar que “amar o amor, portanto, é regozijar-se com a ideia de que o amor existe, ou existirá, mas é também esforçar-se por fazê-lo advir, é a própria generosidade: ser generoso, diria eu, é esforçar-se por amar e agir de acordo com isso”.

Como fez o padre António Manuel de Sousa Fernandes.

P.S.: A Junta de Freguesia de S. Victor podia dedicar o tempo a carimbar papéis e a organizar periodicamente festas com idosos na Quinta da Malafaia, mas não. Considerou, por isso, útil promover iniciativas significativas e justas. Uma delas visa homenagear pessoas que marcam ou marcaram a freguesia e a cidade. No dia 17 de Novembro de 2017, o homenageado foi António Manuel de Sousa Fernandes. A diversidade dos testemunhos, designadamente de Carlos Vaz, Luís Soares Barbosa, Raul Peixoto e do presidente da Junta, Ricardo Silva, que enalteceram Sousa Fernandes, e a intervenção do homenageado tornaram memorável o serão.



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